A ligação que salvou a vida de uma bebê de três meses

Com voz firme e experiente, o sargento Célio Moreira Coelho conduziu a família passo a passo até ouvir o choro que trouxe alívio
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Por RODRIGO ÍNDIO, de Macapá (AP)

Em uma casa no bairro Zerão, em Macapá, o silêncio da tarde foi interrompido pelo desespero. O que deveria ser o cochilo tranquilo de uma bebê de apenas três meses transformou-se em segundos de angústia. No colo da mãe, a criança não conseguia respirar.

Do outro lado da linha, a voz firme que atendeu o chamado no Centro Integrado de Operações de Defesa Social (Ciodes) era a do sargento Célio Moreira Coelho. Bombeiro militar há 22 anos, ele carrega na trajetória não apenas a farda, mas a experiência de quem já enfrentou incêndios, salvamentos e emergências de toda natureza. Ainda assim, cada ocorrência é única — e urgente.

“Ciodes, emergência”, anunciou, com a serenidade de quem sabe que cada palavra pode ser decisiva.
— “Tem uma criança aqui engasgada.”
— “Qual a idade dela?”
— “Ela tem três meses só”.

Do outro lado, nervosismo. Do lado de cá, precisão.

Moreira percebeu o desespero na voz da família e iniciou imediatamente as orientações para a manobra adequada, a de Heimlich. Em bebês menores de um ano, o procedimento exige cuidado redobrado: a criança deve ser posicionada de bruços sobre o antebraço, com a cabeça levemente mais baixa que o corpo, intercalando cinco tapas firmes nas costas e cinco compressões no tórax.

“De peito para baixo e bater nas costas dela”, orientava, enquanto a equipe de atendimento pré-hospitalar móvel se deslocava para o bairro Congós, ampliando as chances de sobrevivência da pequena.

Os segundos pareciam minutos.
— “Como é que tá aí?”
— “Agora chorou!”
— “Chorou?”
— “Chorou!”

O choro que ecoou pelo telefone foi o som da vida retomando seu ritmo. Antes disso, percebendo que o desengasgo demorava a surtir efeito, o sargento ainda orientou a aspiração direta das narinas da bebê. A respiração foi normalizada. O alívio, imediato.

“Esse é o nosso prêmio”, resume Moreira. “Quando a pessoa diz ‘meu filho está respirando, está vivo’, é gratificante demais”.

O sargento Célio Moreira Coelho afirmou que ouvir os pais confirmando que a criança voltou a respirar é uma das experiências mais gratificantes da profissão. Fotos: Ciodes/Divulgação

A família levou a criança, por meios próprios, a uma Unidade Básica de Saúde próxima de casa. Não foi necessária remoção pela equipe, porque a vida já havia sido devolvida ali mesmo — por meio de orientação, preparo técnico e equilíbrio emocional.

Acolhimento que não dorme

O Centro Integrado de Operações de Defesa Social é a principal porta de entrada eletrônica do sistema de segurança pública e defesa social do Amapá. Pelos números 190 (Polícia Militar), 193 (Corpo de Bombeiros), 192 (Samu) e 181 (disque-denúncia), a população encontra atendimento 24 horas por dia.

Somente em 2025, mais de 76 mil ocorrências foram recebidas e despachadas pelo Ciodes. Destas, mais de 4,1 mil foram emergências clínicas — como a que mobilizou o sargento naquela tarde de janeiro. A Polícia Militar lidera os atendimentos, seguida pelo Corpo de Bombeiros, Polícia Civil e Polícia Científica.

Somente em 2025, o Ciodes recebeu mais de 76 mil chamadas, incluindo milhares de ocorrências clínicas atendidas 24 horas por dia

Para Moreira, que está em sua segunda passagem pelo Ciodes — a primeira entre 2009 e 2014, e a atual desde 2024 —, não foi a primeira vez salvando uma vida por telefone. Ele já orientou casos de engasgo, reanimação cardiopulmonar e até tentativas de suicídio.

Mas nenhuma ocorrência se torna comum.

“Meu sentimento é de alívio, de dever cumprido. Escutar os pais dizendo que a criança voltou a chorar… é indescritível. Só Deus mesmo, foi ele que me colocou nessa missão e me auxiliou em tudo, sou grato a ele”, finalizou Célio.

Seles Nafes
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