Por RODRIGO ÍNDIO, de Macapá (AP)
Debaixo de chuva, o aposentado Emanoel Borcem (foto de capa), de 70 anos, aguardava por um reencontro que carregava memória, dor e gratidão. Nesta quinta-feira (21), ao ver o histórico avião Bandeirante cruzando lentamente a Avenida FAB, no centro de Macapá, ele reviveu o drama sofrido após um grave acidente na região do Lourenço, em 1988. Foi naquela aeronave que veio o resgate que ajudou a salvar sua vida.
“Nós estávamos transportando óleo para o Lourenço. Em 22 de agosto de 1988, o caminhão tombou e eu fui sacado. Quebrei dentes, precisei ser drenado… eu praticamente morri ali. O governador Jorge Nova da Costa mandou nos resgatar. Hoje eu vim ver o avião que salvou minha vida”, relembrou Emanoel.

O translado do Bandeirante percorreu ruas históricas de Macapá, incluindo a Avenida FAB, antiga pista de pouso da cidade antes da construção do aeroporto. Fotos: Rodrigo Índio/SelesNafes.com
Do Aeroporto ao Parque da Residência
As ruas de Macapá se transformaram num verdadeiro museu a céu aberto. Quem passava pelo centro da capital foi surpreendido por uma cena incomum: um avião de 22 metros de comprimento transitando em plena via pública. O translado do histórico avião Bandeirante até o Parque Residência (antiga residência oficial do governo) ocorreu de forma voluntária e sem divulgação prévia, mas foi o suficiente para paralisar as atividades de servidores, estudantes e pedestres, que desafiaram a chuva para registrar o momento.
O trajeto começou no hangar do aeroporto, seguindo pela Rua Hildemar Maia até entrar na emblemática Avenida FAB — via que, historicamente, serviu como a primeira pista de pouso de aviões na cidade antes da construção do atual aeroporto. De lá, a aeronave seguiu pelas ruas Coriolano Jucá e Independência até o seu destino final.
“É um momento histórico. Foi o primeiro avião do estado e temos que dar valor a isso, por isso estou aqui. Bonito e é uma cena que chama muito a atenção”, destacou a técnica em enfermagem Neves Rabelo, que parou para acompanhar o cortejo.

A técnica em enfermagem Neves Rabelo destacou a cena incomum nas ruas da capital. Fotos: Rodrigo Índio/SelesNafes.com
Ao passar em frente à Escola Estadual Professor Gabriel de Almeida Café, o imenso Bandeirante causou entusiasmo. Alunos e professores saíram às calçadas sob chuva para aplaudir a chegada da relíquia. Para o diretor da instituição, Ruan Marinho, o momento pedagógico e histórico é imensurável.
“Olha esse momento lindo que a escola e a comunidade do Gabriel Café estão recebendo! Para esses alunos é um momento histórico. Esse avião transportou desde o comandante Aníbal Barcellos até Mário Andreazza. Meu Deus, estou todo molhado, mas vale a pena porque eu e meus alunos nunca vamos esquecer, foi lindo!”, emocionou-se o diretor.

O diretor Ruan Marinho afirmou que alunos e professores da Escola Gabriel Café viveram um momento…

… que ficará marcado na memória da comunidade escolar
Para a nova geração, o impacto foi visual e cultural.
“Estou achando esse momento incrível. Nunca tinha visto um avião de perto”, relatou Matheus Guilherme, de 17 anos, aluno do 1º ano do ensino médio.

O estudante Matheus Guilherme contou que nunca tinha visto um avião de perto
O avião Bandeirante
Produzido pela Embraer, o Bandeirante (prefixo FDL – Fox Delta Lima) é um turboélice bimotor com 14 metros de envergadura. Por se tratar de uma versão executiva, comporta dois pilotos e sete passageiros. A aeronave chegou ao Amapá em 1981, fruto de uma articulação do então governador do Território Federal, Aníbal Barcelos, junto ao Ministro do Interior, Mário Andreazza. Até o seu último voo, em 1997, prestou relevantes serviços administrativos e de apoio à saúde (como remoções aeromédicas) no interior do estado.

Sem divulgação prévia, a passagem do avião mobilizou servidores, pedestres e moradores, transformando o centro de Macapá em uma espécie de museu a céu aberto
Atração no Parque da Residência
Agora, o Bandeirante passa a ser uma das 29 atrações do Parque Residência. Segundo o Governo do Amapá, a instalação da aeronave reforça o compromisso com a preservação da memória da aviação e do desenvolvimento regional. O espaço foi revitalizado para promover o lazer, a cultura e o turismo, aproximando a população amapaense de seus maiores símbolos históricos.
