Guerra do dendê expõe violência, disputa por terras e denúncias no interior do Pará

Terra Indígena Turé-Mariquita, em Tomé-Açú: Indígenas denunciam ameaças, presença de traficantes, contaminação de rios e avanço da monocultura do produto vendido em todo o mundo
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Por PEDRO PESSOA, de Belém (PA) – A rotina na Terra Indígena Turé-Mariquita, em Tomé-Açu, no nordeste do Pará, mistura cantos tradicionais, reuniões de lideranças e preocupação constante com o futuro. Em uma das regiões mais lucrativas da produção de dendê no Brasil, indígenas relatam ameaças, conflitos armados, perda de território e impactos ambientais provocados pelo avanço da monocultura. O cenário faz parte do que moradores e pesquisadores já chamam de “guerra do dendê”, uma disputa que envolve comunidades tradicionais, empresas do agronegócio, conflitos fundiários históricos e até denúncias da presença de grupos criminosos em áreas produtivas do Vale do Acará.

Segundo a Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa), o Pará concentra cerca de 97% de toda a produção nacional de dendê. O óleo de palma produzido no estado abastece indústrias de alimentos, cosméticos, produtos de limpeza e biocombustíveis. A produção brasileira saltou de pouco mais de 240 mil toneladas em 1988 para 3,2 milhões de toneladas em 2024. Só o Pará produziu mais de 3 milhões de toneladas no último ano.

Lúcio Tembé: “Nosso povo aqui já foi muito massacrado”. Fotos: Pedro Pessoa/Portal SN

Emídio Tembé: “até meu irmão já pegou tiro”

A importância econômica transformou a região em área estratégica para o agronegócio. Mas, para quem vive nas aldeias, o crescimento da produção também trouxe tensão.

“Nosso povo aqui já foi muito massacrado, foi muito humilhado, muito perseguido”, afirmou o cacique Lúcio Tembé.

Pesquisador Embrapa – Marcos EnêGilberto Marques – pesquisador UFPAAs comunidades indígenas afirmam que áreas utilizadas tradicionalmente para caça, pesca e agricultura foram ocupadas por grandes empresas de plantação de dendê ao longo das últimas décadas.

Há cerca de seis anos, indígenas retomaram parte de uma área plantada com dendê que consideram território ancestral. Desde então, passaram a utilizar a venda do fruto como fonte de renda para a comunidade. Casas, carros e celulares foram adquiridos pelos indígenas após a comercialização da área.

Mas o conflito não terminou. Segundo as lideranças, outro grupo indígena, acompanhado de pessoas de fora da comunidade, teria assumido o controle de parte da área produtiva após perceber a alta lucratividade da região.

Plantação de palma…

…de onde é extraído o dendê

“Hoje entrou pessoas de terceiro, gananciosos… aí vem os poceiros, vem os traficantes, vem os invasores”, disse o cacique Lúcio Tembé.

Os relatos de violência também se repetem entre os moradores da região.

“A gente anda ameaçado por aí. Até o meu irmão já pegou um tiro aí por causa desses traficantes”, contou o cacique Emídio Tembé.

Além da disputa por terra, indígenas denunciam impactos ambientais provocados pelo avanço das plantações. Segundo moradores, rios e igarapés deixaram de ser utilizados pelas comunidades por medo de contaminação. A caça também teria diminuído.

“A gente não toma banho no igarapé, não bebe água, não pesca”, relatou a indígena Xandi Tembé.

Xandi Tembé afirma que perdeu um bebê durante agressões

Ela também afirma ter perdido um bebê após sofrer agressões durante um conflito em uma área disputada.

“Eu perdi um bebê também… aí daí virou uma guerra”, afirmou.

Apesar das denúncias, especialistas destacam que o dendê possui forte importância econômica mundial.

“A indústria alimentícia mundial depende do óleo de palma”, explicou o pesquisador da Embrapa, Marcos Enê.

Na tentativa de reduzir impactos ambientais, produtores e pesquisadores da região também desenvolvem sistemas agroflorestais, que misturam o cultivo do dendê com espécies nativas da Amazônia.

“Consorciando o dendê com o açaí, com espécies florestais e plantas que adubam o solo”, explicou Dinaldo Santos, da Cooperativa Agrícola Mista de Tomé-Açu (Camta).

Marcos Enê, da Embrapa: a indústria alimentícia mundial depende do dendê

Dinaldo Santos, da Cooperativa Mista: consórcio que ajuda o solo

Gilberto Marques, da UFPA: avanço sobre áreas indígenas

Para pesquisadores, o conflito no Vale do Acará é resultado de décadas de concentração fundiária e ausência de regularização de terras na Amazônia.

“Essa expansão da concentração fundiária ocorria sobre áreas já ocupadas por populações indígenas, quilombolas, ribeirinhas e camponesas”, afirmou o pesquisador da UFPA Gilberto Marques.

O Ministério Público Federal informou que investiga denúncias relacionadas à contaminação por agrotóxicos, possíveis irregularidades fundiárias e violações de direitos de povos tradicionais na região.

O órgão também afirmou que cobra a regularização de territórios indígenas e quilombolas para reduzir os conflitos no Vale do Acará.

Seles Nafes
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