Por SELES NAFES e DOMINGOS SECCO, da NexOS (plataforma de informações territoriais)
No Amapá, a disputa do carro elétrico já tem lado — e é toda chinesa. Enquanto a GWM prepara a abertura de sua primeira loja em Macapá, na Rodovia Duca Serra, na zona oeste de Macapá, a frota da marca na capital saltou de 38 para 68 carros somente em fevereiro e maio deste ano; a líder BYD, essa, foi de 632 para 839. Numa capital que não tem estrada ligando ao resto do Brasil, o elétrico deixou de ser promessa e virou cena de rua.
O carro elétrico tem fama de coisa de metrópole rica do Sudeste. O dado de frota do Amapá conta outra história — e conta de um jeito que só quem é daqui entende de imediato: numa cidade cercada de rio e floresta, sem ligação rodoviária com o resto do país, onde tudo chega de balsa ou de avião, o elétrico chinês virou rotina mais rápido do que muita gente imaginava.
“Temos o nosso veículo elétrico há cerca de dois anos e vamos comprar outro. Nossa despesa com as recargas em casa não passam de R$ 250 por mês”, explica o professor universitário Adolfo Colares.

ICar, da Caoa Cherry: R$ 250 de energia por mês. Fotos: Seles Nafes
De acordo com levantamento da NexOS (plataforma que reúne informações de setores da economia brasileira nos estados), só a capital reúne 792 dos carros elétricos e híbridos plug-in. Na vizinha Santana, município da região metropolitana de Macapá, existem 109. No interior — Laranjal do Jari, Oiapoque, Vitória do Jari — o número beira o zero: são cidades onde a recarga ainda esbarra na infraestrutura e na distância. O carro elétrico amapaense, por ora, é um fenômeno de Macapá e do seu porto vizinho, e a tendência é de escalada impulsionada por dois fatores: energia solar residencial e incentivos do governo do Estado que, na Expofeira deste ano, vai reduzir ainda mais o ICMS para elétricos. Atualmente, o estado já isenta os híbridos e os de tomada do pagamento de IPVA.
Há outras frentes de incentivo. Condomínios em construção já oferecem postos de recarga gratuitos (com energia solar) como benefícios para atrair investidores e moradores. Até a Equatorial, concessionária de energia do Amapá, montou um posto gratuito de recarga na orla do rio Amazonas, bairro Santa Inês.

Paisagem nas ruas ainda é dominada pela BYD

Carros elétricos na Rodovia Duca Serra
Em Macapá o crescimento visual nas ruas é explicado em números. Entre os automóveis novos que passaram a rodar na cidade nos últimos anos, 8,7% são elétricos de tomada — 713 veículos —, uma taxa que muita capital do Sudeste ainda não alcançou. Santana vem logo atrás, com 7,2%. Veja como as duas cidades da região metropolitana se comparam:

Guerra das montadoras
O avanço do carro elétrico no Amapá não é um fenômeno isolado: é a ponta local de uma virada que corre pelo Brasil inteiro, empurrada pela guerra de preços das montadoras chinesas BYD e GWM. O BYD Dolphin, que um dia custou como um carro de luxo, hoje disputa preço de igual para igual com um Volkswagen Polo ou um Hyundai HB20 topo de linha. O que muda por aqui é o cenário: essa virada teve de atravessar o rio para chegar. Cada Dolphin que roda na orla de Macapá veio de balsa, subindo o Amazonas — e, ainda assim, eles não param de chegar.
No país, o ritmo da troca impressiona: nos últimos três meses medidos, a frota do Dolphin cresceu 36,5%, enquanto a do Chevrolet Onix, o carro mais vendido do Brasil, avançou apenas 1,8%. O líder de vendas praticamente estacionou; o desafiante elétrico dobra de tamanho a cada poucos meses. Em Macapá, como se verá adiante, esse contraste é ainda mais acentuado.

Loja com oficina sendo construída na zona oeste

Posto de carregamento elétrico às margens do rio Amazonas, em Macapá. Foto: Equatorial/Divulgação
A notícia da chegada da loja da GWM a Macapá casa com o que o dado já vinha mostrando: a marca cresce na cidade “antes mesmo de abrir as portas”. A frota de GWM no Amapá passou de 38 carros em fevereiro para 68 em maio — alta de 79% em três meses. É importante o termo certo: falamos de “frota” (carros rodando, todos os anos-modelo), e não de emplacamentos do ano. E a frota é praticamente toda nova — quase tudo ano-modelo 2025 e 2026 —, o que significa que a GWM, na prática, apareceu no Amapá agora, do zero.
O carro-chefe dessa chegada é o Haval H6″, o SUV híbrido plug-in da marca — o modelo eletrificado de tomada, que é o que interessa a esta análise. Só o H6 saiu de 30 para 48 unidades entre fevereiro e maio, alta de 60%. É a locomotiva da GWM na cidade: dos carros da marca que rodam em Macapá, a maioria é Haval, que bate de frente com modelos como a japonese SW4 da Toyota. Quando a loja finalmente abrir, ela não vai criar a demanda — vai atender uma que já existe e já aparece nos números.

