Por SELES NAFES em colaboração com a plataforma NEXOS
A BYD segue soberana no Amapá, pelo menos por enquantofolga. Foram de 632 a 839 carros no estado até maio, segundo levantamento da plataforma Nexos, que reúne informações regionais sobre vários segmentos da economia. É um duelo desigual em tamanho — a BYD tem mais de dez vezes a frota da GWM —, mas os dois vetores apontam para cima. No Amapá, o carro elétrico não é briga entre uma marca chinesa e as tradicionais: é briga entre duas chinesas, com as japonesas e americanas ainda assistindo de fora. Fora da dupla, o que existe de plug-in no estado é residual: meia dúzia de Volvo e um ou outro carro de luxo. O mercado, aqui, é BYD contra GWM.
No detalhe dos modelos, Macapá entra no elétrico pela porta do preço. O BYD Dolphin — o hatch elétrico de entrada — responde, sozinho, por mais da metade de todos os plug-in da cidade. Atrás dele vêm o SUV BYD Song e a dupla Seal/King, de ticket mais alto, e o Haval H6 da GWM. É o retrato de um mercado que começou pelo carro urbano, prático e de recarga simples, ideal para os trajetos curtos de uma capital compacta e quente — e que só agora, com a chegada dos SUVs eletrificados, começa a ganhar um segundo público, de bolso mais largo.

Loja sendo construído na rodovia Duca Serra. Foto: Seles Nafes
Poucos gráficos resumem tão bem o momento amapaense. Enquanto a frota do Chevrolet Onix — o carro popular por excelência — mal se mexeu em Macapá nos últimos três meses (+1,9%), a do BYD Dolphin disparou 45,5%. Uma subida ainda mais íngreme que a média do país. O Onix ainda tem muito mais carros na rua: são milhares contra centenas. Mas o volume é o retrato de ontem; o movimento é o retrato de amanhã. E o movimento, em Macapá, é todo do Dolphin.
Um levantamento como esse não é só estatística: é ferramenta para o comércio, a concessionária e o poder público daqui. Ele mostra onde está o comprador (Macapá e Santana, não o interior), quanto ele já eletrificou e que modelo prefere — informação de ouro para quem decide qual carro estocar, para a empresa que quer casar energia solar e carro num estado de sol o ano inteiro, e para o anunciante que precisa saber com quem está falando.
É a diferença entre olhar o Amapá pela média e conhecer o terreno cidade por cidade. O que as ferramentas automáticas de mídia, feitas longe daqui, ainda tratam como um borrão no mapa do Norte, quem é do Amapá já sente na orla: a demanda existe, tem endereço e tem modelo preferido. O dado só confirma, com número, o que a rua já mostra.

Mini Dolphin domina. Fotos: Seles Nafes
E não à toa a imprensa local é peça central nessa leitura. É o veículo que conhece cada bairro de Macapá, cada movimento do porto de Santana, que transforma o número frio em pauta que o leitor amapaense reconhece na hora. O mapa do carro elétrico é, no fundo, um mapa de para onde a economia local está indo — e quem acompanha o território de perto larga na frente para contar essa história antes de todo mundo.
O Amapá desmonta, com dado, a ideia de que carro elétrico é assunto de capital rica e bem conectada. Num dos estados mais isolados do Brasil — sem estrada para o resto do país, cortado pela linha do Equador, cercado de rios e floresta — o elétrico chinês não só chegou como cresce em ritmo acelerado, num duelo particular entre BYD e GWM que a maior parte do país ainda vai demorar a ver de tão perto.
A loja da GWM, quando abrir, vai jogar lenha nessa fogueira. Mas a fogueira, os números mostram, já estava acesa. Enquanto boa parte do Brasil ainda debate se o elétrico vai pegar, em Macapá ele já é o carro do momento — e chegou pela água, subindo o Amazonas, como quase tudo que é importante por aqui.

