Por PEDRO PESSOA, de Belém (PA)
Uma tecnologia que até pouco tempo era utilizada principalmente por grandes empresas de monitoramento ambiental agora passa a ajudar comunidades do arquipélago do Marajó no combate às queimadas. Em Ponta de Pedras, no Pará, câmeras equipadas com inteligência artificial começaram a monitorar áreas de floresta 24 horas por dia e a enviar alertas em tempo real para brigadistas voluntários sempre que identificam sinais de fumaça.
A iniciativa faz parte do projeto Marajó Sem Fumaça, desenvolvido pelo Instituto Ar. O sistema foi instalado em uma torre na área urbana do município e possui alcance de até 20 quilômetros, com monitoramento em 360 graus. A proposta é acelerar a identificação dos primeiros focos de incêndio e permitir uma resposta mais rápida das equipes que atuam na região.

Brigadistas são avisados e enviados aos locais exatos
Segundo os responsáveis pelo projeto, antes da implantação da tecnologia, um foco de incêndio poderia levar dias para ser percebido. Agora, a detecção pode ocorrer em poucos minutos, reduzindo o risco de propagação das chamas e os impactos ambientais.
Além da tecnologia, o projeto fortaleceu a atuação da Brigada Florestal Guardiões da Chama, formada por 15 moradores, entre pescadores, agricultores familiares e agroextrativistas. Os voluntários receberam treinamento, equipamentos de proteção individual e ferramentas para atuar tanto na prevenção quanto no combate aos incêndios.
A expectativa é que o sistema faça diferença principalmente durante o período mais seco do ano. Especialistas alertam que 2026 poderá ser marcado pela influência de um El Niño mais intenso, fenômeno climático que costuma aumentar o calor e reduzir o volume de chuvas na Amazônia, criando condições favoráveis ao surgimento de queimadas.

1.147 focos de incêndio em 2025, ano de “neutralidade climática”
O histórico da região reforça essa preocupação. Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) apontam que, entre 2018 e 2020, o número de focos de queimadas em Ponta de Pedras cresceu 84,8%. Mesmo em 2025, considerado um ano de neutralidade climática, o arquipélago do Marajó registrou 1.147 focos de incêndio, concentrados principalmente entre outubro e dezembro.
Além do monitoramento, o projeto também investe em educação ambiental e pesquisa sobre os impactos da fumaça na saúde da população. A proposta é ampliar o conhecimento sobre os efeitos das queimadas no arquipélago e subsidiar ações de prevenção e combate.
Após a fase inicial em Ponta de Pedras, o Instituto Ar pretende expandir o modelo para outros municípios da Amazônia, unindo tecnologia, conhecimento das comunidades locais e ações de prevenção para reduzir os impactos das queimadas.
