Por CAIO PALHETA, médico amapaense (CRM: 220148/SP)
– Toma esse, comigo funcionou
– Minha vizinha usou e melhorou rápido
– Tenho um antibiótico que sobrou aqui em casa
Frases assim são comuns. Muitas vezes, surgem de uma tentativa sincera de ajudar. O problema é que, quando falamos de medicamentos, uma boa intenção nem sempre significa uma escolha segura.
É importante deixar claro: a ideia não é transformar toda dor de cabeça, dor no corpo ou mal-estar passageiro em motivo de pânico. Muitas vezes, sintomas leves melhoram com repouso, hidratação, medidas simples e, em alguns casos, medicamentos de uso comum, quando utilizados de forma correta.
O ponto principal é outro: remédio não é uma solução universal. O que aliviou a dor, a febre ou o desconforto de uma pessoa pode não ter o mesmo efeito em outra. Em alguns casos, pode até causar efeitos indesejados, interagir com outros tratamentos ou atrasar a procura por orientação adequada.
Cada organismo tem suas particularidades. Idade, peso, alergias, gravidez, pressão alta, diabetes, problemas no coração, nos rins ou no fígado podem mudar completamente a segurança de uma medicação. Além disso, quem já usa outros remédios precisa ter cuidado redobrado, porque alguns medicamentos podem interagir entre si e causar efeitos indesejados.

Caio Palheta, que atua em Macapá: “remédio não é uma solução universal”
Um exemplo muito comum são os anti-inflamatórios. Para algumas pessoas, eles podem aliviar dores e inflamações. Para outras, podem piorar a pressão, agredir os rins, causar irritação ou sangramento no estômago e até descompensar doenças do coração. O risco é maior em idosos, pessoas com doenças crônicas ou em uso de certos medicamentos, como anticoagulantes.
Outro exemplo são os antibióticos. Usar um antibiótico que sobrou de outro tratamento pode parecer uma forma rápida de resolver uma febre, uma dor de garganta ou uma tosse. Mas antibióticos não são todos iguais. Cada um age melhor contra determinados tipos de bactérias. Além disso, muitas infecções comuns, como gripes e resfriados, são causadas por vírus. Nesses casos, o antibiótico não resolve.
O uso inadequado pode causar efeitos colaterais, não tratar o problema real e ainda contribuir para a resistência das bactérias, tornando infecções futuras mais difíceis de tratar.
Também merecem atenção os remédios para dormir, para ansiedade, para emagrecer, os “relaxantes musculares” e até produtos vendidos como naturais. O fato de algo ser comum, conhecido ou “natural” não significa que seja livre de riscos. Alguns podem causar sonolência excessiva, quedas, dependência, palpitações, alteração da pressão ou interação com tratamentos já em uso.
O cuidado também vale para os sintomas que tentamos esconder com medicamentos. Uma dor de cabeça comum, leve e parecida com outras que a pessoa já teve, não é a mesma coisa que uma dor que começa de repente, muito intensa, diferente do habitual ou acompanhada de confusão mental, febre, rigidez no pescoço, desmaio ou perda de força.

Remédios para dormir, para ansiedade, para emagrecer, os “relaxantes musculares” e até produtos vendidos como naturais merecem atenção
Da mesma forma, uma dor na barriga leve e passageira não deve ser tratada como se fosse igual a uma dor forte, progressiva, persistente, acompanhada de febre, vômitos repetidos, barriga endurecida ou piora importante do estado geral.
Isso não significa que todo sintoma exige atendimento imediato. Significa que é preciso observar o contexto. Quando algo foge do padrão, piora, persiste ou vem acompanhado de sinais de alerta, o cuidado precisa ser maior.
Por isso, compartilhar cuidado é diferente de compartilhar medicamento. Dizer “melhor procurar orientação”, ajudar a marcar uma consulta, acompanhar alguém a um serviço de saúde ou orientar que a pessoa informe os remédios que já usa pode ser muito mais seguro do que oferecer uma medicação que funcionou em outro momento ou em outra pessoa.
Na dúvida, a pergunta não deve ser apenas: “Esse remédio é bom?”. A pergunta mais importante é: “Esse remédio é seguro para mim, neste momento, com o meu histórico?”.
Medicamentos salvam vidas, aliviam sintomas e tratam doenças. Mas, para isso, precisam ser usados com responsabilidade. O remédio que ajudou seu vizinho pode até parecer uma solução simples, mas, para você, pode não ser a melhor escolha. Às vezes, a melhor ajuda não é oferecer um comprimido, mas orientar, observar os sinais de alerta e buscar informação de qualidade.
