Por RODRIGO ÍNDIO, de Macapá (AP)
O cheiro forte de fumaça ainda pairava denso no ar da Baixada do Ambrósio, em Santana, quando o silêncio do pós-tragédia começou a ser preenchido pelos relatos de quem viveu minutos de puro terror. No entanto, em meio ao rastro de destruição que deixou quase 20 famílias desabrigadas, o que se vê entre os moradores é uma resiliência movida pela fé e pelo amor incondicional à família.
Enquanto a fumaça subia alto, cada segundo valia uma vida. O vendedor de peixes Wellington Tavares (foto de capa) carrega na testa as marcas físicas do desespero — um machucado visível fruto da correria para retirar seus entes queridos do meio das chamas. Ao notar o início da tragédia, ele não pensou duas vezes antes de invadir o imóvel em chamas.

Maria Madalena, trabalhadora de serviços gerais e moradora do local há mais de quatro décadas: orações. Fotos: Rodrigo Índio/SelesNafes.com
Sua esposa e seus três filhos pequenos dormiam no momento em que o fogo se alastrou. Em um ato de puro instinto paternal, Wellington resgatou um a um, além do animal de estimação de um vizinho.
“Olha, eu só salvei a minha filha, os meus filhos, minha mulher… Tava dormindo com os três filhos. Salvei eles e salvei o cachorro que tava lá do lado. Não queria saber de nada material, nada… Só queria saber da minha família, mano. Tu fica até tonto, não sabe pra onde corre. Tinha acabado de construir minha casa… Queimou as duas casas minhas, que construí pros meus filhos”, orgulhou-se.

Quase 20 imóveis foram destruídos, mas moradores também contam histórias de coragem, fé e solidariedade

Moradores relatam momentos de desespero durante incêndio
O relato emocionado de Wellington reflete o sentimento comum entre as vítimas: a dor de ver o esforço de anos ser reduzido a cinzas é imensa, mas a preservação da vida humana sobrepõe-se a qualquer bem material.
Para Maria Madalena, trabalhadora de serviços gerais e moradora do local há mais de quatro décadas, a manhã do incêndio parecia desenhar a perda inevitável de tudo o que construiu. Sua casa fica exatamente ao lado do imóvel onde as chamas começaram. Pela dinâmica habitual do clima e pela direção em que as rajadas de vento sopravam, a residência dela seria, sem qualquer margem de dúvida, a primeira a ser totalmente consumida pelo fogo.
Sem forças para lutar contra a velocidade das chamas, tomada pelo nervosismo e chorando copiosamente ao ponto de quase fraquejar, Madalena fez a única coisa que lhe restava: olhou para o céu e depositou sua esperança na oração.
“Eu olhei para o céu e disse: ‘Deus não vai deixar minha casa pegar fogo, porque a minha casa é uma casa de oração.’ Toda hora eu tô rezando… Tô rezando o terço e disse: ‘Senhor, não deixa.’ E não pegou. É um privilégio. A casa não pegou fogo… Só tenho a agradecer”, conta.

Entre perdas e escombros….

…moradores da Baixada do Ambrósio encontram forças para recomeçar
Inexplicavelmente para os padrões daquela tragédia, o vento virou. A direção das rajadas mudou para o lado oposto, poupando a estrutura de sua casa. O alívio, contudo, é agridoce. Se por um lado Madalena comemora o milagre sob o seu teto, por outro traz o coração apertado ao ver o fogo alcançar as moradias da mãe e da irmã, situadas a pouca distância.
“Eu tô triste por causa da minha irmã, da minha mãe, mas elas vão conseguir. Onde o bombeiro tá jogando água agora já tá ficando limpo. Eu vou ajudar elas a se levantarem”, garantiu a trabalhadora, demonstrando que a coragem de continuar se multiplica no amparo aos seus.

Bombeiros atuaram para conter as chamas e evitar que o incêndio atingisse ainda mais imóveis

Em meio à tragédia, famílias destacam a união dos vizinhos e a fé como forças para seguir em frente
Diante do cenário de calamidade, o Poder Público acionou o Comitê de Respostas Rápidas para articular o socorro às famílias atingidas. Equipes de bombeiros, defesa civil e assistência social atuaram de forma integrada desde as primeiras horas para conter o avanço do fogo e mapear os danos.
A estimativa inicial aponta cerca de duas dezenas de imóveis com perda total. Para centralizar os atendimentos, uma base operacional foi montada na Escola Navegantes.
De acordo com o secretário de Assistência Social do Amapá, Hugo Paranhos, a prioridade imediata é o cadastramento oficial dos núcleos familiares e a distribuição de kits de emergência contendo alimentação, água potável, itens de higiene pessoal e suplementação voltada para a primeira infância.
“As equipes do Governo do Estado, em parceria com o município de Santana, seguem atuando durante todo o dia para garantir uma resposta imediata e contínua a cada morador que sofreu com esse sinistro”, ressaltou o Secretário.

Hugo Paranhos: cadastro e kits de emergência para as famílias
À medida que o fogo se extingue e a poeira baixa na Baixada do Ambrósio, a comunidade começa a lenta tarefa de se reconstruir. Entre os escombros, permanecem a solidariedade entre os vizinhos, a união familiar e a certeza de que, enquanto houver vida e fé, as casas serão erguidas novamente.
