Por HUMBERTO BAÍA, especial para o Portal SN
As cavernas de Tartarugalzinho, no centro do Amapá, voltaram a receber pesquisadores interessados em conhecer melhor uma das mais importantes populações de morcegos da região. Durante quatro dias de trabalho de campo, duas pesquisadoras especialistas em morcegos, Narjara Tércia Pimentel, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), e Jennifer Barros, gerente do Programa Brasil da Bat Conservation International, realizaram mais uma etapa do monitoramento iniciado nas cavernas em 2024.
O trabalho teve como objetivo reunir informações sobre os morcegos que utilizam as cavernas como abrigo, a fim de entender a flutuação populacional das colônias e o uso que elas fazem desses ambientes. A pesquisa também busca contribuir para o conhecimento científico e para a definição de estratégias de conservação desses ambientes naturais.
Entre as espécies observadas ou relacionadas aos estudos realizados na região estão Pteronotus alitonus, Pteronotus gymnonotus, Pteronotus rubiginosus e Pteronotus personatus, espécies insetívoras, além do Vampyrum spectrum, espécie carnívora.

Pteronotus personatus…

Entrada de uma das cavernas…

Imagem real (melhorada com IA) mostra colônia de morcegos na entrada de uma das cavernas de Tartarugalzinho
Ambiente desafiador
“Uma das cavernas estudadas apresenta condições bastante difíceis para a realização da pesquisa. O ambiente é quente e possui grande quantidade de fezes de morcegos, conhecidas como guano. A decomposição desse material orgânico pode alterar a qualidade do ar e favorecer a presença de gases, tornando indispensável a utilização de equipamentos adequados e procedimentos de segurança”, explicou Narjara, uma das pesquisadoras.
Mesmo diante das dificuldades, o interior das cavernas representa um verdadeiro laboratório natural. É nesses ambientes que os pesquisadores conseguem observar como diferentes espécies utilizam os abrigos, identificar a presença de colônias e compreender melhor a relação entre os morcegos e o ecossistema amazônico.
O morcego gigante das Américas
A importância das Serras das Três Marias e das cavernas de Tartarugalzinho ganhou projeção nacional em 2024, quando a pesquisadora Jennifer Barros registrou na região um exemplar de Vampyrum spectrum, espécie considerada o maior morcego das Américas. O animal pode chegar a aproximadamente um metro de envergadura e possui dieta carnívora, alimentando-se de pequenos vertebrados, como roedores, marsupiais e outros pequenos morcegos.

Pesquisadores com o guia Marcelo de Sá

Entrada de uma das cavernas…
O registro ocorreu durante uma expedição científica que investigava a caverna, pois já havia suspeita da existência de uma grande colônia de morcegos. A pesquisadora utilizou filmagens e softwares para auxiliar na estimativa do número de animais presentes no local.
A pesquisa é uma parceria entre a Bat Conservation International e o Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Cavernas (Cecav) e constitui uma das ações do Plano de Ação Nacional para Conservação do Patrimônio Espeleológico (PAN Cavernas).
Os dados coletados até o momento indicam uma das maiores colônias de morcegos do gênero Pteronotus já registradas no Brasil, com mais de 162 mil indivíduos. O número destaca a importância ecológica dessa colônia para o controle de insetos, incluindo pragas agrícolas e vetores de doenças, e evidencia a necessidade de proteção das cavernas e da área para a conservação das espécies, que prestam serviços ecossistêmicos cruciais.

Pesquisadores percorreram a floresta durante 4 dias
A expedição contou ainda com o guia de turismo especialista em atrativos naturais e gestor ambiental Marcelo de Sá Gomes e com o condutor de turismo em Tartarugalzinho Rogério Santos, que auxiliaram a equipe durante a expedição pelas trilhas nas florestas das Serras das Três Marias.
A equipe de pesquisadores teve o apoio da Prefeitura de Tartarugalzinho e autorização dos proprietários dos terrenos da região para a realização das atividades de pesquisa.
