Fora da escola, crianças passam o dia todo pedindo caixas de bombons no Centro de Macapá

Relatos apontam repasse dos produtos a adultos e levantam suspeitas de exploração
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Por RODRIGO ÍNDIO, de Macapá (AP)

Quem transita pelo Centro de Macapá e precisa dar uma passada nas tradicionais lojas de doces e artigos de festa conhece bem o roteiro. No trecho da Rua Tiradentes, espremido entre as avenidas Antônio Coelho de Carvalho e Rio Maracá, a abordagem é quase inevitável. Embaladas pelo barulho do trânsito e pelo vai e vem de pedestres, vozes miúdas repetem a mesma frase em tom de súplica durante todo o dia:

“Tio, compra uma caixa de bombom aí pra mim vender?”

Os personagens dessa cena rotineira são meninos que aparentam ter entre 7 e 12 anos. O grupo, composto por mais de cinco crianças, cumpre uma rotina rigorosa nos turnos da manhã e da tarde — horário em que deveriam estar ocupando as cadeiras de uma sala de aula.

A presença constante no local chama a atenção não apenas pela insistência, mas por detalhes que quebram o estereótipo da extrema vulnerabilidade: alguns ostentam bicicletas e carregam celulares no bolso.

Meninos abordam pedestres durante todo o dia e entregam os doces a adultos, segundo testemunha. Fotos: Rodrigo Índio/SelesNafes.com

O detalhe mais intrigante do enredo, no entanto, é o contraste entre o pedido e a prática. Apesar da alegação de que precisam da mercadoria para trabalhar, ninguém na região jamais os viu vendendo um único bombom. Eles não comercializam os doces nas calçadas nem oferecem as caixas aos motoristas nos sinais; o foco é estritamente pedir novas caixas, continuamente.

Para quem passa, o gesto de solidariedade parece o caminho mais natural. No entanto, quem decide ajudar logo percebe dinâmicas suspeitas. O agradecimento raramente vem. Assim que a caixa de doces vai para as mãos do menino, o produto é guardado rapidamente para que a abordagem seja repetida do zero com o próximo pedestre.

A engrenagem por trás da aparente inocência começa a se revelar no olhar atento de quem resolveu esperar para ver o desfecho da cena. Além do repasse direto de caixas para adultos nas proximidades, há também a suspeita de que os produtos arrecadados sejam trocados por outras mercadorias de procedência desconhecida.

“Já dei a caixa de bombons e esperei pra ver o que ia acontecer. O menino pegou e entregou direto para um adulto do outro lado da rua. É lamentável ver usarem as crianças assim”, relata um cliente que preferiu não se identificar.

Suspeita de exploração infantil preocupa comerciantes e frequentadores do Centro de Macapá

Conselho Tutelar diz desconhecer o caso


O esquema, que já se arrasta há tempos na paisagem urbana do centro comercial, expõe uma teia silenciosa de exploração infantil, onde o lucro ou a barganha do adulto é mascarado pela fisionomia inocente de quem pede.

Procurado pela reportagem, o Conselho Tutelar da Zona Sul de Macapá informou que não tinha conhecimento do caso até o momento. O órgão alegou ainda que a demanda compete, inicialmente, à Secretaria Municipal de Assistência Social.

Crianças pedem caixas de bombons na Rua Tiradentes, enquanto deveriam estar na escola

A reportagem também entrou em contato com a assessoria de comunicação da Prefeitura Municipal de Macapá (PMM) para questionar quais medidas assistenciais ou de fiscalização estão sendo tomadas no trecho da Rua Tiradentes. A equipe de reportagem foi questionada sobre os detalhes do caso, mas, até o fechamento desta matéria, não obteve mais retorno.

Enquanto as respostas oficiais não chegam, o ciclo se repete na calçada. A cada caixa comprada no balcão por um pedestre bem-intencionado, alimenta-se um negócio invisível que retira os meninos da escola.

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