Por OLHO DE BOTO, de Macapá (AP)
Uma clínica de estética que funcionava sem licença sanitária e sem alvará foi fechada pela Polícia Civil nesta quarta-feira (28), no bairro Paraíso, em Santana, após investigações apontarem que uma mulher sem registro profissional realizava procedimentos cirúrgicos e estéticos para os quais não tinha qualificação. A suspeita foi presa durante o cumprimento de mandados de busca e apreensão.
Pelo menos três vítimas procuraram as autoridades após apresentarem complicações e deformidades decorrentes dos procedimentos. Uma delas sofreu lesões consideradas gravíssimas, com deformidade permanente no rosto. O caso foi detalhado à imprensa pelo delegado Anderson Ramos, que também apresentou o relato de uma das vítimas.
De acordo com o delegado, a investigação começou após uma mulher denunciar complicações provocadas por um procedimento de harmonização facial conhecido como full face, que incluía a aplicação de fios de PDO e toxina botulínica.

Vítima sofreu sequelas irreversíveis após harmonização facial. Fotos: divulgação
Segundo a apuração policial, a suspeita teria realizado cortes profundos no rosto da paciente e retirado gordura e tecido das costas dela para fazer um enxerto na face. O procedimento teria provocado uma infecção bacteriana, atribuída pela investigação à falta de condições adequadas de assepsia.
A Polícia Civil consultou os conselhos profissionais de medicina, enfermagem e biomedicina, que, segundo Ramos, informaram que a investigada não possuía habilitação para realizar os procedimentos em questão.
“Ela realizou atos que são exclusivos de médico, porque, para realizar esse procedimento, fez cirurgia nas costas da vítima para retirada de gordura e tecido e implantação na face”, explicou o delegado.

Polícia encontrou inseticida e insetos próximos a equipamentos
Uma das pacientes, identificada como Elizângela Matos, contou que procurou a clínica inicialmente para avaliar a possibilidade de fazer uma blefaroplastia, cirurgia para retirada do excesso de pele das pálpebras. No entanto, durante o atendimento, recebeu a oferta de outro procedimento estético, com aplicação de fios de PDO e enxerto de gordura para suavizar o chamado bigode chinês.
Segundo Elizângela, os primeiros sinais de complicação apareceram dois ou três dias depois. Os locais das aplicações ficaram arroxeados e começaram a inchar.
A vítima afirma que enfrentou um ano de dificuldades físicas e psicológicas após o procedimento. Agora, com a prisão da investigada, diz sentir esperança de que o caso tenha consequências.
“Hoje eu estou melhor e muito feliz, porque a gente acreditou que, de alguma forma, ela vai pagar pela negligência que teve com as nossas vidas, pela falta de humanidade de se importar com o que estava fazendo e com o que estava causando às pessoas”, declarou.
Elizângela contou que já conhecia a clínica havia anos e que já tinha realizado outros procedimentos estéticos no estabelecimento em 2019, antes da pandemia de Covid-19. Ela voltou a procurar o local após ver publicações nas redes sociais, onde o perfil da clínica tinha mais de 31 mil seguidores.

Paciente relata impactos físicos e psicológicos após procedimento
A vítima disse que sabia que a investigada não era médica, mas acreditava que ela tinha qualificação para realizar os procedimentos oferecidos. Segundo seu relato, havia diplomas expostos na clínica e informações sobre a formação de outros integrantes da família, que também participavam dos atendimentos.
“Eu não sabia que ela não poderia fazer esse tipo de procedimento, que era só um médico que deveria fazer”, afirmou.

Estabelecimento funcionava sem alvará e licença sanitária
Ela também relatou ter ouvido falar de outras pacientes que apresentaram complicações após procedimentos realizados no mesmo período.
Durante as buscas, os policiais encontraram diversos cômodos com macas, equipamentos cirúrgicos e medicamentos que, segundo o delegado, apresentavam suspeitas de irregularidade sanitária ou falta de regulamentação pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
A equipe também teria encontrado veneno para baratas próximo aos equipamentos e insetos circulando pelo estabelecimento. A clínica não possuía alvará de funcionamento nem licença da Vigilância Sanitária.
Os medicamentos apreendidos deverão passar por perícia. Conforme o delegado, a análise poderá embasar uma nova investigação sobre possíveis crimes relacionados aos produtos encontrados no local.
A Polícia Civil apurou ainda que a investigada mantinha perfis nas redes sociais com milhares de seguidores, nos quais divulgava serviços estéticos e cirúrgicos. Segundo Ramos, ela se apresentava como doutora, prescrevia medicamentos e oferecia procedimentos invasivos sem possuir habilitação para executá-los.

Suspeita realizava cirurgias e procedimentos invasivos ilegalmente
Segundo o delegado, há pelo menos três vítimas relacionadas à investigação que resultou na prisão. Outros três procedimentos antigos, registrados em 2023 na Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam), também poderão ampliar o alcance das apurações.
Ramos afirmou que a suspeita já possui condenação anterior e responde a outras investigações, incluindo um inquérito por tentativa de homicídio na Delegacia das Mulheres. A prisão desta quarta-feira decorre de uma investigação específica e não abrange, necessariamente, todas as denúncias existentes contra ela.
Neste caso, a mulher deverá responder por lesão corporal de natureza gravíssima, em razão da deformidade permanente, exercício ilegal da medicina em circunstâncias qualificadas pela finalidade de lucro, estelionato e crimes contra as relações de consumo. A definição das responsabilidades caberá à Justiça.
Após a experiência, Elizângela deixou um alerta para quem pretende realizar intervenções estéticas. Ela recomenda verificar a habilitação dos profissionais e não confiar apenas na aparência do estabelecimento, na publicidade ou no número de seguidores nas redes sociais.
“Eu achava que, por uma clínica estar funcionando e uma pessoa realizar determinado procedimento, era porque realmente tinha autorização ou estava apta para fazer aquilo. E, na verdade, isso não é garantia”, afirmou.
A vítima também destacou a importância da esterilização adequada e do uso correto dos materiais, além da necessidade de denunciar possíveis irregularidades. Para ela, o constrangimento e o medo do julgamento fazem com que muitas pessoas prefiram esconder as sequelas de procedimentos estéticos.
A investigação continua, e a Polícia Civil apura se há outras vítimas dos atendimentos realizados no estabelecimento.
