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 JÚLIO MIRAGAIA

Volto a falar sobre “Cem anos de solidão”, de Gabriel García Márquez. Agora, o motivo é o início das chuvas nas bandas de cá do norte do Brasil. Nossa “estação das águas” embeleza as cidades amapaenses e suas respectivas paisagens, trazendo nostalgia, preguiça, imersões em si e outras tantas sensações numa época de festas que é o final do ano.

A chuva em Macondo, cidade fictícia da obra de García Márquez, é marca de belíssimas descrições de épocas inteiras ou cenas como a das aparições do velho José Arcádio Buendía, no quintal da família. O trecho a seguir é um dos meus favoritos:

“Choveu durante quatro anos, onze meses e dois dias. Houve épocas de chuvisco em que todo mundo pôs a sua roupa de domingo e compôs uma cara de convalescente para festejar a estiagem, mas logo se acostumaram a interpretar as pausas como anúncios de recrudescimento.

O céu desmoronou-se em tempestades de estrupício e o Norte mandava furacões que destelhavam as casas, derrubavam as paredes e arrancavam pela raiz os últimos talos das plantações.(…) A atmosfera estava tão úmida que os peixes poderiam entrar pelas portas e sair pelas janelas, navegando no ar dos aposentos. (…)  Foi preciso abrir canais para escorrer a água da casa e desimpedi-la de sapos e caracóis, para que pudesse secar o chão, tirar os tijolos dos pés das camas e andar outra vez de sapatos.”

Obra “Cem anos de solidão”, de Gabriel García Márquez. Chuva é elemento presente em cenas que transbordam emoção. Fotos: Júlio Miragaia

Em tempestades ou chuviscos, esse fenômeno da natureza conversa perfeitamente com as cenas de uma obra literária como a de Gabo. É fonte de inspiração para escritores e artistas e também fonte para a ativação da memória do homem.

Atravessei o Rio Matapi em direção às comunidades de Mazagão a trabalho justamente no primeiro dia em que tivemos uma chuva considerável na manhã e na tarde de quarta-feira. Fui junto com colegas de serviço até as comunidades do Carvão e do Piquiazal. Ao longo do caminho, pela estrada de asfalto e pelos ramais, a cena ganhava uniformidade como um filtro de imagem de uma máquina fotográfica de celular.

A chuva nesse dia me trouxe a memória de manhãs de quase duas décadas atrás na contemplação da orla de Macapá, mais especificamente nas adjacências do Trapiche Eliezer Levy. O Rio Amazonas a transbordar enquanto uma forte ventania empurrava com seus músculos de ar a chuva para toda a praça, fazendo quem ali estava se esconder debaixo de qualquer teto.

Trapiche é cenário de crônica de Luli Rojanski em “Lugar da Chuva”. Foto: Floriano Lima

Para este colunista e apreciador da literatura amapaense é impossível também não ligar essa recordação com uma crônica de Luli Rojanski no livro “Lugar da chuva”. Em “Sob o céu, no trapiche”, a autora nos leva até um passeio entre o intimismo e a contemplação da orla da cidade numa tarde qualquer de abril. A solidão do rio, o rumor das águas e a presença de um enigmático poeta a escrever são parte dos elementos que conduzem o leitor para fortes emoções no pequeno e belo texto. A escritora faz ainda conjecturas sobre o que escreve o jovem poeta:

“Para o poeta ali adiante, essa é a singular função do trapiche: ancorar almas, sobretudo as que sofrem, aportar sonhos, sobretudo os de amor.”

Encerro por aqui esta crônica sem grandes reflexões a fazer. Confessando minha admiração por essa época em que nossa região amazônica é banhada por algo além das águas. Por uma atmosfera poética inexplicável e comovente. Por motivos guardados a sete chaves pela natureza, somos invadidos por nostalgias amorosas, afetivas e de outras estirpes, que constroem paisagens internas de longas chuvas empurradas por ventos de passado, presente e futuro.

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