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Ágora, coluna de JÚLIO MIRAGAIA

Cinco e meia, seis horas da tarde. Era nesse horário, mais ou menos, em que saíamos da escola e íamos até o ponto de ônibus da Ernestino Borges, quase de esquina com a Leopoldo Machado. Tomávamos uma garrafinha de cinquenta centavos de Guaraná Xingu na taberninha do canto, que existe até hoje, acompanhado de um biscoito do Fofão, uma pipoca Pantera ou um pastelão.

A “merenda” era paga em moedas ou mesmo com as fichas de vale transporte que eram usadas e que chegaram a custar entre setenta centavos e um real. Depois do lanche, aguardávamos o “sanfona” (também chamado de minhocão) chegar, ônibus biarticulado usado pela empresa Cattani nos anos 1990 nos horários de pico.

Estudávamos na Escola Jesus de Nazaré, no bairro de mesmo nome, entre 1996 e 1998. Entre a parada de ônibus e a chegada em casa, havia uma aventura inteira todos os dias no meio do caminho, ao som de Só Pra Contrariar, É o Tchan, Molejo e tantos outros sucessos musicais da época (sendo que este colunista não era e não é grande apreciador desses estilos, risos).

O veículo simplesmente vinha abarrotado de gente, principalmente estudantes das escolas da rede estadual e de cursinhos. Num tempo ainda sem redes sociais e telefones celulares, amizades e até casais eram formados dentro do sanfona, uma espécie de “praça” ou ponto de encontro para estudantes do ensino fundamental e secundaristas.

 Decidi contar um pouco do que vivi nesses anos porque a vida nos presenteia com reencontros. Justamente via redes sociais consegui reencontrar uma boa parte dos colegas da época do Jesus de Nazaré em um grupo de Whatsapp. As recordações sobre o sanfona e todas as peripécias infanto-juvenis vieram e deixaram esse gostinho de nostalgia no ar.

Apesar do distanciamento de mais de uma década desses colegas queridos, as recordações  e o carinho por todos fazem com que percebamos que os laços de amizade são coisas que formamos na vida que perdurarão. Se esses laços foram constituídos numa sala de aula, dentro de um ônibus ou banco de praça, esse é apenas um detalhe. A “Canção da América”, de Milton Nascimento, já nos ensina o lugar em que guardamos as amizades: do lado esquerdo do peito.

*Crônica dedicada aos colegas que estudaram com este colunista na Escola Estadual Jesus de Nazaré, entre 1996 e 1998. Em memória a Maykon César

Foto de capa: Fotografias Históricas Amapá

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