Mestre Júlio: sobre raízes e o aniversário de Macapá

História oficial de Macapá está escrita também na biografia de homens e mulheres que deixaram legados.
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Ágora, coluna de JÚLIO MIRAGAIA

Os 260 anos de Macapá, capital do estado do Amapá, estão expressos em sua história oficial, em seus monumentos, mas também estão escritos nas biografias, públicas ou não, de homens e mulheres que ergueram com a força do seu trabalho esta cidade.

A família do meu pai, o pediatra Aristeu Lima de Araújo, mora há mais de sete décadas nestas terras. Meu avô, Júlio Batista de Araújo, chegou a Macapá em setembro de 1945. “Mestre Júlio”, como era chamado, veio a convite do capitão Janary Nunes, recém-nomeado governador do antigo Território, para assumir a função de mestre de obras, na Divisão de Obras.

Mestre Júlio nasceu no estado do Rio de Janeiro e começou sua vida profissional como ajudante de pedreiro, no estado fluminense, passando por vários empregos em obras de diferentes municípios, como Sapucaí, Paraíba do Sul, Petrópolis, etc.

Mestre Júlio. Nascido no RJ e estabelecido em Macapá após trabalhar nas obras de Val-de-Cans e na Base Aérea do Amapá Foto: Porta Retrato

Em 1938, indicado por empreiteiros de obras, ingressou no Panair do Brasil, empresa de transportes aéreos, na construção do aeroporto Santos Dumont. Em seguida, foi convidado para supervisionar as obras da Base Aérea de Val-de-Cans, em Belém do Pará, administrada pelo Exército dos Estados Unidos, entre 1941 e 1944.

Nessa época, o ex-ajudante de pedreiro carioca passou a ser chamado de “Mestre Júlio”, pela competência que demonstrava na direção de mais de 600 homens e pelo trabalho que exerceu em Val-de-Cans e na Base Aérea do Amapá, onde estava quando recebeu o convite de Janary Nunes para trabalhar em Macapá.

Um mês após sua chegada, em outubro de 1945, iniciou a construção de dez casas para diretores das divisões, a Praça Barão do Rio Branco e a residência governamental. Criou equipes volantes compostas de um mestre de obras, três carpinteiros, três pedreiros, dois pintores, um encanador, um eletricista e dez ajudantes sob o seu comando.

Construiu, junto com sua equipe, o prédio da Rádio Difusora de Macapá, Hospital Geral, Presídio São Pedro no Beirol, Maternidade de Macapá, Escola Industrial, Mercado Central, Caixa D’água do Poço do Mato, Hotel Macapá, Colégio Amapaense, Piscina do Grupo Escolar Barão do Rio Branco, grupo de casas e residências da Avenida Iracema Carvão Nunes e Escola Doméstica de Macapá.

Colégio Amapaense em 1954 Foto: acervo de Edgar Rodrigues

Mestre Júlio ainda ajudou a organizar sua categoria. Fundou, em agosto de 1951, a Sociedade Beneficente dos Operários do Amapá. No bairro onde resolveu criar residência, o Trem, participou também da construção da Igreja Nossa Senhora da Conceição e da sede do Trem Desportivo Clube, além das sedes do Esporte Clube Macapá e Amapá Clube, do estádio Glicério Marques e do conjunto residencial Vila Cuba. Recebeu o título de Honra ao Mérito, oferecido pelo governador Jorge Nova da Costa.

As obras de Mestre Júlio e de tantos homens e mulheres trabalhadores, provavelmente, são legados pouco ou nada conhecidos em nossa história oficial, cercada de protagonistas ocupantes do poder. Caminhamos numa cidade que tem muito a ser contado para as novas gerações sobre esse legado. Um legado de trabalho, dignidade e força para vencer os obstáculos que a vida impõe. Olhar para o passado é um exercício importante para que o ponto de referência nos ensine como avançar, sempre. Parabéns, Macapá. Terra que nos permite dar a palavra ao futuro.  

Em memória ao Mestre Júlio (1909-1989).

*Com informações do livro “Personagens ilustres do Amapá”, Vol. 1, de Coaracy Barbosa.

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