Eles venceram a pior das dores…

Fernando e Luciane perderam o filho de 5 anos atropelado por um motorista embriagado. A jornada que se seguiu depois virou um livro
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SELES NAFES

O primeiro caso julgado como homicídio doloso de trânsito, no Brasil, virou um livro emocionante,  uma mensagem de fé e de esperança. A obra, escrita pelo pai de Mateus, morto aos 5 anos, será lançada em Macapá, neste sábado (14).

O livro “Tornaste meu pranto em alegria” conta a história de Mateus Gomes, morto em um acidente de trânsito provocado por um motorista embriagado, em Manaus (AM), onde a família residia. Hoje, eles moram em Macapá.

Em junho 2010, Mateus estava com a avó na frente de uma residência acompanhando uma procissão religiosa quando a criança foi atingida pelo veículo. O motorista, Cristian Ruan Souza, na época com 30 anos, foi condenado em 2013 a 29 anos de prisão.

Ele estava recorrendo em liberdade quando foi preso, em 2014, por tráfico de drogas. Hoje, o motorista continua na cadeia.  

Fernando Gomes, pai de Mateus, e autor do livro, também reúne na obra estatísticas sobre a problemática no Brasil.

Oito anos depois, ele e Luciane Gomes reconstruíram a família e tiveram mais dois filhos. Durante essa caminhada , eles aproveitaram a repercussão nacional da tragédia para fazer uma grande mobilização contra a violência no trânsito.  

Cristian Ruan está preso até hoje. Foto: A Crítica/AM

O livro será lançado na Igreja MPA, na Rua Santos Dumont, 2807, às 17h, próximo da Praça da Caixa D’água do Buritizal, na zona sul de Macapá. Também haverá um lançamento em Manaus.

Qual a principal lembrança que o você guarda do Mateus?

Alegria. Eu chamava ele de campeão. Não éramos nós que dávamos alegria a ele, era ele que dava pra gente. Era o meu parceiro de pescaria, de viagem, de brincadeiras, era meu músico. Fomos ao teatro e viajamos muito. Enquanto ele esteve aqui, vivemos sem nenhum arrependimento.

Aonde vocês encontraram forças para superar aquela tragédia?

Com a fé em Deus, e com a certeza de que a nossa família seria restituída.

O sentimento que veio logo após o crime não foi de revolta com Deus?

Não. Foi o de não entender o que estava acontecendo

Mas em momento nenhum vocês questionaram Deus e perguntaram por que aquilo estava acontecendo com vocês?

Não. No livro a gente explica que não esmoreceu enquanto tentava entender o que estava acontecendo. Eu aproveitei o trabalho para me dar força. Meu filho teve muitas homenagens que pareciam ter sido orquestradas por Deus no momento em que a fé estava sendo testada. Num possível momento de fraqueza vinha uma homenagem de amigos, da imprensa e da sociedade. Tudo isso foi alimentando a gente, e com o tempo fomos entendendo que era desígnio de Deus.

Fernando com Mateus: era ele que nos dava alegria. Foto: Arquivo/pessoal

Vocês tiveram apoio de amigos e familiares?

Sim. Minha esposa é uma mulher muito forte. Mas o sogro, sogra, irmãos, e cunhados foram essenciais para mostrar que a gente não estava só. Que a nossa dor também era a dor deles. Quando a gente perde o pai e a mãe a gente fica órfão. Quando a gente perde a esposa ou o marido a gente fica viúvo ou viúva. Mas nem tem nome quando a gente perde um filho. Não é a ordem natural das coisas.

Vocês transformaram a dor numa bandeira de luta contra a violência no trânsito. O que mudou depois disso?

A atenção aos crimes de trânsito. A justiça do Amazonas fez um ato emblemático. Em função da opinião pública que eu mobilizei, foi o primeiro julgamento de crime de trânsito considerado homicídio doloso. Teve tribunal de júri e condenação a 29 anos de cadeia.

Família restituída com a chegada dos novos filhos

Vocês perdoaram o motorista?

No fim do livro tem uma carta que nós escrevemos para ele. Mas não quero dizer agora porque se não seria spoiller, rsrs.

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