Opinião: enchente combina com festa?

Até a quinta-feira (17) a Defesa Civil registrou mais de 800 casos de doenças diarreicas
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JÚLIO MIRAGAIA

A síntese dos bem humorados comentários nas redes sociais acerca das festas de aparelhagem nas regiões alagadas em Laranjal do Jari, no sul do Amapá é: “se a vida te der um limão, faça uma limonada”.

Não foram poucos os que compartilharam os vídeos e fotos de pessoas brincando nas ruas alagadas dizendo: “Laranjal do Jari só não domina o mundo porque não quer” ou “como lidar com seus problemas”. 

As declarações são usadas como resposta pronta ao alerta emitida pela Defesa Civil e pela Superintendência de Vigilância em Saúde (SVS) sobre os riscos do contato com a água, provavelmente contaminada, que invadiu as ruas da cidade devido a cheia do Rio Jari.

Internautas registraram pessoas jogando água da enchente umas nas outras durante festa de aparelhagem. Foto: reprodução (Mary Figueira)

O jogo retórico porém não leva em consideração o risco à saúde e à segurança dos que decidiram “festejar”, enquanto o município vive uma situação de calamidade pública, com centenas de desabrigados e carência de água potável.

A preocupação das autoridades foi reforçada ainda na quinta-feira (17), quando primeiro o Ministério Público do Estado emitiu uma recomendação de toque de recolher. Em seguida, a Justiça determinou por cinco dias a proibição de festas e consumo de álcool nos locais afetados com a enchente.

Entretanto, nas redes sociais, muitos moradores de Laranjal do Jari viram as medidas e a cobertura da imprensa como exagerada ou até irresponsável. A narrativa estaria discriminando os moradores da cidade, pois, segundo alguns, seria “tradição” que durante as enchentes as ruas virem uma espécie de balneário. 

Não se trata, na verdade, de suposto preconceito, mas de uma questão de saúde pública. O relatório da Defesa Civil, emitido na quinta, aponta 827 casos de doenças diarreicas registrados. Somados a isso são 7 casos de doenças de animais peçonhentos, 5 de pneumonia e 3 de hepatites.

Exército trabalha na remoção de móveis de casas atingidas com alta do rio. Foto; ascom senador Davi

Ações de vigilância em saúde e de controle da água têm sido realizadas justamente para que toda cautela possível seja tomada para que não haja contato com a água contaminada. Além disso, há o risco claro de um fio desencapado próximo de uma aparelhagem poder causar uma tragédia, com pessoas eletrocutadas.

Sem falar nos problemas com a segurança pública, com o excesso de consumo de bebidas numa situação como essa e as condições sanitárias dos banheiros usados nesses eventos.

Ninguém tem nada contra o entretenimento de ninguém. Porém, o mesmo deve ser feito com responsabilidade e bom senso. O drama dos que perderam suas casas e pertences com os acontecimentos também deve ser levado em consideração.

Reforçar os cuidados com a saúde deve ser a parte que a população deve fazer para que os danos sejam os menores possíveis em decorrência da enchente. 

Seles Nafes
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