No Amapá, Boulos fala que liberação do porte de armas é explorar o medo das pessoas

Candidato do PSOL ao Planalto falou com o portal SN sobre alianças, meio ambiente, desenvolvimento, segurança e saúde
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ANDRÉ SILVA

O candidato à presidência da República, Guilherme Boulos (PSOL), de 36 anos, esteve em visita ao Amapá, em Macapá, nesta quinta-feira (31) para cumprir agenda. Candidato a presidência mais jovem do pleito, o psolista mostrou ter opiniões fortes e até polêmicas. Entre elas, a de criar plebiscito para derrubar as principais medidas econômicas aprovadas pelo atual presidente, Michel Temer (MDB).

Para o Amapá, o candidato disse que pretende, se eleito, acabar com o decreto que tornou boa parte do Estado em área de conservação, o que dificultou a demarcação de terras indígenas e quilombolas. Entre outras propostas está também a de dobrar os investimentos no Sistema Único de Sáude (SUS) em quarto anos.

O presidenciável, junto com sua vice, Sonia Guajajara, participou durante a noite de um comício na Orla de Macapá, promovido pelo PSOL, PCB e apoiadores.

Acompanhe a entrevista que o candidato deu ao portal SELESNAFES.COM.   

Durante o dia, Boulos foi recebido por apoiadores. Foto: André Silva

SN: O PSOL no Amapá integra o grupo político do senador Randolfe Rodrigues (REDE), mas declarou que não apoiará nenhum candidato ao governo. Como o candidato avalia essa relação, que mesmo não sendo oficial, coloca o partido no mesmo espectro político de agremiações combatidas nacionalmente pelo PSOL? Lembrando que o PSOL já chegou a apoiar oficialmente o PTB em 2010 e 2014 ao governo e ao senado, respectivamente.

Guilherme Boulos: O PSOL não é do grupo político do senador Randolfe Rodrigues no Amapá. O senador Randolfe é da Rede. O senador se colocou em um campo contrário as medidas do Temer, num campo de oposição ao governo Temer e de oposição ao golpe. Isso precisa ser considerado. Agora, a nossa candidata ao senado é a Joaquina [Lino] do PCB, que compõem e integra nacionalmente a nossa aliança, que é uma aliança de mudança do nosso país. E o PSOL aqui no Amapá não tem nenhuma candidatura ao governo. Portanto, não está ao lado desses partidos que estão em oposição ao partido nacionalmente. O PSOL no Amapá não apoia nenhuma candidatura ao governo do Estado.

Qual sua avaliação sobre as empresas que desenvolvem projetos na Amazônia de exploração de recursos naturais, como a exploração mineral, exploração na fauna ou projetos como a instalação de usinas hidrelétricas, como as que temos?

Olha, nós podemos pegar o exemplo da Renca [Reserva Nacional do Cobre e Associados]. A tentativa do governo Temer de estabelecer a mineração predatória na área da reserva, engloba parte do Estado do Amapá, é inaceitável. Nós combatemos naquele momento e seguimos combatendo. Existe uma visão de que o crescimento econômico deve passar por cima de tudo e nesse caso se trata de lucro para as grandes empresas, então vale tudo. Vale mineração predatória, vale agronegócio destruindo florestas, vale passar por cima de terras indígenas e quilombolas, esse não é o nosso modelo de desenvolvimento. Nós defendemos o modelo de desenvolvimento com distribuição de renda e por sustentabilidade ambiental. Isso passa por outra relação com o meio ambiente e sobretudo, aqui com a Amazônia, que é uma relação que seja sem desmatamento, repensando o modelo energético. A gente tem que substituir os combustíveis fósseis por energias renováveis. E no caso, mesmo da energia hidrelétrica, não dá pra se construir como se fez em Belo Monte (PA): algo feito sem dialogar com as populações locais sobre o impacto social. Pra nós, não é a sociedade que tem que servir à economia, é a economia que tem que servir à sociedade. Por isso, qualquer projeto dessa natureza precisa ser dialogado e consensual com as populações. Senão, não acontece. Isso significa o nosso apoio à demarcação de terras indígenas e quilombolas e a nossa oposição ao modelo predatório de desenvolvimento que passa: pelo agronegócio produzindo comida com veneno, destruindo florestas, muitas vezes por empresas destruindo rios. Nós não vamos dar continuidade a esse modelo de desenvolvimento.

Comício no Trapiche encerrou a agenda do candidato do PSOL no AP. Foto: Mídia Nija

O Amapá tem praticamente 75% das suas terras destinadas a unidades de conservação. Qual o projeto de desenvolvimento o senhor tem para o Amapá, como desenvolver um Estado assim?

Tem que ter contrapartida Federal. Veja bem. As unidades de conservação são necessárias, mas não apenas par ao Amapá, são necessárias para o Brasil, são necessárias para a humanidade. Agora o povo do Amapá precisa de emprego e precisa de renda. O governo federal precisa dar uma contrapartida econômica para o estado, mantendo as unidades de conservação. A solução para o desenvolvimento econômico aqui não é sair destruindo tudo e fazer pastagem e plantação de soja como alguns querem. Esse não é o caminho. Aliás, a Amazônia tem um potencial econômico na sua própria biodiversidade. O que tem a ver com ciência, tecnologia, inovação. Aqui, há possibilidade de produção de remédios; há possibilidade de você ter um investimento que não é predatório para a floresta, mas que tem um baita potencial econômico, é enorme. Mas pra isso, é preciso ter laboratórios públicos de pesquisa, tem que ter universidades públicas atuando no território e o governo federal precisa estabelecer compensações investindo aqui no Estado para assegurar emprego e renda para o povo amapaense. Em nosso projeto, “Levanta Brasil”, nós vamos criar seis milhões de emprego em dois anos. Não vai ser investindo em ponte, em hidrelétrica, não vai ser criando pastagem para o agronegócio. Nós vamos construir creches, escolas, posto de saúde, hospital, obras de saneamento básico e moradia popular. Quando você faz isso o povo ganha nas duas pontas: com geração de emprego e renda e dignidade, por ter um serviço público de qualidade.

O senhor diz que irá revogar as medidas do presidente Michel Temer assim que tomar posse em 2019. Há alguma medida a ser revogada para a Amazônia?

Nós precisamos dialogar isso com os povos da Amazônia, sobre as medidas a serem revogadas. Nós vamos incluir um plebiscito revogatório. As medidas que a gente tem debatido mais, e todas elas impactam para o conjunto do povo brasileiro, e inclusive aqui, é a revogação da reforma trabalhista. O governo Temer retirou o direito dos trabalhadores sem dialogar com a sociedade. Nós vamos colocar isso em debate. Emenda constitucional 95, PEC do teto, que congela investimento público por 20 anos, nós vamos colocar em debate para a revogação; entrega do Pré-sal para empresas estrangeiras, nós também vamos colocar em debate para plebiscito e revogação. Aqui nós temos decretos do Ministério da Justiça, que dificultou demarcação de terras indígenas. Foi tomada ainda quando Alexandre de Moraes era Ministro da Justiça. Esse nem vai ter plebiscito, esse nós vamos revogar.

O Amapá tem tido uma crescente na violência nos últimos anos, assim como outros estados. Um de seus adversários defende porte de arma como parte das soluções para esse problema. E o senhor?

Sou contra essa medida. Ela é uma hipocrisia. Defender o porte de arma como o Bolsolnaro faz, na verdade, é explorar o medo das pessoas. Fazer populismo em cima da violência. Imagine quem nunca no trânsito não teve problema? Bateu num carro, fechou ou foi fechado por alguém? Imagine se todo mundo tiver armado. Cada briga de trânsito vai virar um homicídio, um tiroteio. Imagine você com sua família no bar, saber que todo mundo ao seu lado está armado? Isso vai gerar segurança pra alguém? Pelo contrário, isso vai agravar o clima de segurança. O caminho é remodelar a segurança pública no Brasil. O que foi feito até aqui, definitivamente, não deu certo. Foi mais arma, mais tiro porrada e bomba e não se resolveu. Nós temos no Brasil a polícia que mais mata e que mais morre. O caminho é um, no modelo de polícia desmilitarizada. Um modelo de ciclo completo que comece com a prevenção, tenha o policiamento ostensivo e passa pela inteligência e investigação. Nosso foco vai ser em prevenção e inteligência. Prevenção significa dizer que não vamos construir presídios, vamos construir escolas. Não vamos deixar a arma chegar nas mãos dos jovens, vamos dar o primeiro emprego pra que a arma não chegue na mão dele. Oportunidade para a juventude é fundamental. Quem tá morrendo com essa política de segurança publica é o jovem negro de todo o país. Nós temos que dar oportunidade. Os dados mostram que onde tem mais oportunidade de emprego, cultura, lazer educação é onde se reduz mais a violência. E por fim, nós vamos atuar na inteligência para combater o tráfico de armas e munições que é o maior responsável pelo aumento da violência em nosso país. Não deixar a arma chegar na mão de quem ta chegando. Tráfico de arma e munição você não combate com tropa de choque. Se combate com operação de inteligência. O comando do crime organizado está muito mais perto do grande poder econômico, com ramificação na política brasileira, em Brasília, do que de qualquer favela. O caminho não é militarizar, é inteligência. Pra desbaratar essas grandes quadrilhas.      

Para Boulos, tráfico de armas e munições deve ser combatido com serviço de inteligência. Foto: Mídia Ninja

    

A saúde é outro problema que se agrava. O candidato recentemente citou a criação de um aplicativo para melhorar o controle social do SUS. No Amapá, está em construção um hospital universitário que deverá ajudar a desafogar demandas do atual sistema. Como o senhor trabalhará para continuar um projeto dessa envergadura e para ampliar os serviços de saúde pública?

Nós precisamos ter em mente que o modelo do SUS, que é um modelo de saúde pública gratuita e universal, é importante para o país. O problema do SUS é que ele está subfinanciado. Ele não tem dinheiro para que funcione bem. Por isso que sobra fila, falta remédio, falta médico e que gera uma insatisfação imensa na maioria do povo. Nós vamos dobrar o investimento no SUS em quatro anos, através de uma reforma tributária mexendo em privilégios. Hoje no Brasil, quem tem mais paga menos e quem tem menos paga mais. Vamos fazer com que super ricos, banqueiros, grande empresário comece a pagar imposto no país. Isso vai dar condições de arrecadação para um grande plano de investimento público,. Dentre esses plano está dobrar o investimento no sistema. Para isso, nós vamos continuar obras e concluir obras como essa, do Hospital Universitário de Macapá. As equipe de Saúde da Família serão universalizadas. Todo mundo vai ter uma equipe de Saúde da Família visitando a sua casa. Hoje se você vai para uma UBS com dor de coluna, te dão uma dipirona e te mandam pra casa e te dão um papel pra você fazer um exame daqui a seis meses. Nós vamos criar condições, a partir da ampliação do investimento, para que na própria UBS você saia com o medicamento e com o diagnostico na mão. Se for um procedimento que a UBS não tenha, nós daremos um prazo máximo de um mês de espera que o procedimento seja feito. 

Foto de capa: André Silva

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