ENTREVISTA l A militância literária de Paulo Tarso Barros

Autor já ajudou a editar mais de 60 obras de escritores locais
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Por JÚLIO MIRAGAIA

Fotos: NATHAN ZAHLOUTH

A publicação de uma obra literária pode ser um caminho mais tortuoso do que aparenta, principalmente para os jovens escritores. No Amapá, onde não há ainda uma tradição de grandes editoras, a produção de um livro provavelmente exigirá do autor engajamento maior que em outros lugares do país.

O terceiro entrevistado da série “Literatura do AP”, do Portal SelesNafes.com é o escritor Paulo Tarso Barros. Além de sua importante produção poética e em prosa, o autor conversou sobre o solitário trabalho voluntário que exerce, como editor de obras de amigos e autores que chamam sua atenção.

Barros nos recebeu na manhã do dia 19 de janeiro, um sábado, na Biblioteca Pública Elcy Lacerda, no Centro de Macapá.

Paulo Tarso Barros conversou com equipe do SN na Biblioteca Elcy Lacerda

Quando pegou gosto pela literatura?

Nasci em 29 de agosto de 1961 em Vitória do Mearim, no Maranhão, uma cidade a 170 quilômetros de São Luís. Comecei a me interessar por literatura quando tinha 12, 13 anos. Estudava no colégio do Instituto Nossa Senhora de Nazaré, que era um colégio administrado pela paróquia, que hoje está com 90 e poucos anos. E eu era um péssimo aluno. Depois de uma reprovação, teve uma chamada da minha mãe e eu comecei a me interessar por livros. Olha, eu comecei bem. Primeiro eu li um livro infantil, a partir do segundo ano e depois eu comecei a ler o próprio livro didático.

Aquelas coletâneas que vêm nos livros didáticos, com autores nacionais e rapidamente fui criando o hábito. Um livro vai puxando o outro e eu sei que, quando era muito jovem, li Humberto de Campos, Machado de Assis, Victor Hugo, Rui Barbosa, que hoje ninguém lê mais. Perto da minha casa tinha um escritório de advocacia, de um advogado provisionado, a que se chamava rábula. Eles eram “Os Rábulas”, não eram formados, mas desempenhavam a função naquela época que a OAB dava uma autorização.

Então tinha uma biblioteca fantástica lá. Comecei a me viciar em ler porque eu morava no interior e naquele tempo não tinha televisão. Só mais tarde que começaram a aparecer os programas de televisão, pouca gente tinha e chegou um dia que eu li um livro de Carlos Drummond de Andrade chamado “Seleta em Prosa e Verso”, aí eu vi um poema que diz que “no meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio caminho”, então eu disse “eu acho que eu posso escrever alguma coisa”. E eu comecei a rabiscar, mais ou menos com 12, 13 anos (risos).

Da esquerda para direita: Alcy Araújo, Isnard Lima, Fernando Canto, Paulo Tarso e Dinalva Barros Foto: arquivo pessoal

Ainda tem esses escritos?

Até hoje eu tenho os cadernos, mas eu nunca publique nada daquela época. Era um aprendizado. Quem é escritor sabe que a gente escreve muito, depois vai editar, revisar, e aproveita algumas coisas. A gente não pode aproveitar todo o material. É como uma casa que você faz e depois você joga a massa e vai fazendo o acabamento. Então eu levo a literatura assim com esse sentido de escrever, escrever, reescrever e aproveitar aquilo que eu julgo o que as pessoas que leem meus originais me orientam a manter.

Você é conhecido também, além de sua obra, por ajudar novos escritores a publicar, como surgiu esse interesse?

Eu cheguei aqui em 1980 e já trazia meus originais inéditos, pois ainda não tinha publicado em livro. Tinha publicado um ou dois poemas no jornal O Estado do Maranhão, um dos maiores jornais do estado, mas eu ainda não tinha publicado livro. Tinha a intenção. Então descobri que pouca coisa era publicada naquela época aqui. Vim pro Amapá porque meu irmão já morava aqui, os meus parentes antes do meu irmão já moravam aqui e eu vim por curiosidade e fui ficando. Fui estudar no Colégio Amapaense, depois trabalhei no comércio do meu irmão, que é da família. Tinha uns 22 anos nessa época, passei oito anos em uma grande empresa que é a Estacon, lá eu escrevia bastante, trabalhava muito, toda folga eu escrevia e lia. Inclusive eu frequentei a Biblioteca Pública durante todo esse tempo.

Eu era um assíduo frequentador, a minha formação era aqui na biblioteca. Então, eu descobri que pouca coisa se publicava aqui. Quando foi nos anos 1990, eu saí em 1991, 1992 da Estacon, aí eu pensei que estava na hora de começar. Eu já tinha publicado dois livros em 1988, mas era uma dificuldade como até hoje é. Fui aprender a fazer livros e ajudando várias pessoas. Pelas minhas contas, eu já ajudei a editar mais de 60 livros. Até criei um selozinho com o nome “Tarso Editora”, porque antigamente ninguém colocava o nome.

No rio Mearim, no Maranhão, terral natal do autor Foto: arquivo pessoal

Vocês produziam livros artesanais?

Isso. Nós tivemos que aprender a fazer no Page Maker [antigo programa de editoração] o livro. E depois nós nos reunimos na Associação de Escritores [Apes], que ajudou muita gente e depois cada um tomou seu rumo. Hoje está mais fácil, a informática está mais disseminada, mas ainda continua sendo muito difícil publicar livro, tem o custo muito alto. Foi assim que a gente começou a dar uma força um pro outro. Até hoje eu faço isso, editoração, revisão, essas coisas. Eu digo que eu trabalho mais nos livros dos outros do que nos meus.

Está desenvolvendo algum trabalho agora?

Sim, sempre tem. Tem uns dois ou três livros que eu estou fazendo. Tem o do César Bernardo, que eu já editei os três livros dele. Tem de outros dois professores que a gente está trabalhando ainda no texto e sempre tem. Eu não dou conta de muita coisa porque sou só eu. Então vou pegando pouca coisa pra fazer. E não é com fins lucrativos, muita gente pensa que é uma empresa, não é uma empresa. É uma coisa que faço porque eu gosto de fazer, e na hora que eu me aposentar provavelmente eu vou continuar fazendo com mais intensidade.

Paulo Tarso Barros: mais de 60 obras editadas com o selo “Tarso Editora”

Aproveitando que falamos sobre publicação, como foi o processo de lançamento de suas primeiras obras?

O “No dentro de mim” foi feito dentro de uma tipografia, mandei fazer desse jeito porque queria um livro feito na tipografia. Já tinha off set na época, mas eu mandei fazer lá no interior do Maranhão. Como tiveram algumas erratas, eu não fiz o lançamento. Minha mãe que fez lá. Como eu estava aqui em Macapá, não fiz o lançamento, só divulguei. Agora, o “Poemas de aço” nós fizemos o lançamento.

Como foi o lançamento de “Poemas de aço”, no Walquíria Lima?

Eu era um desconhecido porque nós éramos poucos. Hélio Pennafort, Manoel Bispo, Fernando Canto, professora Aracy, Alcy Araújo, Isnard Lima, eram os pesos pesados. A primeira geração muita gente ainda estava aí. E eu fiz esse lançamento e tive o privilégio de contar com o Alcy Araújo, Isnard Lima, Fernando Canto, Professor Armindo Oliveira, o Aroldo Pedrosa, que também estava lá e não era bem conhecido nessa época, era bem jovem; a Sulamir Monassa, que fez o coral lá funcionar, tive essa sorte, esse privilégio. A partir do momento que eu lancei o segundo livro, o “Poemas de aço”, fiquei mais conhecido aqui em Macapá. O Corrêa Neto me deu oportunidade de publicar muitas coisas nos jornais. Publiquei muita coisa em jornal, tanto crônicas quanto artigos e poemas.   

Obras publicadas pelo autor

Como você avalia esse tempo em que a  leitura em plataformas digitais fala mais alto que a leitura tradicional, no papel?

Há uma migração do livro físico para o virtual. Todo mundo hoje tem um smartphone. Eu mesmo tenho uma biblioteca digital fantástica, mas, como a maioria das pessoas, não abro mão do livro físico, do jornal, da revisita, embora isso já não seja como antigamente. Avalio que é preciso outro tipo de linguagem até porque você lê em tablet, smartphone, dói mais a vista. Mas na verdade hoje só mudou a plataforma.

Os grandes livros do mundo estão todos em formato pdf e outros formatos, como nos aplicativos de leitura. Eu leio num tablet, ainda não tenho um leitor. Vejo também que muita gente ainda não tem acesso à internet. Trabalho na biblioteca e às vezes não tenho o livro físico, aí eu pergunto para o usuário se tem acesso ao e-mail para enviar em formato digital e, por incrível que pareça, muita gente ainda não tem. Mas a tendência é que a leitura digital se torne cada vez mais comum. É irreversível isso.

Capa de “Poemas de aço”, publicado em 1986 Foto: arquivo pessoal

Sobre o que Paulo Tarso Barros escreve?

Eu me considero um escritor e até não gosto muito de usar a palavra poeta, que você sabe que a poesia, embora muita gente diga que escreva poesia, não se chega a um bom nível de poética a linguagem. Embora, como eu estudei, tenha a consciência de como se faz um poema, a técnica, metrificação e outros recursos e tudo mais; embora faça o verso livre, eu gosto mais de contos. Eu me considero mais um ficcionista.

Eu já publiquei duas coletâneas de contos, já participei de outras, “O Benzedor de Espingarda” e ”Histórias de um Sino” e tenho mais duas coletâneas de contos prontas pra publicação. Além disso, eu publiquei sete livros de poemas, dois cordéis, já fiz peças de teatro, mas o meu foco, do que eu gosto mesmo é da ficção, de contar histórias, assim como eu gosto de conversar, bater papo, ir num barzinho, de contar piada, eu também gosto de escrever histórias, curtas, que são os contos.

Quanto à infância, eu acho que é o que influencia, pode ver, na grande literatura, as pessoas vão sempre na infância buscar inspiração, motivação para escrever, que é o melhor período da nossa vida. Aí, depois vem a fase adulta, a velhice, e você busca na infância os anos dourados, as coisas maravilhosas que aconteceram na família, os amigos, os irmãos, então isso aí está muito presente na minha obra. Se você leu alguns poemas meus você vai detectar essa temática.

Na sua formação como escritor, quais autores são suas referências?

Os livros que me marcaram mais foram os da Geração de 30 Brasileira. Gostei muito de Rachel de Queiroz, José Lins do Rego, li muito José Mauro de Vasconcelos, Clarice Lispector. Eu estou falando mais na parte de prosa, que me influenciaram bastante. Na poesia, eu acho que todo mundo traz um pouquinho da influência do Drummond. Quando surge um grande poeta, além de fazer um bem danado acontece outra coisa: ele trava muito a produção, porque muita gente vai se espelhar nele. Raramente você não vai ter influência porque surge o escritor a partir do leitor. Da somatória de suas leituras, daquilo que você gosta ou não gosta. Atualmente, por exemplo, eu estou gostando muito da literatura africana e da literatura japonesa.

Biblioteca Pública Elcy Lacerda: de frequentador para diretor e colaborador

E o seu processo de criação, como funciona?

Meu processo de criação é muito simples. Quase todo escritor tem o seu, sua mania, seu estilo. Antigamente, eu escrevia à mão. Hoje, eu só escrevo no computador. Geralmente vem uma ideia, um sonho, uma conversa, uma piada. Eu gosto muito de conversar e conviver com as pessoas e a partir daí eu extraio muita coisa. Então meu processo de criação é fazer uma primeira versão, nem que seja um primeiro parágrafo e ir escrevendo aos poucos. Às vezes você tem umas tiradas que consegue em um dia ou dois produzir bastante texto.

Outras vezes, você não produz. Às vezes passo anos e anos sem escrever nada, mas a cabeça está funcionando e quando a gente senta pra escrever tem algumas ideias. Eu geralmente anoto também. Tenho um arquivo no computador que é só pra anotar as ideias e depois, se der, desenvolvê-las. Se essa ideia for consistente a gente desenvolve. Se não, ela fica pra trás.

Tem uma produção sua a qual você tem uma relação afetiva e que expresse algo a mais?

O livro “O Benzedor de Espingarda” foi o livro que mais me surpreendeu porque é um livro que até hoje é citado, transformado em peça tanto aqui no Amapá, como lá no Maranhão. Foi transformado em peça de teatro várias vezes. São contos da minha infância, pessoas que eu conheci realmente, que me contavam histórias. É um livro sobre contadores de história. Os dois personagens do livro, o Manecão e o João Damasceno, eram contadores de história, daqueles que contavam histórias, pegavam e mudavam a história e me fascinaram na infância. Eu considero que eles foram dois dos responsáveis por eu gostar de contar histórias, de ser um prosador.

Escritor se define como prosador

E sua relação com a Biblioteca Pública?

Desde os anos 1980 que eu frequento a biblioteca. Sempre tive uma relação de amizade e de colaboração com os funcionários, mesmo antes de trabalhar na biblioteca eu já colaborava com os lançamentos de livros. Hoje vou fazer quinze anos aqui, sou lotado aqui, e a gente tem uma relação afetiva muito forte com a biblioteca. A gente cuida muito bem.

E parabenizo o Pastana [José, escritor e diretor da biblioteca] que tem cuidado muito bem da biblioteca, todo o corpo de funcionários tem uma relação que não poderia ser diferente. Trabalhamos com livro, com conhecimento, recebemos professores, mestrandos, doutorandos, alunos de escolas públicas do ensino fundamental. A gente tem que tratar com muito carinho e dar o melhor que a gente tem para poder colaborar com o livro e a leitura, com o desenvolvimento da leitura.

No lançamento de “Poemas de aço”, na Escola de Música Walquíria Lima Foto: arquivo pessoal

Qual recado você pode dar para os jovens consumidores de literatura e que desejam escrever e publicar no Amapá?

Um dos meus sonhos, uma das utopias que eu tenho, é que esse Brasil leia mais. Moramos num país de não leitores e isso é muito grave. Percebemos essa defasagem e essa deficiência nos exames de ordem, nos concursos públicos, nos ”Enem’s” da vida, nas entrevistas de emprego. Então eu falo que quando eu vou para as escolas, em vez de falar da minha obra, eu falo da importância do livro em si. Não só do meu livro, mas dos bons livros.

Porque chega uma idade que você começa a selecionar os livros; então eu sempre falo da importância do livro porque o livro me abriu portais. Desde muito jovem, consegui abrir várias portas por causa do livro e da leitura. Porque gostava de ler e escrever e isso me possibilitou conviver com pessoas inteligentes, pessoas do bem. Pra quem quer escrever, o conselho que a gente dá é redundante. É leitura, muita leitura, muito espírito autocrítico.

Não pense que tudo o que você vai colocando no papel serve para publicação. Por isso que tem a figura do editor, que infelizmente a gente ainda não tem por aqui. Eu tenho feito esse trabalho, mas não é ainda um trabalho profissional. Por isso precisamos de um editor, de um leitor crítico que nos ajude. Muita gente acha que atrapalha, mas pelo contrário: ajuda. Ajuda. Se você tiver uma pessoa que te oriente na hora de escrever, editar, escolher o texto, é muito melhor.

Assista:

Perfil do escritor

Nascido em Vitória do Mearim, no Maranhão, Paulo Tarso Barros tem 57 anos. É casado, tem duas filhas e mudou-se para Macapá nos anos 1980. 

Começou escrever os primeiros poemas aos 13 anos e publicou sua primeira obra, “No dentro de mim”, em 1986, e em seguida, no mesmo ano, lançou em Macapá “Poemas de aço”.

Noite de autógrafos do livro poemas de aço, em 2 de dezembro de 1986 Foto: Juvenal Canto/arquivo pessoal

Além da participação em coletâneas, o autor também publicou: “O devaneio é o cetro do poeta”, “Inventário das buscas”, “História de um sino”, “Existencial do pássaro migratório”, “O benzedor de espingardas” e “Os silêncios da eternidade”.

Barros é professor, com os cursos de pós-graduação em Letras: Português e Literatura pelas Faculdades Integradas de Jacarepaguá FIJ (2009) e Licenciatura Plena em Letras pela Unifap (1995). Atualmente, trabalha na Biblioteca Pública Elcy Lacerda, onde já foi diretor.

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