Estresse, facções, relação com os presos: agente revela os desafios de trabalhar no Iapen

O Portal SN entrevistou dos mais experientes e respeitados agentes do Iapen. Ele já foi ameaçado junto com a família, e diz que apenas 5% dos presos querem mudar de vida
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Por SELES NAFES

Agente penitenciário é uma das profissões mais arriscadas do Brasil, principalmente quando a penitenciária é dominada por facções, tem um controle frouxo na entrada de materiais, e poucos funcionários treinamentos para atuar em crises.

No Amapá, os cerca de 900 agentes do Instituto de Administração Penitenciária (Iapen) lidam diariamente com mais de 2,8 mil presos, quase 3 vezes mais do que a capacidade original da estrutura dos pavilhões.

O Portal SelesNafes.Com conversou neste domingo com um dos mais experientes e treinados agentes do Iapen. Sem se identificar, por razões óbvias, ele falou sobre ameaças, falta de acompanhamento psicológico adequado, e a tensão com os presos.  

Vocês correm risco de morte dentro do Iapen? Como vocês fazem para se proteger?

Já teve ocorrência do preso ter tomado a arma do agente do pavilhão. Hoje, são em média dois agentes por pavilhão. Os agentes foram surpreendidos e um deles teve a sua arma retirada por um dos presos. Ressaltando que a média de presos em cada pavilhão ultrapassa o número de 120. Já tivemos também registro de servidores que foram seguidos no trânsito, sendo monitorados em suas casas.

Você já foi ameaçado? Como foi isso?

Fui ameaçado de morte, por um preso de alta periculosidade. Falou que iria fugir e me matar juntamente com a minha família. Que sabia onde eu morava.

Com poucos servidores com treinamento adequado, “na crise vai ser uma correria”. Fotos: Arquivo/SN

Como terminou esse episódio da ameaça?

Fiz um boletim de ocorrência no Ciosp do Pacoval, registrei ocorrência na portaria do cadeião do Iapen para as providências administrativas, e foi feito um tc (termo circunstanciado). Na parte administrativa, o preso foi punido com falta grave, o que atrasa a progressão de regime.

Existe diálogo entre os agentes e os presos e seus líderes para manter a ordem na cadeia, ou o Iapen é um barril de pólvora?

Sim, existe. Mas não se pode afrouxar, a lei tem que ser cumprida porque se der muita “asa” pode demonstrar que nós não temos pulso. Infelizmente, no Iapen, se convencionou muitas situações. Exemplo: entrega de materiais na semana. Ora, se eles recebem café, almoço e jantar por que ainda recebem outros alimentos? Isso vêm sendo adotado ao longo da existência do Iapen. Não está na Lei de Execução Penal.

Qual a sensação de trabalhar num lugar onde existe praticamente uma guerra em andamento?

Insegurança total. Não existe planejamento de segurança no Iapen. Em uma ação (crise) vai ser uma correria devido os servidores não serem treinados na sua maioria ´para esse tipo de situação. Poucos possuem um treinamento operacional para esse tipo de ação. Infelizmente, a administração ignora certos procedimentos, omite informações dificultando uma atuação com segurança pelos agentes dos pavilhões.

No episódio em que o Alemão quase foi morto, foi uma briga ou os outros presos receberam ordens para eliminá-lo?

Sim, os presos receberam ordens para matá-lo. Geralmente o pagamento é feito por meio de drogas. Existe um número crescente de presos dependentes químicos. Fica fácil para a facção usar esses presos dentro e fora do Iapen para a prática criminosa.

Alemão levou 10 facadas horas depois de ter sido preso, na última sexta-feira (22). No Iapen, mantê-lo em segurança é impossível, diz o agente

O desembargador Rommel Araújo negou habeas corpus ao Alemão, mas determinou que o Iapen garanta a segurança dele? Isso é possível?

No HE (Hospital de Emergência) podemos até assegurar a integridade física dele, agora quando ele retornar vai ser impossível. No Iapen não temos um local que ofereça segurança para esse tipo de situação. Porque quando a facção criminosa quer executar um desafeto ela vai e faz. Dentro ou fora, da cadeia.

O Alemão faz parte de uma facção rival, a “Terror”. Infringiu contra alguém o interesse da Terror e foi julgado. Portanto, a sentença que deram a ele foi a morte.

Existem presos bem-intencionados que estão querendo começar uma nova vida depois de sair da prisão?

Têm. Em um universo de 100% acredito que uns 5% quererem cumprir sua pena e ganhar a liberdade para recomeçarem uma vida nova. O trabalho das igrejas evangélicas é fundamental nessa mudança. Tanto a Assembleia de Deus quanto a Igreja Universal estão realizando um trabalho excelente para a mudança de vida de muitos presos que aceitam seguir a vida de acordo com o Evangelho de Jesus Cristo.

Você já virou amigo de algum preso?

Não. Existe a relação de respeito quando encontro ex-detentos pela cidade. A nossa formação familiar, técnica, operacional nos reserva ao cumprimento da lei. Dentro da cadeia existem direitos e deveres dos presos. Aos servidores, cabe cumprir o que diz a lei, sem violar ou cometer excessos, para não perdermos a nossa razão.

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Qual é o melhor e o pior aspecto da profissão de agente penitenciário?

Bom, essa é uma variante. Para mim, pode ser uma realidade. Para outros servidores pode haver discordâncias. No meu entendimento, não digo “melhor aspecto”. Falo em termos de atividade de trabalho. A atividade penitenciária não é uma rotina. Sempre acontecem novidades, as quais temos que nos adequar e atualizar, pois o crime sempre vai tentar burlar a segurança de um estabelecimento prisional. Isso leva os servidores “antenados” a se atualizarem e buscarem conhecimento para não ficarem na mesmice. Assim, quando forem acionados, poderão realizar a ação com eficácia e segurança, de acordo com a lei e os manuais de procedimentos de segurança prisional.

O pior aspecto, sem sombra de dúvidas, é o estresse. Isso tem gerado muitos problemas de saúde em muitos servidores. Infelizmente nos falta um programa institucional para acompanhar a rotina dos servidores. Só a unidade de psicossocial não é o bastante.

Tem que existir um acompanhamento amplo, que envolva a vida familiar e pessoal dos servidores. Pois, os servidores bem de saúde, clinicamente e psicologicamente, irão desenvolver com toda certeza um trabalho no interior dos pavilhões com tranquilidade e sem comprometer ou infringir a lei.

Você acha que algum dia será possível acabar com a entrada de materiais ilícitos dentro do Iapen?

Sim. Quando tivermos um suporte tecnológico de monitoramento com câmeras, scanner com raios-x, scanner corporal… O Iapen está adquirindo 5 unidades. Já chegaram 3.

Hoje, como os materiais proibidos entram?

O espaço físico é grande, tem os (trabalhadores) terceirizados, contratos administrativos e, infelizmente, servidores corruptos. Já tivemos 4 casos em que nós cortamos na carne. Prendemos os servidores que praticavam corrupção, que levavam drogas, celulares e armas.

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