Famílias sofrem para sepultar parentes mortos na Guiana Francesa

Brasileiros mortos pelas mais variadas formas demoram semanas para serem liberados. Prefeitura de Oiapoque também não tem recursos para custear sepultamentos
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Por SELES NAFES

Depois de semanas de tratativas, esta semana a Guiana Francesa finalmente liberou o corpo do amapaense que morreu afogado quando tentava entrar clandestinamente em território francês para trabalhar. O episódio foi apenas um entre vários que angustiam famílias brasileiras, em especial as que vivem na fronteira, na cidade de Oiapoque, município a 590 km de Macapá. O grande desafio é trazer os mortos para sepultamento.

Na noite de 10 de fevereiro, Cleyvison do Espírito Santo Mutrim, de 19 anos, morador de Oiapoque, estava numa canoa a remo, junto com outros sete brasileiros, todos a caminho de um garimpo em Ouanary, área de floresta na Guiana.

A cerca de 100 metros da praia, já do lado francês, um buraco se abriu e a canoa foi a pique. Os sete ocupantes conseguiram nadar até a margem, menos o amapaense.

A justiça da Guiana liberou o corpo só após o encerramento do inquérito, algumas semanas depois, mas a família não tinha recursos para trazer o jovem de volta para ser sepultado em Oiapoque.

O diretor de relações internacionais da prefeitura de Oiapoque, Isaac Silva, tratou dos detalhes e acompanhou a liberação do corpo, mas o município não pôde ajudar a família financeiramente com o translado e o sepultamento, orçado e R$ 12 mil.

“A prefeitura não possui fundo e nem previsão legal para custear esse tipo serviço. Nenhuma prefeitura tem essa previsão. Por isso, a própria família e amigos se mobilizaram realizando uma campanha para arrecadar o dinheiro”, explicou o diretor.

Na foto em destaque, o corpo do brasileiro é carregado num caixão em direção à casa da família para velório. 

Pedidos

De acordo com Isaac Silva, pelo menos três vezes por mês a prefeitura recebe pedidos de famílias querendo trazer corpos de parentes que morreram na Guiana Francesa.

Policiais levam corpo de jovem para autópsia na Guiana. Fotos: Reprodução

Rapaz ia trabalhar em um garimpo, mas morreu afogado. Foto: Reprodução

Além da dificuldade financeira das famílias, a burocracia internacional acaba aumentando o sofrimento. Um dos casos ainda não resolvidos é de um jovem assassinado em uma briga antes do Natal do ano passado, mas que até agora o corpo não foi liberado pelas autoridades francesas.

“Hoje mesmo recebemos outro caso”, revelou Isaac Silva.

Mas os problemas não estão apenas no lado francês do rio Oiapoque.

“Os brasileiros não entendem que aqui (no Brasil) é ainda mais demorado. Dois meses atrás morreu aqui em Oiapoque, assassinado, o esposo da vice-prefeita de Camopi (Guiana). O corpo só foi liberado 24 horas depois da morte porque encurtamos o caminho. Se fôssemos pelo padrão normal ia demorar 3 semanas”, informou.

“Em outro caso, o corpo de um índio (francês estava na pedra do HE já em estado de decomposição. Algo tinha que ser feito. Registramos o BO na Polícia Civil, e, depois do laudo e registro em cartório, levamos o corpo todo inchado, lembrando que uma semana antes um francês morreu de ataque do coração numa boate aqui de Oiapoque”, acrescentou. 

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