Suposta pobreza de Abel vira polêmica nas redes

Amigo do patrono do Bloco do Abel criticou tratamento dado ao estudante que emprestou nome ao show de Lucas Lucco
Compartilhamentos

Por SELES NAFES

Uma postagem compartilhada centenas de vezes no Facebook, e disparada em grupos de WhatsApp, gerou uma grande polêmica envolvendo o bloco de Carnaval mais popular do momento no Amapá, o Bloco do Abel. O post, que pode virar uma ação judicial, abordou uma suposta situação de pobreza e de abandono do patrono do bloco, que retornou de navio para Belém (PA).

Abel Nascimento, de 28 anos, é autista, e estuda Estatística na Universidade Federal do Pará (UFPA). Em 2016, amigos que atuam na causa autista decidiram fundar o bloco para ajudá-lo na mudança para Belém após aprovação no vestibular, e também para arrecadar alimentos a serem doados a instituições sociais.

O bloco cresceu nos anos seguintes. No Carnaval de 2019, os amigos e a família do estudante cederam o direito de imagem do Bloco do Abel para a empresa W2, promotora do show de Lucas Lucco, no último dia 2 de março.

O bloco lançou o projeto de construção da Casa do Autista, e também fez um acordo com a W2 para que cada ingresso vendido gerasse um quilo de alimento não perecível para ser distribuído a entidades.

A polêmica começou nesta segunda-feira (11), quando Pedro Rogério Gomes Moreira, um dos amigos e fundadores do Bloco do Abel, postou em seu perfil um texto com severas críticas ao fato de Abel estar retornando de navio para Belém, e ainda por cima acomodado em uma rede.

Lucro? Se eu sou contra? Claro que não, se houve trabalho e investimentos, tudo bem ter lucro, mas o que me deixa indignado é hoje o meu amigo ir de barco e de rede, numa viagem de 24 horas para trancar a faculdade pois não consegue mais se manter em Belém.

Parte da postagem no Facebook que pode virar processo

Para Pedro Rogério, que não faz mais parte do bloco, a aparente pobreza de Abel contrastava com o tamanho do evento que foi o show de Lucas Lucco.

Agora vem meus questionamentos. Depois de uma megaestrutura, atração nacional, ingresso altos, não tinha condições de pagar um camarote de navio? Não que ir de rede não seja digno, mas será que não sobrou uns 130 reais para comprar uma suíte para proporcionar uma viagem mais confortável?

– Meu amigo tem uma memória fantástica e perguntei para ele se ele tem algum acompanhamento médico ou psicológico. Adivinhem a resposta? Isso mesmo, ele não tem! Como levantam essa bandeira do autismo e não acompanham o tratamento do carro chefe do bloco?

“(…) Ele merecia mais cuidado por parte das pessoas que estão à frente do bloco dele”, concluiu.

Despesas

Procurada pelo Portal SelesNafes.Com, a mãe de Abel, a servidora pública Alice Bessa, disse que estuda processar Pedro Rogério.

“Ele sempre foi nosso amigo e sempre teve acesso a nossa casa. Ele poderia ter me perguntado o que estava acontecendo antes de publicar a postagem”, ponderou.

Alice afirmou que o único retorno da parceria com a W2 foi a arrecadação de alimentos, e que não houve qualquer acerto financeiro. No entanto, ela admitiu que a família enfrenta sérios problemas financeiros para manter Abel estudando em Belém.

“A permanência dele consome 90% do meu salário, e ele ainda recebe uma pensão de R$ 1 mil do pai dele”, revelou.

“(…) É claro que a ida de navio tem um motivo financeiro, mas o Abel também adora e prefere viajar de navio. Dentro da embarcação, ele tem a oportunidade de fazer o que mais gosta: conversar. Normalmente, as pessoas não querem dispor de tempo para ouvir ele, que sofre muito preconceito por isso”, desabafou.

“As pessoas criticam muito o jeito simples dele se vestir. O que as pessoas não sabem é que ele tem sensibilidade na pele, por isso só gosta de roupas de algodão, e quanto mais velhas, mais ele usa. Ele adora andar de sandálias havaianas”.

Abel com amigas fundadoras do bloco. Foto: Reprodução

UFPA

Alice Bessa assegurou que Abel tem acompanhamento psicológico e de uma junta de profissionais da UFPA, mas, que apesar disso, o filho não se saiu bem na universidade no semestre passado.

“Não teve rendimento em 2018 por problemas da própria UFPA, que não me cabe agora abrir um debate. (…) Além disso, alguns professores são contra a permanência dele nesse curso. Alguns alunos com a síndrome conseguiram bons resultados, mas com ele não deu certo”, informou.  

A mãe de Abel ainda revelou que o possível retorno para Macapá será a oportunidade que ela terá de cuidar mais da saúde do filho, que precisa perder peso.

“Como autista, ele tem o direito de estudar em casa e fazer as provas na universidade. Vou a Belém nos próximos dias tentar essa solução, se não teremos que trancar esse semestre”.  

Deixe seu comentário
Compartilhamentos
Insira suas palavras de pesquisa e pressione Enter.