Em Moçambique, bombeiros do AP relatam sofrimento, fé e cuidado com crocodilos

Dois bombeiros amapaenses estão entre os 40 militares brasileiros da Força Nacional de Segurança no país mais arrasado pelo ciclone Idai
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Por SELES NAFES

Depois de Brumadinho (MG), bombeiros do Amapá que fazem parte da Força Nacional de Segurança agora integram as equipes da ONU em Moçambique, país mais devastado pelo ciclone Idai, que atingiu também o Zimbábue e o Malaui, na chamada África Subsariana (ao sul do Saara), no dia 14 de março.

Mais de 1,1 mil pessoas foram mortas. A força do vento foi tão grande que corpos de moradores de Zimbábue foram encontrados em Moçambique.  

O segundo sargento Igor Moutinho e o terceiro sargento Michel Santana são os dois bombeiros do Amapá selecionados para integrar um grupo de 40 militares brasileiros de vários estados, principalmente de Minas Gerais.

Além da experiência e treinamento, eles precisam de muita fé e amor ao próximo para fazer o melhor possível, o que nem sempre acaba sendo o suficiente diante de tanto caos.

Voo durou 26 horas. Aviões transportaram militares e viaturas. Fotos: Michel Santana e Igor Moutinho/CBM-AP

Michel Santana e Igor Moutinho homenageiam o Amapá

Moutinho com bebê de comunidade devastada pelo ciclone

Também é preciso tomar cuidado com algumas características da região, como o risco de ataque de crocodilos.

Para chegar a Moçambique foram 26 horas de voo, com intervalos para reabastecimento em dois aviões da FAB que também transportaram viaturas, mantimentos e equipamentos. O Portal SelesNafes.Com conversou com o terceiro sargento Michel Santana.

Houve resgate de corpos?

Sim. Mas quando chegamos aqui, no dia 1º de abril, essa fase de resgate estava superada. Houve 1,1 mil mortos nos três países: Moçambique, Zimbábue e Malaui. Isso foi na primeira semana. Diferentemente de Brumadinho (MG), houve poucos soterramentos. Aqui os corpos ficaram aparentes. Existem alguns vídeos na internet que são reais e mostram muitos corpos nas praias. Devido à força do ciclone, corpos de moradores do Zimbábue foram encontrados no litoral de Moçambique.

Quais os maiores desafios nesse trabalho?

O maior desafio é compreender que, apesar da especialização e qualificação, é preciso abrir mão um pouco disso e se adequar à necessidade. Aqui as pessoas precisam de um contato direto. Aqui existem surtos de cólera e de malária devido a todo o alagamento que dizimou vidas. Esse cenário provoca à primeira vista o isolamento das pessoas. Mas estamos aqui para fazer diferente. Essa postura é de impacto, é a primeira reação que devemos modificar em nós mesmos.

Militares montaram acampamentos…

…com centenas de barracas

Michel Santana: famílias vão recomeçar do zero

Qual a situação do povo?

A situação social de Moçambique é muito séria. É o país de língua portuguesa com o menor índice de desenvolvimento humano, apesar de ter um povo incrível, educado e ordeiro. A violência é muito baixa. É um pessoal muito alegre. Até mesmo nos constrange a postura desse povo diante das dificuldades. Aqui o número de órfãos pelo HIV é assustador.

Mas eles têm uma reação extremamente positiva ante ao passo em que estão necessitando de muito acolhimento, cuidado, orientação, educação, coisas que levem à mudança social a começar por Beira, que é a segunda maior cidade do país. Fomos trabalhar na restruturação de uma creche, e lá existem 90 órfãos soropositivos que estão sendo cuidados por projetos sociais. Se não fossem esses projetos estariam a mercê da sorte.

Como vocês reagem a situações de fome e extrema necessidade?

A fome não espera. As pessoas até agem de forma irracional. Nós fomos muito bem orientados pela direção da Força Nacional e no CBM-AP para atuar de maneira adequada. Para doar o alimento precisa ter um trabalho organizado, programado, para não gerar problemas, e sim uma solução.

Existe uma organização de agências da ONU e da Agência Nacional de Gerenciamento de Catástrofes do governo de Moçambique. A gente atua na reconstrução, no apoio, desobstrução de estradas, recuperação de escolas, hospitais, toda obra que nos é lançada. É um país com topografia extremamente plana, por isso o ciclone foi avassalador. Em algumas estradas as carretas com mantimentos não conseguem passar. Existem muitas comunidades isoladas e com fome. Nosso trabalho é nos acessos, verificar pontes para chegar com segurança a provisão.

Equipes atuam em várias missões…

Há muitas árvores obstruindo estradas

Ao todo, 40 militares do Brasil integram equipes de auxílio às forças de Moçambique

Posto da Força Nacional

Já houve situações em que foi necessário ajudar com dinheiro do próprio bolso?

Isso é inevitável. Apesar de todo o treinamento, há situações que tocam cada um, pessoalmente. As vezes o morador nem pede, mas você se depara com a vulnerabilidade. Emocionalmente é inevitável. Acontece de maneira voluntária, de acordo com o que cada um sente em seu coração.

Qual o sentimento de estar em mais uma missão humanitária?

O sentimento é de gratidão a Deus. Quando a gente pensa que está dando alguma coisa, a gente mais recebe do que dá. É uma oportunidade de nos tornar pessoas melhores. O Corpo de Bombeiros do Amapá nos preparou para ter a frieza necessária para atuar num momento de crise, mas Deus tem nos dados a oportunidade de fazer isso de maneira humana, olhando nos olhos das pessoas com fome, sem esperança, e que tiveram suas casas destruídas.

Montamos aqui um campo de acolhimento com centenas de barracas e vimos pessoas recomeçando do zero, esperando aquela barraca ser montada para elas entrarem e dizer que têm de novo um teto, e que irão recomeçar a vida. Algumas têm seis, sete filhos, sem renda, sem ter o que comer naquele dia. Isso nos faz reavaliar o que fazemos, quem nós somos de fato e que Deus está fazendo por nós nos dando essa oportunidade.  

Momento de fé antes de mais um dia na África

A experiência em Brumadinho ajudou?

Sim. Tivemos em Brumadinho uma situação extrema. Isso nos deixou mais preparados para atender o próximo com mais eficácia e muita humanidade, com muito respeito, nos colocando na condição de quem está sofrendo para que a resposta seja a melhor possível. Talvez não seja a ideal, mas foi a melhor possível por nos colocarmos na situação das pessoas.

Não esqueço uma carta da Luana, de Brumadinho, onde ela nos pediu para encontrar o corpo do pai dela. Aquela carta não sai da minha cabeça, pois não achamos o corpo. As pessoas nos parabenizaram pelo trabalho, mas ficamos com a sensação de que poderíamos ter feito mais.

Quando termina a missão de vocês em Moçambique?

A portaria prevê até o dia 17 de abril, mas o governo de Moçambique está pedindo que seja prorrogada a nossa permanência, pois as demandas são muito grandes. As equipes da Força Nacional estão atuando em quatro frentes, todas afetadas pelo ciclone. São comunidades com demandas semelhantes.

Busi foi a cidade mais atingida. É um local plano onde a água subiu mais de três metros deixando as casas debaixo d’água. Lá está sem energia, com muitas árvores caídas sobre casas, escolas e ruas, impedindo a passagem. São árvores de grande porte que necessitam de muito trabalho.

Quantas horas de jornada de trabalho por dia!

Não temos. A missão tem que ser cumprida. As vezes conseguimos no mesmo dia, as vezes entra pela noite. As vezes a missão nos exige mais. Em Buzi passamos três dias direto em condições precárias porque a cidade se encontra nessa condição. Já era uma cidade sem infraestrutura que sofreu muito.

O rio que passa muito próximo tem muitos crocodilos. Após o ciclone, um pai e um filho estavam tentando tirar um sofá para lavar e foram devorados por crocodilos. Os moradores nos advertiram muito sobre isso. Essa é uma realidade daqui e precisamos saber dessas limitações num cenário como é a África.

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