Em barraca de lanche, mulher aluga calças para audiências em fórum

Autônoma viu uma pessoa quase perder uma audiência porque estava vestida com bermuda.
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Por MARCO ANTÔNIO P. COSTA

Quem passa pelo Fórum Trabalhista Juiz Raul Sento-Sá Gravatá, no Bairro Infraero II, na zona norte de Macapá, pode se deparar com uma cena inusitada, mas, bem engenhosa.

Além de água e lanches, a barraquinha em frente a instituição judiciária oferece o serviço de aluguel de calças compridas e guarda capacetes.

Quem comanda o pequeno empreendimento é Valdilene Leite Coutinho, de 45 anos, remanescente da comunidade quilombola do Curiaú, e atual moradora do Bairro Infraero II.

Separada, mãe de dois filhos, ela conta que o último emprego que teve com carteira assinada foi em uma panificadora, área para a qual especializou fazendo vários cursos no Sebrae. Ela garante que é boa no ramo, mas, lamenta que o mercado de trabalho não esteja oferecendo boas oportunidades.

Valdilene Leite Coutinho, de 45 anos, é quem comanda o empreendimento Foto: Marco Antonio P. Costa

Segundo a autônoma, a ideia de alugar roupa em frente ao fórum surgiu de uma situação concreta que presenciou, quando havia trabalhava somente com lanche no local. Ela lembra que uma pessoa quase perdeu uma audiência, por estar vestindo bermuda, o que não é permitido no fórum.

Solidária à situação, Lene, como é chamada, buscou em sua casa uma calça de um dos filhos, e a alugou por R$ 10. Daí, veio a ideia de incrementar os ganhos. Hoje, a mulher trabalha com seis calças, entre femininas e masculinas, e de variados tamanhos.

De forma similar também, acabou acontecendo com os capacetes. A administração do fórum proíbe a entrada de pessoas com capacete e, como se trata de uma área da cidade com poucos recursos por perto, lá está a barraca da Lene para servir de guarda volumes, no caso, de capacetes. Cada cliente recebe a senha com o número correspondente ao do seu objeto e faz a retirada após sua audiência. Pelo serviço, Lene cobra R$ 2.

Além do aluguel de roupa, mulher guarda capacetes Foto: Marco Antonio P. Costa

“O movimento já foi muito maior, mas, por causa da reforma trabalhista e da crise que o país está passando, o número de audiências diminuiu. Eu vendia duas caixinhas de água por dia, que é o que dá mais dinheiro. Hoje tem dias que eu não vendo nem uma garrafinha”, lamentou.

Sobre a fluência na fala e a desenvoltura para passear por assuntos como, por exemplo, a crise econômica e a reforma trabalhista, a comerciante explica.

“Tem uma doutora aí de dentro que brinca falando que eu sou mais advogada que ela já. Porque são mais de três anos todo dia aqui e eu gosto muito de conversar, aí as pessoas ficam aqui esperando as audiências, ou nos intervalos, e eu vou me inteirando dos casos, por isso aprendi muita coisa”, falou.

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