Macapá tem velório com samba: conheça o “gurufim”

Homenagens a sambista da zona sul de Macapá resgatam manifestação que tem origem africana
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Por MARCO ANTÔNIO P. COSTA

Está acontecendo um gurufim em Macapá. “Seu Malafaia do Cavaco” faleceu, e o mundo do samba segue lhe rendendo homenagens. Nas palavras de um amigo: o gurufim não para! Continue lendo para entender o que significa essa expressão.

Mecânico de profissão, músico por vocação

Na última terça-feira (25), faleceu em Macapá Dorival Santos Malafaia, com 69 anos de idade. Seu Dorival teve seguidas paradas cardíacas e chegou a ser levado para o Hospital de Emergências de Macapá, onde foi socorrido, mas acabou não resistindo.

Macapaense do Bairro do Buritizal, na zona sul, era conhecido mecânico de motores de carro, da Avenida 1º de Maio. Assim ganhava a vida e assim criou três filhos, mas sua verdadeira paixão era a música.

Amigos e familiares homenageiam o sambista da zona sul. Fotos: Marco Antônio P. Costa

Autodidata, bem jovem já tocava violão quando foi apresentado ao cavaco, quando estabeleceu a parceria com este instrumento que iria lhe ser tão importante na vida ao ponto de compor seu nome social.

No samba, era aquilo que se conhece por “bamba”, um título informal que denota experiência, carinho e reconhecimento. Um dos fundadores da Escola de Samba Unidos do Buritizal, era um veterano, um pioneiro, e com ele, contam os mais novos, gerações e gerações de meninos foram apresentados ao mundo do ritmo de Cartola e Jamelão.

Seu Malafaia com o cavaquinho. Foto: arquivo familiar

“Gurufim”

O gurufim é um velório feito com samba que tem origem africana. As comunidades negras, ligadas ao samba do Rio de Janeiro e São Paulo das décadas de 50 e 60, velavam seus mortos dessa maneira: pode até ter choro e vela, mas não faltam histórias do falecido e, é claro, muito samba.

Rocky do Cavaco: amor pelo samba em homenagem. Foto: Marco Antônio P. Costa/SN

A manifestação foi perdendo força e com o tempo foi reservado somente aos mais importantes sambistas e foi o que aconteceu, por exemplo, no velório da Madrinha do Samba Beth Carvalho, em maio, no salão nobre da sede do Botafogo, em General Severiano, zona sul do Rio de Janeiro.

O Gurufim do seu Malafaia do Cavaco ocorreu na mesma noite do dia 25 e se estendeu até o dia seguinte, quando foi realizado o enterro. Mas não parou por aí. Antes mesmo da missa do 7º dia, neste último domingo (30) já ocorreu outro gurufim em homenagem ao sambista, na mesma Avenida 1º de maio onde ficava sua casa e oficina. E há pelo menos mais um, marcado por outro grupo de amigos. Assista:

“As pessoas que não convivem no meio do samba não sabem o amor que quem toca samba tem e a pérola de despedida é dessa forma, homenageando quem faleceu. Seu Malafaia iria gostar muito que fosse assim” afirmou Rozivan Ramos, o “Rocky do Cavaco”, que tem 38 anos e trabalha como instrutor de auto escola.

Dorinaldo Malafaia: ato de respeito pelo pai organizado pelos amigos. Foto: Marco Antônio P. Costa/SN

Família

O gurufim do Seu Malafaia não foi organizado pela família, mas a mesma teve total compreensão com as homenagens que os amigos estão realizando.

“Eles estão organizando tudo. No dia do falecimento do meu pai eu estava viajando a trabalho e quando cheguei ao velório o gurufim já estava sendo armado. Eu encaro como um ato de respeito e uma homenagem. Tem dor da nossa parte e da deles, mas também tem a memória do meu pai que se foi e eu tenho orgulho que ele tenha cativado tanta gente”, declarou um dos filhos do Seu Malafaia do Cavaco, Dorinaldo Malafaia, enfermeiro e gestor público.

Foto de capa: Marco Antônio P. Costa/SN

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