Bar do Lennon: criadores falam de boemia, engajamento e curiosidades

Espaço fez sucesso nos anos 1980 e 1990 em Macapá como referência do cenário cultural
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Por MARCO ANTÔNIO P. COSTA e
MARCELO GUIDO

O Amapá, então território federal, ainda vivia sob a batuta dos interventores da Marinha. O Brasil, recém tinha passado pelo processo de Anistia e ainda iria viver cinco anos mais de ditadura civil-militar.

Foi nesse contexto que surgiu em Macapá, em 1980, o Bar do Lennon, um bar temático que conseguiu incorporar a atmosfera de resistência do final dos anos de chumbo. E a proposta realmente era essa.

Talvez seja coincidência, mas o bar ficava na esquina da Rua General Rondon com Avenida Iracema Carvão Nunes, no centro de Macapá, bem em frente à Praça da Bandeira, o maior palco das manifestações que clamavam por liberdade naqueles anos.

Na entrada do bar, ficava a imagem de John Lennon”. Foto: reprodução/internet

O idealizador e primeiro proprietário foi o economista e empresário Jurandil Juarez. Jurandil, que já foi vereador de Macapá e deputado federal, é oriundo dos quadros do Movimento Democrático Brasileiro (MDB), que na época agregava quase todos os descontentes e opositores ao regime dos coturnos.

A ideia era que o bar se chamasse “República do Cunani”, em uma alusão aos revoltosos que ousaram fundar uma república de alguns dias no coração do Amapá. No entanto, no dia 8 de dezembro de 1980, John Lennon foi alvejado por cinco tiros por Mark David Chapman, em Nova Iorque, às portas do Edifício Dakota.

Uma semana antes da inauguração, a homenagem ao garoto de Liverpool que pregava paz e representava resistência, era óbvia. O bar foi inaugurado e de cara conseguiu juntar todo esse caldo reprimido por cultura e liberdade de expressão da capital amapaense.

Com capacidade para cerca de 90 mesas, o bar vivia lotado. Tinha seu ritual: abria pontualmente às 18 horas tocando a música “Imagine” de John Lennon e encerrava, às vezes nem tão pontualmente assim, às duas horas da manhã, tocando ‘Nos bailes da vida” de Milton Nascimento. Outra marca era sua pintura, com um enorme rosto de John Lennon e a letra de “imagine”. Definitivamente um bar temático.

Jurandil Juarez, idealizador do Bar do Lennon: espaço se chamaria “República do Cunani”, mas atentado contra o ex-beatle mudou tudo. Foto: Marco Antônio P. Costa/SN

Depois não foi suficiente. O bar teve que começar a abrir para almoço, pois as pessoas já faziam fila antes das 18 horas, aguardando que ele abrisse. O sucesso era de público, de crítica e de polícia. Isso porque o bar era constantemente “visitado” por policiais, tentando encontrar algo que desabilitasse o estabelecimento.

Dia do Soldado

Em um dia 25 de agosto, Dia do Soldado, provavelmente em 1984. As comemorações dos batalhões do exército estavam ocorrendo justamente na Praça da Bandeira, quando alguém colocou em alto som no bar a canção “Pra não dizer que não falei das flores”, de Geraldo Vandré, que havia se tornado símbolo da luta democrática desde 1968.

Camilo Rodrigues Filho: ópera no volume máximo para expulsar últimos clientes. Doto: Marco Antônio P. Costa/SN

Foi o suficiente para, com muita educação, o proprietário do bar ser gentilmente levado até o 3º Batalhão de Infantaria de Selva (3º Bis). Nada de pior aconteceu, a não ser uma manhã e uma tarde perdidas, mas isso ilustra – um pouco! –, o clima daqueles dias.

A ópera do Malandro

Outro administrador, Camilo Rodrigues Filho, atualmente conhecido professor de exatas em Macapá, mas que na época se aventurou como empreendedor, nos contou uma passagem hilária dos seus tempos de dono de bar.

“Eu gostava muito do Lennon, foi uma época muito marcante da minha vida entre muitas alegrias e decepções. Lembro que quando queria fechar o bar e os clientes não queriam ir embora, eu colocava uma ópera bem alta no som. Mas sempre tinha aquele “filho da mãe” que gritava. “Eu não vou embora, traz mais uma!”, nos contou em gargalhadas, Camilo.

O pacifista ex-beatle John Lennon morreu vítima de um atentado em Nova Iorque, em 1980. Foto: reprodução/internet

A “tragédia do Sarriá”

Já Juarez nos lembrou a “tragédia do Sarriá”, o dia em que o Brasil foi eliminado da Copa do Mundo de 1982.

“Preparei uma festa muito grande para aquele dia, além de sermos os primeiros a servir pizza na cidade, fomos o primeiro bar da cidade a transmitir uma copa do mundo. Tínhamos um timaço e ninguém diria que iríamos perder. Fiz um estoque de cerveja em lata, que não se consumia ainda aqui no Amapá. Resultado: veio Paulo Rossi e colocou água no nosso chopp. Fiquei com uma montanha de cerveja em lata encalhada e um baita prejuízo”, contou Jurandil.

Aqui ninguém se esconde

Na semana de votação da emenda Dante de Oliveira (que estabelecia a eleição direta para presidente da República) um placar foi colocado no bar.

“Estávamos todos esperando esse dia, o frequentador chegava e assinalava com giz a sua opinião se era contra ou a favor da emenda, como não dava para ninguém se esconder ficávamos sabendo todos a opinião de quem estava lá”, lembrou o proprietário que disse que a “bancada” dos boêmios democráticos, à favor da emenda, era muito maior.

Bar passou a funcionar também como restaurante

Não teve samba para Neguinho da Beija-flor

Outro momento marcante foi a tentativa de um grande sambista de se apresentar no palco do bar.

“Estávamos sem espaço para música ao vivo neste dia, ninguém iria se apresentar, não tinha nada marcado e o bar no movimento habitual estava lotado. Chegou a mim a informação de que tinha um conhecido artista que queria dar uma ‘palhinha’. Fui falar com ele e fui taxativo ao dizer que não ia ter música ao vivo naquele dia. Depois soube que o tal artista era nada mais, nada menos, que o Neguinho da Beija-Flor”, finalizou Jurandil.

Música amapaense

Sem sombra de dúvidas, foi o Lennon a principal casa laboratório do que depois viria a se tornar o Movimento Costa Norte de música amapaense e regional. O icônico álbum “Sentinela Nortente”, de Osmar Júnior cantado por Amadeu Cavalcante, por exemplo, teve seus sucessos caindo no gosto popular através das apresentações no bar.

Os artistas contam que foi no Lennon que a música amapaense começou a criar seu público cativo e que foi no bar, também, que o álbum teve sua estreia.

Em 1985, com a saída do idealizador do Lennon, o bar passou por várias administrações. Não pretendemos estabelecer a ordem cronológica exata das administrações, mas “pilotaram” o bar, além do já citado Camilo, Victor Suzuki, Manoel Santos (Pacamum), Carlinhos Murici, Evaldo Juarez, Carlos Roberto, e outros que não conseguimos apurar.

Nilson Chaves, Amadeu Cavalcante e Osmar Júnior: expoentes da música amapaense, fizeram apresentações no Lennon. Foto: Daniel de Andrade

Ao ser perguntado se valeu a pena e quais os tipos de lembranças que tem do Bar do Lennon, o seu idealizador, Jurandil Juarez, respondeu com a epígrafe do livro “Bar Don Juan”, de Antônio Callado:

“Quando o processo histórico se interrompe… quando a necessidade se associa ao horror e a liberdade ao tédio, a hora é boa para se abrir um bar”.

O Bar do Lennon chegou ao seu final nos idos da década de 90, deixando boas memórias para seus frequentadores.

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