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    Especial Calçoene Parte I: O pobre município rico

    Ao completar 64 anos, cidade continua sendo apenas um potencial, com pouco qualidade de vida. Novo prefeito luta contra o relógio
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    Por SELES NAFES, de Calçoene 

    Calçoene, a quase 400 km de Macapá, também tem uma Avenida FAB. Mas, por causa da buraqueira endêmica que domina toda a cidade, ela não parece nem um pouco com a famosa via que divide a capital do Amapá. Infelizmente é fácil de explicar. Um dos mais belos municípios do Estado teve a cidade simplesmente ignorada pelo poder público nas últimas décadas, mas isso pode estar mudando.

    A origem do município tem a ver com o que está em seu subsolo. O nome Calçoene (Calço + N de Norte) quer dizer “Cunha do Norte”, uma alusão ao perfil mineral da região. O lugar pertenceu ao Pará até o dia 22 de dezembro de 1956, quando foi emancipado por lei federal.

    O surgimento de Calçoene está diretamente ligado ao ouro, mas a cidade parece ter sido acometida pela mesma “maldição” que deixa ricos garimpeiros morrerem na pobreza. O ouro é explorado há quase dois séculos na região, só que isso não significou qualidade de vida aos seus 16 mil moradores, segundo estimativa da prefeitura.

    O distrito mais conhecido, o Lourenço, foi sede de uma grande multinacional que drenou o subsolo durante 20 anos e foi embora na década de 1990 deixando para trás centenas de famílias (que hoje são milhares). Com o passar dos anos elas se organizaram numa cooperativa que hoje explora a jazida em meio a dificuldades e polêmicas.

    Hoje o Lourenço virou uma grande comunidade. Foto: Arquivo SN

    Parte da Avenida FAB recebeu asfalto em parceria com o governo do Estado. Fotos: Seles Nafes

    A outra parte ainda aguarda a conclusão da obra

    90% das ruas estão praticamente sem asfalto

    Por causa do clima e do solo, o açaí de Calçoene tem fama de ser o mais saboroso do Amapá. A pesca, o ouro, o Parque Arqueológico do Solstício, a Praia do Goiabal, o Rio Calçoene, história do Cunani e outras riquezas se somam ao dom hospitaleiro do povo, compondo adjetivos essenciais de uma cidade sustentável.

    Contudo, na prática, Calçoene foi deixada na lama, no buraco e na escuridão, em todos os sentidos.

    Luz no fim do túnel?

    Segundo dados da prefeitura, mais de 80% da cidade não tem iluminação pública, e mais de 90% das ruas não têm asfalto de qualidade. Em Calçoene, os motoristas precisam se entender para evitar acidentes já que não existe sinalização em seus 30 km de ruas e avenidas.

    “Aqui o motorista precisa olhar pro outro, aí eles já sabem o que fazer”, brinca um visitante que também se assustou com o trânsito.

    A sede do município, banhada pelo Rio Calçoene sob forte influência do Oceano Atlântico, tem uma orla que poderia ser urbanizada e se tornar um belo cartão postal, só que mal recebe os pescadores que precisam desembarcar pescado. O trabalho é feito de forma improvisada e perigosa.

    Orla poderia ser cartão postal, e não possui infraestrutura portuária

    Parque Arqueológico do Solsticio, a 15 km da sede de Calçoene, encanta visitantes.

    Praia do Goiabal, em Calçoene. Foto: Arquivo

    Calçoene talvez seja o único município do Amapá que não possui bancos. Apenas o Bradesco e o Banco do Brasil mantem caixas eletrônicos, mas só nas máquinas do Bradesco é possível sacar dinheiro. Nos equipamentos do BB é possível realizar apenas operações simples, como consultar saldo e extrato.

    O Banco do Brasil responde a um processo na Justiça movido pelo Ministério Público que quer obrigar o banco oficial a instalar uma agência na cidade que tem mais de 500 servidores municipais, comércio e pesca que fazem o dinheiro circular.

    O BB alega que as seguradoras não garantem a integridade de valores porque Calçoene estaria, supostamente, numa área de risco fronteiriça. Oiapoque, que faz fronteira geográfica com a Guiana Francesa, possui agências dos principais bancos.

    Bradesco mantém posto avançado, mas sem agência. No enanto…

    …é o único onde os caixas possuem dinheiro em Calçoene

    Instabilidade política

    Calçoene viu três prefeitos nos últimos 3,6 anos. Reinaldo foi eleito em 2016, mas com problemas jurídicos foi impedido de assumir.

    O eleitor precisou ir às urnas em nova eleição, em 2017, e o escolhido foi Jones Cavalcante, preso no ano passado, cassado, e que hoje aguarda decisão judicial usando uma tornozeleira eletrônica. Já os prefeitos anteriores, também não souberam transformar em riqueza e qualidade de vida as vocações do município.

    Em 2019, o presidente da Câmara foi convocado pela Justiça Eleitoral para assumir o município, e acabou sendo efetivado no cargo no fim de 2019. Hoje, 10 meses depois, Júlio Sete Ilhas (DEM) deposita as esperanças nos convênios federais, emendas e na boa relação com o governo do Estado e o presidente do Congresso, Davi Alcolumbre (DEM). Pela primeira vez, Calçoene tem empenhados cerca de R$ 25 milhões para obras, e esse valor pode aumentar.

    Igreja de Nossa Senhora da Conceição, padroeira da cidade

    Articulado politicamente e com um discurso desenvolvimentista, o servidor de carreira da justiça Júlio Sete Ilhas chegou a Calçoene em 2003. Já como prefeito, formou uma equipe de secretários com experiência e conhecimento técnico para captar recursos e modernizar a prefeitura.  

    Calçoene acabou de licitar uma empresa para informatizar todo o processo de gestão administrativa e financeira da prefeitura. Com a implantação de um software, todo o sistema de Calçoene ficará integrado ao do Tribunal de Contas do Estado (TCE).

    “Vai dar não apenas transparência, mas agilidade. Vamos ganhar tempo e tornar a máquina pública mais eficiente. Além disso, estamos investindo numa especialização com a EAP (Escola de Administração Pública) em gestão pública”, explicou o secretário de Administração de Calçoene, Rogério Meireles.

    Secretário de Administração, Rogério Meireles: gestão será integrada ao sistema do TCE

    A Parte II desta reportagem especial, que será publicada nesta terça-feira (28), terá uma entrevista com o prefeito Júlio Sete Ilhas, e vai mostrar o esforço contra o relógio para executar a maioria das obras que possui recursos garantidos.

    Asfalto e iluminação pública estão entre as prioridades.

    Seles Nafes
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