Deus é chegado no Amapá

A fila anda um pouco, todo mundo desce do carro e se junta pra reclamar ou fazer uma piada. É um laboratório
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Por MARCO ANTÔNIO P. COSTA*

Fila também é lugar de amizade. Eu reencontrei uns três e fiquei amigo de vários outros nas minhas filas de posto nesse apagão. Ali é lugar neutro, não se tem barreira ideológica, todo mundo vira diplomata e ganha imunidade. Fiquei amigo da lésbica do gol atrás de mim e do ciclano que disse que o Bolsonaro não tinha nada a ver na minha frente.

Tinha também o baixinho da moto, que aproveitou pra fazer propaganda dos seus serviços, que conserta ar condicionado.

Já eram duas da tarde, desde às 10 da manhã a gente tava ali. Trovoou longe e um deles disse que era o ronco do seu estômago. Todos riram, especialmente eu. Nessa hora o tiozismo é dominante. A fila anda um pouco, todo mundo desce do carro e se junta pra reclamar ou fazer uma piada. É um laboratório.

A manga era saliente, loirinha, linda

Avistei uma manga saliente, loirinha, linda. Anunciei o ataque: “vou pegar essa pra mim”. Meu amigo bolsonarista, avisou:

– do jeito que as coisas estão, além de não conseguir pegar, ainda vais perder o chinelo.

Nessa hora senti um frio na espinha. Medos, dúvidas, angústia. Pensei nos irmãos Batista, em não querer lhes dar mais 30 reais comprando outro par de havaianas. Mas, senti mais mesmo, foi é fome. Quem tem fome, Betinho, quem tem fome, tem pressa e com a força dos sociólogos…. pá!

O chinelo ficou preso.

O baixinho falou:

– olha, nem se tu quisesses colocar ali tu ia conseguir. Parece que tu subiu na mangueira e guardou ali em cima. Todos riam. Até eu e os irmãos Batista. O Betinho, não.

Mas, aí, lembrei da superação do brasileiro médio e, já que apenas um lado do chinelo não iria servir para nada, por que não tentar de novo?

E assim, de primeira, acertei a loirinha, que caiu em minhas mãos suave e certeiramente. Comecei a devorá-la. Olhei na cara do meu bolsominion com ares de “e disseram que eu estava na pior…”. O baile seguia e faltava a banda da sandália.

Baixinho, fazendo serviço no ar condicionado depois da amizade na fila. Contato: 99155-5708

Aí, saiu de dentro de uma casa um gordinho – chega reluzia de bonito – com uma cara danada de que queria ajudar. Os gordinhos tem má fama, mas são gente boa e este provou isso mais uma vez.

– mano, tem uma vara por aí, é que minha sandália pipipí popopó.

– peraí, que vou ver se o limpador de piscina serve.

E lá vem ele com o limpador, que ia converter-se em minha vara. Faltava muito ainda, mas olhei pra cá, pra lá, achei outro pau e emendei. Tinha uma vara sensacional. Jocosa. Meio metálica, meio amadeirada. Mas, ainda curta para os desafios daquela mangueira.

Nessas alturas, a rua inteira me observava. Vizinhos, transeuntes, curiosos. Especialmente os da fila, éramos um só time. Daí tomei a decisão capital. Peguei cobertura da lésbica atrás e do meu minion na frente e estacionei o carro no meio da rua. Subi no teto. Cutuquei a sandália e ela se escondeu. Cavuquei de um lado, e ela correu de outro. Pensei em desistir. Mas ouvi sons.

– tanã nã nã nã, ta nã nã nã….

Era a música das olimpíadas. Eu, que perdia o equilíbrio e tinha os braços cansados, não poderia parar.  Naquela hora eu era o Brasil. O duplo twist carpado da Daiane dos Santos. A banana do Guga em Roland Garros. As pernas tortas de Garrincha. O traveco do fenômeno. O “é tetra” do Galvão. O gol que não saiu em 2006. A Tragédia do Sarriá. O gol do Miranda do Zerão, do hemisfério norte ao hemisfério sul – “um gol de anjo, um verdadeiro gol de placa”.

Era o gol do Miranda do Zerão, do hemisfério norte ao hemisfério sul, “um gol de anjo, um verdadeiro gol de placa”

Inspirado, fiz que ia de canto e voltei pela esquerda com volúpia impressionante, coisa fina, toquei-lhe a alça esquerda que, desta vez, não pode resistir e veio abaixo.

Uma ofegante epidemia. Coronga acabou naquela hora e as pessoas se abraçavam. Foi o Brasil feliz de novo. Corri ouvindo “we are the champions”. Era o melhor momento em muitos dias. Obrigado por tudo, pessoal.

Aí, a fila andou mais um pouco e voltamos para a realidade porque tínhamos acabado de ouvir que o martírio iria durar só mais 15 dias. Além de brasileiro, Deus é chegado no Amapá, refleti.

*sociólogo, jornalista amante de mangas e fã do Miranda.

Seles Nafes
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