Cachorro, clínica, repasses pessoais e patrimônio: como deputado usava rachadinhas, segundo a PF

Relatório final da PF cita aquisição de propriedade/balneário e pede indiciamento do deputado e revela com riqueza gastos de dinheiro que teria sido desviado do salário de assessores fantasmas
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Por SELES NAFES

O indiciamento do deputado estadual Alberto Negrão (PP), pela Polícia Federal no Amapá, revelou o tamanho do esquema que teria sido criado por ele com a ajuda de parentes para desviar dinheiro da Assembleia Legislativa do Amapá (Alap) por meio de rachadinhas. O relatório final da PF, assinado pelo delegado José Roberto Pires Araújo, detalha com riqueza o funcionamento do esquema, valores, atribuições de cada membro do grupo e menciona até a aquisição de bens como um imóvel. As despesas com o cachorro da família eram maiores do que com uma funcionária com câncer em estágio avançado.

No último dia 25 de janeiro, o deputado, a esposa, o cunhado e outras pessoas foram indiciados por peculato, lavagem de capitais, organização criminosa e corrupção eleitoral. O inquérito foi enviado ao Ministério Público Federal, que pode ou não oferecer denúncia à justiça.

As informações que subsidiaram o relatório final das investigações são de provas colhidas em nada menos que três operações contra o deputado. A primeira delas ocorreu dois dias antes do 1º turno das eleições de 2020, quando o Ministério Público e a Polícia Militar foram acionados após denúncia de crimes eleitorais numa casa no Bairro Jardim Equatorial, na zona sul de Macapá.

No local, além de cestas básicas, dinheiro e material de campanha do candidato a vereador Hélio Reis (cunhado de Negrão), os policiais recolheram muitas planilhas. A PF afirma que dezenas de assessores eram obrigados a devolver pelo menos metade dos vencimentos a pessoas de confiança do deputado, que na verdade seria o beneficiário principal.

As planilhas apreendidas, de acordo com a Polícia Federal, contem os nomes desses assessores e valores que eram devolvidos a Negrão. As provas ensejaram uma segunda operação contra o deputado em maio de 2021, batizada de ‘Terça Parte’.

Em novembro, novas provas e indícios levaram a PF a deflagrar outra operação contra Negrão, a ‘En Passan’. O objetivo era investigar gastos de R$ 1 milhão da verba parlamentar de Negrão e o uso de notas fiscais frias para conseguir reembolsos.

Despesas com o cachorro e repasses em dinheiro são recorres nas planilhas

Há registros de repasses em dinheiro a Negrão

Rachadinhas, ração e câncer

O relatório final com pedido de indiciamento cita muitas curiosidades sobre sobre as rachadinhas e como o dinheiro era gasto por Negrão. Num dos trechos do relatório da PF, há menção ao caso de uma assessora fantasma que na verdade era funcionária da clínica de Alberto Negrão, que é médico.

Em conversas no WhatSapp, ela relata estar com câncer em estágio avançado e pede ajuda. A esposa de Negrão, Mirlene Maciel, comunica que a partir daquele momento ela passaria a receber uma ajuda mensal de R$ 400 para o tratamento, valor muito menor do que era gasto com clínica veterinária e ração do cachorro da família, chamado Thor. 

Alberto Negrão foi alvo de 3 operações da PF e MP

Os recebimentos e gastos eram meticulosamente anotados por uma assessora, e há registros de despesas muito diversas. As anotações mencionam valores com combustíveis, ração, veterinário, reforma de casa, seguro de veículos, caranguejo, cerveja, caipirinha, compra de computador para a ‘clínica do Dr’, impressora (de R$ 10 mil), confraternizações, taxas com documentos de veículos privados, e a aquisição de um terreno na comunidade do Ariri. A propriedade está no nome de Mirlene, e teria sido adquirida por R$ 80 mil.

Contrato de compra e venda de propriedade no Ariri

Repasses ao ‘Dr’ 

Também há muitos repasses em dinheiro ao deputado, em valores de R$ 1mil, R$ 2 mil, R$ 10 mil, R$ 12 mil e R$ 15 mil. Também há registro de um repasse a um ‘amigo’ no valor de R$ 25 mil. Consta ainda o pagamento para um ‘amigo loja’ no valor de R$ 20 mil.

Ao Portal SelesNafes.Com, a assessoria de comunicação informou que o jurídico do parlamentar só irá se pronunciar depois que tiver acessos aos autos. 

Atualmente, Alberto Negrão está protegido pelos colegas na Assembleia e continua exercendo seu mandato, apesar de decisões judiciais mandando afastá-lo do cargo.

Em dezembro, o desembargador Jayme Ferreira, do Tribunal de Justiça, anulou a própria decisão que afastava Negrão do mandato, depois que a Assembleia sinalizou que julgará o parlamentar em plenário.

Essa será a segunda vez. Na primeira, em maio, os deputados decidiram ignorar uma ordem da justiça eleitoral para que ele fosse afastado e o mantiveram no mandato. Nesta época, o parlamentar foi colocado sob monitoramento eletrônico.

Com o fim do recesso parlamentar, a expectativa é de que a situação dele volte a ser discutida.

Seles Nafes
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