“Temos 4 professores e nenhum laboratório”, diz coordenadora de jornalismo da Unifap

Roberta Sheibe, coordenadora em exercício do Colegiado de Jornalismo na Universidade Federal leu uma carta aberta à sociedade na Câmara dos Vereadores
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Por IAGO FONSECA

Formando profissionais da comunicação amapaense desde 2011, o colegiado de jornalismo da Universidade Federal do Amapá tem enfrentado dificuldades e falta de professores. Uma carta aberta à sociedade amapaense foi lida, na manhã desta terça-feira (7), pela professora Roberta Sheibe, coordenadora do curso, na Câmara de Vereadores de Macapá.

Diante do indicativo de greve de professores da Unifap, ela discursou na tribuna aos vereadores e ouvintes sobre a oportunidade de reunir o movimento organizado de professores, técnicos e estudantes para dialogar com a sociedade amapaense e apresentar à reitoria e ao governo federal a situação enfrentada.

“Grande parte dos profissionais atuantes em rádios, jornais, sites, televisões e assessorias de comunicação locais e nacionais foram ou são nosso alunos. No entanto, historicamente, sempre tivemos problemas estruturais no curso. Muito do que conseguimos devemos ao professor e padre Aldenor Benjamin [in memorian], que tirava dinheiro do bolso para investir no curso”, argumentou Roberta antes da leitura da carta.

Segundo ela, o curso conta somente com quatro professores efetivos ativos na instituição de ensino superior, o que é abaixo do indicado para a formação de um Núcleo Docente Estruturante. Além disso, faltam salas de aulas, laboratórios e estruturas para realização de atividades práticas. A manifestação na câmara contou, ainda, com a presença dos professores Ivan Carlo, Rafael Wagner e Elisângela Andrade.

Pronunciamento ocorreu na Câmaara de Vereadores de Macapá. Fotos: Wallace Fonseca

“Nossos professores sempre foram muito bem avaliados pelo Ministério da Educação (MEC). Nesse momento atual também temos dificuldades com falta de professores. Nossa luta agora e sempre é por mais professores e mais estruturas no curso”, continuou.

O discurso acompanha o movimento de professores, técnicos e alunos da universidade diante da possível greve dos docentes e uma avaliação do curso pelo MEC.

Por enquanto, Sheibe descarta risco de fechamento do curso com prejuízo para os alunos que estão graduando, mesmo com apenas 4 professores no colegiado.

Por enquanto, Sheibe descarta risco de fechamento do curso com prejuízo para os alunos que estão graduando. Foto: Reprodução

“Se o MEC achar que não temos as mínimas condições de funcionamento, eles podem pedir que o curso feche para abertura de novas turmas, mas isso não impacta nos alunos já matriculados. Num pior cenário, se isso acontecesse, teríamos que formar as turmas já existentes”, explicou Roberta ao Portal SN.

Estudante do 5º semestre de jornalismo e atuante de movimentos sociais, Paulo Rafael, de 22 anos, afirma que a gestão da universidade não toma a frente das reivindicações dos professores e alunos, o que prejudica o desempenho acadêmico.

“Eles (reitoria) falam: ‘a gente não tem o que fazer’. Pedimos incentivo salarial para os professores do Norte e estruturas adequadas. A minha turma está no quinto semestre, a gente nunca entrou no laboratório. Eu nunca peguei numa câmera da universidade, a gente não tem acesso a programas de edição, não tem acesso a laboratórios. Nosso curso está extremamente defasado, com professores sobrecarregados, e a rádio universitária, que era pra ser o nosso laboratório, a gente não consegue utilizar”, reclamou o estudante.

Professores Ivan Carlo, Elisângela Andrade, Roberta Sheibe e Rafael Wagner

Uma assembleia está marcada para a tarde desta terça-feira (7) às 16h, no Centro de Vivência Marinalva Oliveira, no Campus Marco Zero, para a comunidade acadêmica discutir os problemas da Unifap e sobre o indicativo de greve geral da instituição. Veja a íntegra da carta aberta:

No momento em que trabalhadores da educação estão deflagrando greve por todo o país, o colegiado de Jornalismo da Universidade Federal do Amapá (Unifap) vem, por meio deste documento, discutir a importância da universidade pública e do Jornalismo em nossa sociedade, apresentando também o cenário crítico pelo qual a única escola, que forma jornalistas de forma presencial em nosso estado, atravessa

O colegiado de Jornalismo da Unifap conta hoje com apenas 04 professores efetivos na ativa. Esse número é insuficiente até mesmo para a montagem do Núcleo Docente Estruturante (NDE) do curso, pilar fundamental para o funcionamento adequado da escola, que precisa de, no mínimo, 05 professores efetivos para funcionar. Um número de professores tão reduzido no curso também sobrecarrega as tarefas de ensino dos docentes, o que impede a universidade de exercer, com qualidade, seu tripé estruturante. A pesquisa e extensão ficam fortemente prejudicadas.

A ausência de estrutura laboratorial adequada é outro ponto crítico que o curso (e o departamento onde está lotado) enfrenta. Atualmente, apenas uma estrutura mínima de laboratório está sendo montada. Faltam computadores, laboratório de fotografia, estúdio de tv e rádio, laboratório para edição de vídeo e datashow em quantidade suficiente. Algumas salas não contam nem mesmo com mesas e cadeiras para os professores.

A universidade pública, apesar dos graves problemas estruturais que enfrenta, ainda é a principal forma de ascensão social da classe trabalhadora no Brasil. É através dela que os filhos da população mais pobre de nosso país conseguem conquistar uma profissão e um futuro com o mínimo de dignidade. A defesa desse espaço é, antes de tudo, um compromisso com a luta por uma sociedade brasileira capaz de reduzir sua abissal diferença entre ricos e pobres. Além disso, sem educação e incentivo à ciência, o desenvolvimento econômico do país fica comprometido.

O Jornalismo, por sua vez, é uma ferramenta fundamental para a existência de qualquer democracia. Não existe democracia sem Jornalismo. Assim como não existe Jornalismo sem democracia. O bom jornalismo é um olho vigilante contra abusos de poder e violações de direitos humanos. Uma sociedade capaz de formar bons jornalistas alcança um patamar civilizatório que nos protege do autoritarismo e garante atenção coletiva às contradições sociais que precisam ser superadas. O desmonte do curso de Jornalismo da Unifap é, antes de tudo, uma perda inestimável para a sociedade amapaense.

Nesse sentido, entendemos que a greve na Unifap é um momento oportuno para que o movimento organizado de professores, técnicos e estudantes possa dialogar com a sociedade amapaense e apresentar à reitoria e ao governo federal a situação crítica que enfrentamos, com suas devidas e justas reivindicações. A luta em defesa da educação pública e do Jornalismo representa um compromisso ético com a sociedade brasileira e com o Amapá”.

Colegiado do curso de Jornalismo da Unifap

Seles Nafes
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