Por RODRIGO ÍNDIO
No coração da floresta, onde o estrondo constante dos motores a diesel costuma rivalizar com o farfalhar da mata fechada, uma jovem pesquisadora amapaense decidiu propor um novo ritmo para o cotidiano extrativista. Entre igarapés e castanhais seculares, a busca pela sobrevivência na selva sempre esteve atrelada à dependência de combustíveis fósseis — caros, poluentes, barulhentos e de difícil transporte. Essa dinâmica, no entanto, começou a mudar pelas mãos de Manuelle da Costa Pereira, 22 anos, estudante de Engenharia Florestal do Instituto Federal do Amapá (Ifap) – Campus Laranjal do Jari.
Vencedora do 31º Prêmio Jovem Cientista na categoria Ensino Superior — disputada por 211 trabalhos de todo o país —, Manuelle tornou-se a primeira estudante do Amapá a alcançar o topo dessa premiação promovida pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). O projeto, batizado de Kit Solar Castanheiro, foi apresentado internacionalmente na COP 30, em Belém (PA), e consolida a capacidade da ciência feita no interior da Amazônia de responder aos desafios globais da transição energética.

Jovem desenvolve mochila solar para ampliar o acesso à energia em comunidades amazônicas. Foto: Ifap/divulgação
A Ciência da Escuta e o Design Circunscrito à Mata
A gênese da tecnologia não se deu entre quatro paredes estéreis, mas no acompanhamento direto da rotina das famílias na Reserva de Desenvolvimento Sustentável São Francisco do Iratapuru. Em 2022, impulsionada por uma bolsa de Iniciação Tecnológica do CNPq, Manuelle começou a investigar os gargalos operacionais enfrentados pelos coletores de castanha, que passam semanas ou até meses isolados em acampamentos na floresta densa.
A necessidade principal era clara: energia acessível para iluminação noturna, carregamento de aparelhos de comunicação (rádios e celulares) e pequenos utensílios essenciais para a segurança e subsistência. A resposta técnica, contudo, exigiu rigor e sucessivas etapas de prototipagem e engenharia de materiais.
“Esse projeto surgiu a partir da observação e da escuta direta das comunidades extrativistas, que vivem em áreas remotas onde a energia convencional não chega. O kit foi desenhado para cobrir as necessidades básicas durante a safra”, explica a pesquisadora.

Protótipo apresentava dimensões avantajadas em cerca de mil litros de volume estrutural
Inicialmente, o protótipo apresentava dimensões avantajadas, totalizando cerca de mil litros em volume estrutural. Através da otimização geométrica e do redesenho de componentes, a equipe reduziu o equipamento para apenas 50 litros — formato e peso perfeitamente adaptados para ser transportado como mochila em caminhadas por trilhas fechadas.
A solução incorporou também os preceitos da economia circular: a estrutura protetora e impermeável do microssistema fotovoltaico é construída a partir do reaproveitamento de bombonas plásticas descartadas na própria região do Vale do Jari. Essa estratégia reduziu o custo final de fabricação para cerca de R$ 2,8 mil, viabilizando a replicabilidade da tecnologia em larga escala para populações tradicionais.

Estudante compactou para 50 litros
“O modelo de utilidade foi testado e aprovado em campo pelos próprios castanheiros. A bateria com autonomia própria garante o suporte necessário para todo o período de coleta na mata”, reforça Manuelle.

Iniciativa une ciência, inovação e energia solar para criar soluções voltadas à realidade amazônica. Foto: Ifap/divulgação
Propriedade Intelectual e Fortalecimento do Sistema de CT&I Amapaense
Em 2023, o projeto deu um salto decisivo ao tramitar da pesquisa acadêmica aplicada para a proteção intelectual. Sob a orientação do professor Dr. Diego Armando Silva (Ifap), o equipamento foi registrado como Modelo de Utilidade no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI).
A consolidação desse ativo tecnológico reflete o fortalecimento do ecossistema de Ciência, Tecnologia e Inovação do Amapá. O processo contou com a articulação do Núcleo de Inovação Tecnológica (NIT) do Ifap e com suporte de fomento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amapá (Fapeap) e da Secretaria de Estado da Ciência e Tecnologia (Setec), inclusive por meio de programas estratégicos como o Doutor Empreendedor.
“É um projeto de inovação com marca registrada que nasce intrinsecamente da vida dos castanheiros e da sinergia entre o Instituto Federal e as comunidades do Vale do Jari”, destaca o orientador Diego Armando Silva.

Com a jornalista Zileide Silva e outros estudantes
Ao unir a sabedoria ancestral do extrativismo aos conceitos de física fotovoltaica e bioeconomia, o Kit Solar Castanheiro alinha-se diretamente aos princípios da Amazônia 4.0 e aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU) — em especial o ODS 7 (Energia Limpa e Acessível) e o ODS 12 (Consumo e Produção Responsáveis).
Impacto Social, Transição Energética e Orgulho Regional
Para além dos indicadores de eficiência energética e redução de emissões de carbono, a tecnologia transforma a saúde física e mental dos trabalhadores do campo. Ao substituir a queima contínua de diesel, elimina-se a fuligem tóxica nas áreas de descanso e o ruído ensurdecedor que mascara os sons de alerta da floresta tropical.
Para Manuelle — filha de um pedreiro autônomo e de uma professora da rede pública de ensino —, a conquista simboliza também a quebra de barreiras sociais e a afirmação do potencial acadêmico do Amapá.
“Esse prêmio é um feito inédito. É a primeira vez que uma estudante do Amapá ganha um prêmio dessa magnitude no CNPq. Isso mostra que a ciência produzida na Amazônia tem força, rigor, valor e precisa ser vista”, comemora a estudante, lembrando o papel decisivo da família: “Eles nunca mediram esforços para investir nos meus estudos, e tudo o que estou vivendo hoje é fruto dessa base”.

Projeto de tecnologia sustentável leva estudante para a disputa do Prêmio Jovem Cientista 2025. Foto: Ifap/divulgação
Com a visibilidade conquistada na COP 30 e o reconhecimento nacional, os próximos passos envolvem o aprimoramento da eficiência das células solares e a expansão do design para outras cadeias produtivas da sociobiodiversidade amazônica, como o açaí e o manejo do pirarucu. O Kit Solar Castanheiro prova que a inovação gerada no Amapá traz soluções concretas para manter a floresta em pé, garantindo dignidade, energia limpa e desenvolvimento social sustentável para as populações tradicionais.

