Por RODRIGO ÍNDIO, de Macapá (AP)
O cenário nas paradas de ônibus de Macapá nesta quarta-feira (15) foi de desespero e improviso. Após o fracasso nas negociações entre o sindicato, a prefeitura e a empresa Nova Macapá, em audiência no Ministério Público, os rodoviários deflagraram greve por tempo indeterminado. Com a frota reduzidíssima, passageiros se arriscam para não perder o dia de aula ou trabalho. “Eu tive que vir no capô”. O relato é da estudante Aline Gabrielly, de 17 anos, aluna da Escola Estadual Professor Gabriel de Almeida Café. Ela descreveu uma cena que ilustra o colapso do sistema. Moradora da zona norte, ela acorda às 5h da manhã, mas o planejamento de nada serviu diante da paralisação.
“Os ônibus vêm muito cheios. Eu tive que vir no capô do ônibus, bem próximo ao motorista”, relatou Aline.
A jovem explica que linhas essenciais, como Pedrinhas/Novo Horizonte e São Camilo, simplesmente não passaram, forçando estudantes a fazerem integrações improvisadas e perigosas.
“É triste, porque a gente sai prejudicado de qualquer jeito: ou chega atrasado ou nem consegue vir para a escola”, lamenta.
João Hugo, de 16 anos, vive situação semelhante. Ele aguardou mais de uma hora na parada pelo ônibus da linha Ipê.

Abrigos de ônibus lotados…. Fotos: Rodrigo Índio/Portal SN
“Muita gente ficou para trás porque os ônibus já passavam lotados. Parece que não tem jeito, a conversa não resolve”, desabafou o estudante.
O impasse: salários atrasados vs. dívidas milionárias
A crise na Nova Macapá — maior empresa do setor no estado, com 80 veículos e 250 funcionários — ganhou contornos dramáticos. Segundo apuração do Portal SelesNafes.Com, o prefeito interino Pedro Dalua (União) havia quitado dívidas deste ano deixadas pela gestão Furlan, repassando subsídios de R$ 600 mil mensais, além de pagamentos da bilhetagem e Expofeira passada.

Poucos ônibus foram mantidos em circulação

Hugo: uma hora à espera de ônibus
Mesmo assim, a empresa voltou a atrasar os salários. A Nova Macapá alega nos bastidores que ainda possui R$ 15 milhões a receber da gestão Furlan por serviços prestados em eventos como o Círio, Réveillon de 2025 e outros acordos.
Em frente à sede da empresa, o clima é de resistência. Trabalhadores organizaram um churrasco como forma de protesto. Max Délis, diretor do Sincotrap, foi enfático ao justificar a paralisação e criticar a pressão institucional sobre o movimento grevista.
“A empresa parou três vezes sem comunicar ninguém e não foi repreendida. Agora, quando o trabalhador se organiza, aparece todo mundo para dizer que a greve é ilegal. Radical é trabalhar todo dia e não receber”, afirmou Délis.

Aline: “ou chega atrasado ou nem vem”
O sindicalista pediu desculpas à população, mas reiterou que a frota continuará reduzida até que os pagamentos sejam efetuados. Até o fechamento desta matéria, a empresa Nova Macapá não havia se posicionado oficialmente sobre o cronograma de pagamentos.
