Por RODRIGO ÍNDIO, de Macapá (AP)
Sob o caixão, a faixa azul de jiu-jítsu simbolizava não apenas um esporte, mas a disciplina de um jovem que via na modalidade o caminho para um futuro melhor. Em meio a lágrimas, dor e uma profunda indignação, o corpo de Kerrison Cordeiro Ramos, de 18 anos, foi sepultado nesta sexta-feira (24), no Cemitério São Francisco de Assis, na zona norte de Macapá. O jovem, que sonhava em ser policial militar para “combater o crime e mostrar que um menino de periferia poderia vencer”, teve a trajetória interrompida de forma brutal. A despedida foi marcada por relatos de quem conviveu com o atleta. Para a família, a esperança de encontrá-lo com vida após o desaparecimento na última segunda-feira (20) deu lugar ao luto precoce.
“Infelizmente, encontramos ele dessa forma que ele não merecia. Quanta crueldade, tantos golpes e perfurações sem merecer. Que a justiça de Deus seja feita e que Ele conforte cada coração aqui”, desabafou a irmã, Deuzirene Sarges, durante o cortejo.

Uma das irmãs de Kerrison inconsolável sobre o caixão, que recebeu a faixa azul do jiu-jitsu. Fotos: Rodrigo Índio/Portal SN

Irmã de Kerrison: “não merecia”. Fotos: Rodrigo Índio/Portal SN
Bruno Souza, pai da namorada de Kerrison e colega de trabalho da vítima, lembrou do comportamento exemplar do jovem.
“Uma pessoa boa. Não fumava, não bebia, não tinha reclamação de nada. Só tenho coisas boas para lembrar. Ele trabalhava comigo, estava sempre comigo. Hoje, o encontro desse jeito, no caixão”, lamentou.
Kerrison foi integrante do projeto social Carlos Galeto Team desde 2017. No projeto, ele não era apenas um aluno, mas um exemplo para os mais novos. Ellen Cristina, esposa do coordenador do projeto, relembrou o crescimento do jovem.
“Acompanhamos ele desde pequenininho. Ele saiu do projeto como faixa azul. Ninguém sabe o motivo da morte, mas a justiça será feita. Nossa família do projeto está sentindo muito. Era um menino bom, trabalhador e estudante”, afirmou Ellen.

Ellen Cristina, do projeto social onde o jovem participava desde a infância: “acompanhamos ele desde pequeninho”
A namorada do atleta, Érica Luana, com quem ele manteve um relacionamento por três anos, emocionou os presentes ao falar sobre o sonho interrompido da carreira policial.
“O sonho dele era ser policial. Ele queria que a gente o visse de farda, mas infelizmente não vamos poder. Ele era um menino bondoso, atleta de todo tipo de luta, gostava de capoeira… agora nosso menino está em um bom lugar, descansando.”
Relembre o caso
O mistério sobre o paradeiro de Kerrison terminou na manhã de quinta-feira (23), quando seu corpo foi encontrado boiando em um igarapé no Ramal do Polo, no bairro Fazendinha, zona sul da capital.
Segundo o 1º Batalhão da Polícia Militar, o cadáver apresentava múltiplas perfurações de arma branca. No local, vestígios de sangue e vegetação amassada indicam que o jovem pode ter sido vítima de uma emboscada antes de ser jogado na água.

Parentes e amigos…

…foram prestar as últimas homenagens

Kerrison estava desaparecido desde a noite de segunda-feira (20)
Kerrison desapareceu na noite de segunda-feira (20), após sair da casa da namorada no bairro Cidade Nova. Ele faria um trajeto curto até sua residência, mas nunca chegou. A última atividade registrada em seu celular foi às 22h56 daquela noite.
O caso agora é tratado como homicídio e está sob investigação da Delegacia de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP). Até o momento, nenhum suspeito foi preso. A polícia solicita que qualquer informação que ajude a identificar os autores do crime seja repassada anonimamente pelo Disque-denúncia da DHPP: (96) 99170-4302.

