Por RODRIGO ÍNDIO, de Santana (AP)
A rampa do açaí, no Porto de Santana, a 17 km da capital do Amapá, é um formigueiro humano. Entre o vaivém de cestos, o cheiro do fruto fresco e o barulho dos motores, está Édson Barriga dos Santos, de 60 anos, um homem de sorriso fácil e olhar que guarda a calmaria de quem já enfrentou muitas tempestades. No porto, todos o chamam de “Confusão”. O apelido é uma brincadeira irônica por sua personalidade: “É pela tranquilidade e simpatia, coisa de apelido de beirada”, confessa ele entre um passageiro e outro.
Seu Édson não é apenas um barqueiro. Ele é um microempreendedor individual da vida real, um dos dezenas de catraieiros que formam a espinha dorsal do transporte fluvial no Amapá. A bordo da “Sereia 1”, sua embarcação de segunda mão conquistada com “muito sacrifício”, ele opera o que chama carinhosamente de seu “ônibus fluvial”, conectando a área comercial à Ilha de Santana.

Diversas catraias fazem a travessia entre a sede de Santana e a Ilha de Santana: Ex-garimpeiro, ex-serrador e pai…

Primeira travessia é a 7h. Fotos: Rodrigo Índio/Portal SN

São cerca de 20 travessias por dia
Nascido na Ilha de Santana, ele já foi de tudo um pouco: cortou tábuas em serrarias e enfrentou a dureza do Garimpo do Capivara, em Porto Grande. No entanto, há três décadas, a vida lhe impôs um novo plano de negócios: a paternidade.
Com a chegada dos oito filhos, a distância do garimpo tornou-se um custo alto demais. O empreendedorismo surgiu, então, não por opção de luxo, mas por necessidade de presença.
“Eu precisei ser mais presente, buscar uma profissão que me deixasse perto de casa”, relembra.
Foi no balanço das águas do Rio Amazonas que ele encontrou a estabilidade. Investiu suas economias em um “catraio” usado e, desde então, tornou-se o capitão do seu próprio destino.

Chegada…

…e o desembarque
O modelo de negócio de Seu Édson é simples, mas vital. Hoje, a passagem custa R$ 3,00 por “cabeça, mas lá no início era menos de R$ 1. Diariamente, ele realiza mais de 20 travessias. Seus clientes variam: trabalhadores, estudantes e turistas que buscam a Trilha das Samaúmas. No cálculo diário, entre duas, três ou quatro pessoas por viagem, ele extrai o sustento que muitos gabinetes de luxo não conseguem gerir com tamanha eficiência.
Horário e saúde
Se antes a jornada era exaustiva — das 5h às 21h — hoje, a experiência lhe permite uma gestão de tempo mais equilibrada.
“Agora pego às 7h, paro meio-dia. Às vezes volto às 14h e vou até as 17h. É o movimento e a saúde que determinam o horário”, explica. Esta é a flexibilidade do empreendedorismo autônomo aplicada à realidade ribeirinha.
Quando questionado sobre o que o empreendedorismo lhe trouxe, Édson não fala em lucros extraordinários, mas em conquistas sólidas.
“Desse trabalho aqui, eu criei meus oito filhos. Comprei minha casinha, mobiliei tudo, comprei televisão, geladeira… conquistei devagar”, diz orgulhoso.
Para ele, a “Sereia 1” — nome escolhido por ser o símbolo de quem vive e trabalha nas águas — não é apenas um pedaço de madeira com motor. É o escritório, a ferramenta de trabalho e o símbolo de sua independência.
“A gente tem que ter amor pelo que faz, senão as coisas não funcionam. Isso aqui representa a minha vida”, afirma com a convicção de quem sabe que o sucesso é um processo diário.

A gente tem que ter amor pelo que faz. Fotos: Rodrigo Índio/Portal SN
O papel social do catraieiro
O trabalho de Seu Confusão vai além do transporte. Ele e seus colegas catraieiros são agentes de integração regional. Em um estado onde os rios são as ruas, esses “ônibus ou táxis aquáticos” garantem o fluxo da produção de açaí e o direito de ir e vir de comunidades que o transporte de grande porte não alcança.
Ao final da entrevista, Seu Édson deixa um convite que soa como um cartão de visitas de um grande executivo da beirada.
“Quem quiser conhecer meu trabalho, é só descer na rampa do açaí aqui no Porto de Santana e me procurar, meu número é o (96) 98415-6870”, diz o simpático trabalhador ao aproveitar a oportunidade para vender seu “peixe”.
A história de Édson Barriga dos Santos é a prova de que o empreendedorismo no Brasil profundo não se faz apenas com tecnologia e grandes aportes, mas com suor, amor ao ofício e a coragem de pilotar, todos os dias, em direção ao futuro da própria família.

