Por RODRIGO ÍNDIO, de Oiapoque (AP)
Uma mala cheia de saudades, milhares de quilômetros percorridos e um abraço aguardado por anos. Para dona Marisa de Paula, moradora de Nova Iguaçu (RJ), visitar a filha e o neto na Guiana Francesa sempre esbarrou na burocracia e na exigência de visto para brasileiros. Nesta sexta-feira (31), porém, esse obstáculo ficou para trás. Com o fim da exigência do visto de entrada para brasileiros no território ultramarino francês, dona Marisa atravessou pela primeira vez a Ponte Binacional, em Oiapoque, levando apenas o passaporte. O reencontro com a filha, a bióloga Flávia Divino, e com o neto, tornou-se realidade após seis anos de espera.
Flávia mudou-se para a Guiana Francesa em 2019 para cursar doutorado. Atualmente, coordena a associação DAC Guiana, onde construiu a carreira, formou família e estabeleceu residência. Desde então, aguardava o dia em que a mãe pudesse conhecer sua casa sem enfrentar a burocracia do visto.

Do Rio de Janeiro,Marisa atravessou de Oiapoque para a Guiana pela Ponte Binacional. Fotos: Rodrigo Índio/Portal SN
“É a primeira vez que ela está conseguindo vir conhecer a minha casa, o meu filho e o meu esposo. É muito especial viver esse momento em que minha mãe pode entrar apenas com o passaporte. Representa a união da minha família, sem dificuldades e sem precisar nos encontrarmos no Rio de Janeiro. É muito bom poder recebê-la no lugar onde eu trabalho, vivo e moro”, contou Flávia, emocionada.
A emoção também tomou conta de dona Marisa. A visita ganhou um significado ainda maior por acontecer poucos dias depois do aniversário da filha, comemorado em 20 de julho, e do neto, celebrado no dia 22.
“O coração fica acelerado, doido para abraçar. Pela primeira vez vou visitar meu netinho na casa dele. Ele já foi ao Brasil com passaporte e eu nunca tinha conseguido vir. Ela é minha filha única; agora, quando precisar de mim, posso vir. Isso facilita a vida de toda a família”, comemorou.

Sem visto, Marisa reencontrou Flávia

Randolfe: “maior conquista desde 1900”
A história de dona Marisa simboliza a realidade de centenas de famílias separadas pela burocracia da fronteira entre o Amapá e a Guiana Francesa. Com a extinção do visto, a expectativa é de que a circulação entre os dois lados se torne mais simples, fortalecendo os laços familiares, culturais e econômicos.
Durante a cerimônia que marcou a medida, o senador Randolfe Rodrigues (PT) destacou o alcance histórico da decisão.
“É a maior conquista da história dessa fronteira para os brasileiros desde que ela foi formada, em 1º de dezembro de 1900. A partir de hoje, qualquer brasileiro pode atravessar para o outro lado sem a necessidade de visto. Famílias que vivem dos dois lados da fronteira poderão se reencontrar.”
A liberação é resultado de negociações retomadas em 2023 pelo Governo do Amapá, com a criação da Secretaria de Relações Internacionais, em articulação com a bancada federal amapaense, o Itamaraty e o governo da República Francesa.
Na véspera da entrada em vigor da medida, o governador Clécio Luís (União) realizou uma travessia simbólica da Ponte Binacional ao lado de representantes do governo francês, marcando a retomada da cooperação entre os dois territórios.
Agora, a próxima pauta do governo amapaense é negociar a redução do valor do seguro obrigatório exigido para veículos brasileiros que ingressam na Guiana Francesa. A proposta é estabelecer uma cobrança proporcional ao período de permanência, facilitando ainda mais a integração na região de fronteira.

