Por RODRIGO ÍNDIO, de Macapá (AP)
O distrito do Ariri, na zona rural de Macapá, continua no centro das investigações sobre crimes contra a fauna amazônica. Após a repercussão da morte de botos-cor-de-rosa no Rio Matapi, o Ministério Público do Amapá reuniu forças com órgãos estaduais de segurança para dar celeridade ao inquérito policial e tentar identificar os responsáveis pelos crimes ambientais.
Na última segunda-feira (13), o promotor de Justiça do Meio Ambiente, Marcelo Moreira, convocou uma reunião na Promotoria com representantes da Delegacia Especializada em Meio Ambiente (Dema), do Batalhão Ambiental da Polícia Militar e da Polícia Científica do Estado do Amapá (PCA). O encontro definiu estratégias integradas para fortalecer as investigações e evitar que o caso seja arquivado sem a identificação dos autores.
Em agosto de 2025, o Portal SelesNafes.com revelou que quatro botos — entre eles um filhote — foram encontrados mortos em um intervalo de apenas 20 dias no Rio Matapi. Os animais apresentavam perfurações e cortes compatíveis com redes utilizadas na pesca predatória, especialmente para a captura de pirarucu.
A principal linha de investigação aponta que os botos ficam presos acidentalmente nas malhas das redes e acabam sendo mortos pelos próprios pescadores para liberar os equipamentos. A suspeita é de que os ataques ocorram em comunidades vizinhas, como Flexal e Tessalônica, enquanto os corpos são levados pela correnteza até a região do Ariri, próximo ao km 33 da BR-156.

Quatro animais foram motos no Ariri. Foto: Reprodução
Apesar da gravidade dos casos e da repercussão gerada, as investigações enfrentam um obstáculo recorrente: a falta de informações que permitam identificar os responsáveis. Em entrevista concedida ao Portal SN, o promotor Marcelo Moreira explicou que a legislação prevê punições severas para esse tipo de crime, mas alertou que a ausência de denúncias pode impedir a responsabilização dos autores.
“O que acontece se a pessoa for identificada? Ela vai responder por um crime ambiental, previsto no artigo 29, que é matar, perseguir e apanhar animais. A pena é aumentada em metade — a mínima de seis meses passa a ser de nove meses — por se tratar de um animal ameaçado de extinção, que é o caso do boto-cor-de-rosa. O autor responderá criminalmente na Justiça e também na esfera civil por danos causados pela degradação ambiental”, lembra o promotor.
Sem nomes, testemunhas ou pistas concretas, o inquérito corre o risco de ser encerrado sem responsabilizações.
“Ainda estamos com muita dificuldade de identificar a autoria de quem foi o responsável por isso. É preciso que a sociedade nos ajude identificando quem foi, para que a gente possa avançar. Infelizmente, hoje, a tendência deste inquérito do Ariri é ser arquivado por ausência de materialidade da autoria e identificação dos autores do delito”, lamentou Moreira.
Além da investigação criminal, o MP-AP determinou uma série de medidas preventivas. O promotor informou que irá oficiar o Ministério da Pesca, a Colônia de Pescadores da região, a Associação de Moradores do Ariri e o Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá (Iepa) para reunir informações sobre a atividade pesqueira e o uso do habitat dos botos na região.
Os dados subsidiarão uma campanha de educação ambiental voltada a moradores, pescadores, proprietários de balneários e frequentadores da região, com foco na preservação da espécie e na prevenção de novos casos.
“Todos têm que estar juntos nesta causa, denunciar a pesca e a violência contra esta espécie representativa da Amazônia brasileira para que sejam preservados. Eles não fazem mal aos seres humanos, não são inimigos dos pescadores e ajudam a manter o equilíbrio ambiental. Não podem ser vítimas destes crimes bárbaros e de consequências cíclicas no processo de extinção de espécies na região”, concluiu o promotor.
Denuncie
O Ministério Público e as forças de segurança reforçam que a participação da população é essencial para impedir que o inquérito seja arquivado e evitar novas mortes de botos.
Quem tiver informações sobre os responsáveis pela instalação das redes ou pelos ataques aos animais pode denunciar de forma anônima:
- WhatsApp do Batalhão Ambiental: (96) 98417-3281 (envio de fotos, vídeos ou relatos sob sigilo);
- Atendimento presencial: Sede do Batalhão Ambiental, na Rua Lucena de Azevedo, nº 142, em Santana.

