Por RODRIGO ÍNDIO, de Macapá (AP)
O conhecimento que passou da avó para a mãe e da mãe para a filha agora ganha os holofotes da ciência. É com essa história que Mayane Vitória Sales, 16 anos, aluna do 9º ano da Escola Estadual Adão Ferreira de Souza, de Porto Grande, está participando pela primeira vez da XIV Feira de Ciência e Engenharia do Estado do Amapá e se destacando entre os projetos.
O trabalho apresentado por ela tem um nome que chama atenção: “Uso Tradicional da Folha de Terramicina Associada à Banha de Galinha e Cera de Abelha no Tratamento de Feridas e Roxidores”. Na prática, uma pomada 100% artesanal, feita com ingredientes da Amazônia e com receita de família.
“Surgiu da minha avó. Depois ela transmitiu pra minha mãe que transmitiu pra mim. Eu tive a ideia de transformar essa pomada em um projeto científico”, explicou Mayane durante a apresentação.

Pomada artesanal combina folha de terramicina, banha de galinha…

…e cera de abelha em uma receita de origem amazônica. Fotos: Rodrigo Índio/SelesNafes.com
Inspirada pela valorização dos saberes tradicionais amazônicos, a estudante decidiu levar para o campo científico o que aprendia em casa. A Amazônia, reconhecida pela sua biodiversidade, guarda na medicina popular alternativas naturais para o cuidado com a pele, e a pomada da família de Mayane é uma delas.
Como é feita
Durante a apresentação oral na feira, em frente ao banner do projeto, Mayane explicou com detalhes o passo a passo: ela colheu a folha da terramicina, lavou, secou à sombra sobre um pano limpo, cortou em pequenos pedaços e levou ao banho-maria junto com a banha de galinha. Após extrair o líquido, coou a mistura e adicionou a cera de abelha, que voltou ao banho-maria até derreter. O resultado final é uma pomada de textura homogênea, de cor amarelada, armazenada em um pequeno pote branco.
Segundo o projeto, orientado pela professora Solange Tolosa da Silva, a pomada apresentou boa aceitação quanto ao aspecto, cheiro e consistência, além de fácil aplicação.

Projeto busca preservar um conhecimento tradicional que, segundo a estudante, corre o risco de desaparecer por ser transmitido apenas pela oralidade
Teste na prática
E a pomada funciona? Mayane garante que sim. Em entrevista, ela conta que já testou o produto.
“Eu passei na ferida de uma menina. Emprestei a pomada pra ela, ela ficou passando entre dois ou três dias e ficou só a cicatriz no braço”, relatou.
Para ela, a banha de galinha é o segredo para ajudar a fechar as feridas, enquanto a folha de terramicina atua na inflamação e a cera de abelha dá a consistência e ajuda na cicatrização.
Nervosa por ser sua primeira vez em uma feira estadual, Mayane, moradora da Área 6 de Porto Grande, disse que a experiência está sendo muito boa.

Primeira participação na FECEAP marca a estreia da estudante de 16 anos em uma feira científica de alcance estadual.
Mais do que ganhar uma premiação, o objetivo da estudante é preservar um patrimônio cultural que corre o risco de desaparecer, já que é transmitido apenas pela oralidade.
“Minha ideia é levar esse conhecimento pra todos. Ir pra frente com ela, pra transformar em muitos projetos, pra cicatrizar pessoas que tão com doenças na pele, dores musculares e por aí vai”, finaliza.
Ao final do projeto, Mayane conclui que a pomada não é apenas uma preparação medicinal artesanal, mas uma expressão dos saberes tradicionais da Amazônia, um cuidado com a saúde que atravessa gerações e que merece reconhecimento científico e social.
