Por RODRIGO INDIO, de Saint-Georges, Guiana Francesa
O cheiro de açaí fresco que sai da batedeira da família Barbosa, bem perto da área portuária de Saint-Georges, não carrega apenas a tradição da Amazônia. Carrega histórias de travessias, encontros de culturas e a força do trabalho familiar. É nesse cenário, onde o Brasil e a Europa se olham através das águas do Rio Oiapoque, que a jovem Jhenife Barbosa, de 22 anos, constrói a sua história.
Jhenife é a tradução viva do que significa nascer e crescer na fronteira. Nascida em Oiapoque, no Amapá, ela cruzou o rio ainda bebê, com apenas seis meses de vida. A mudança foi o capítulo seguinte de uma corajosa jornada começada por sua mãe, dona Lane Lima (45 anos), que aos 24 deixou o Ceará para buscar novas oportunidades no extremo Norte do Brasil. No Oiapoque, dona Lane viveu por três anos, conheceu o pai de Jhenife — um apaixonado pelo trabalho com a terra e com os frutos da região — e juntos decidiram fincar raízes em solo guianense.

Açaí da família atrai clientes de Caiena pelo sabor e preço. Fotos: Rodrigo Índio/SelesNafes.com
Hoje, há mais de duas décadas, o sustento e a identidade da família vêm do fruto roxo que conquistou o paladar de quem passa pela região.
“Na verdade, tudo isso começou com meu pai, e minha mãe se juntou a ele. O açaí é um produto que se vende bastante por aqui”, conta Jhenife, com um sorriso orgulhoso.

Açaí vendido em Saint-Georges chega a custar metade do valor praticado em Caiena

Batedeira da família Barbosa virou ponto de parada para brasileiros e franceses
Em Saint-Georges, o açaí ganha contornos internacionais. O pai de Jhenife cuida de todo o processo tradicional: tira o fruto e a família bate na hora, garantindo a espessura e o frescor que a freguesia tanto valoriza. E a clientela não vem apenas da vizinhança. Franceses vindos de Caiena, capital da Guiana Francesa, fazem questão de parar na batedeira da família.
O motivo? Qualidade, tradição e um valor que faz toda a diferença no bolso. Enquanto em Caiena o litro do açaí chega a custar entre 8 e 10 euros — muitas vezes com uma textura bem mais fina —, na vitaminosa de Jhenife o produto é batido no capricho e por um preço muito mais em conta. Lá, a garrafa de 2 litros sai por 10 €, o que significa que, se o cliente fosse comprar essa mesma quantidade na capital, pagaria quase o dobro do valor.

Tradição familiar ganha novos mercados do outro lado do rio
No empreendimento da família, os valores são:
* 1 Litro: 5,00 € (R$ 29,34)
* 1,5 Litro: 7,50 € (R$ 44,01)
* 2 Litros: 10,00 € (R$ 58,69)
(Cotações baseadas na taxa comercial de R$ 5,87 por euro).
Além de ajudar nos negócios da família e ser a imagem de um empreendedorismo jovem que dá certo na fronteira, Jhenife impressiona pela bagagem cultural e linguística. Ela transita com naturalidade por quatro idiomas: fala o português aprendido em casa com os pais, domina o francês e o inglês exigidos na grade escolar local e ainda fala o crioulo guianense (kriyòl gwiyannen), idioma nativo fortalecido recentemente nas escolas da região.
A fluência e a simpatia de Jhenife são fundamentais para atender ao fluxo constante de pessoas que passam pela Ponte Binacional ou pelas voadeiras do porto. Para ela, a fronteira não é uma linha de separação, mas sim um ponto de integração e acolhimento para turistas da Europa e moradores locais.

Jhenife conquista espaço entre diferentes culturas com talento e simpatia
Ao olhar para o futuro, Jhenife mostra que trabalhar com a família não é apenas uma necessidade, mas uma escolha de amor e pertencimento. Entre a cotação do euro, as aulas de idiomas e o barulho ritmado da batedeira de açaí, a jovem amapaense prova que empreender na fronteira é, acima de tudo, transformar raízes em pontes.
“Tá dando certo”, finalizou.
