Por RODRIGO ÍNDIO, de Macapá (AP)
No pátio do Instituto de Ensino de Segurança Pública do Amapá (Iesp), um cenário silencioso e marcante resume o peso de um dos treinamentos mais impiedosos das forças policiais do país: um “cemitério” simbólico recheado de cruzes. Cada cruz cravada na terra carrega um número e a história de quem não suportou a pressão e pediu para sair. Das 37 almas que iniciaram a jornada no mês de abril, 26 já “morreram” pelo caminho. Restam apenas 11 sobreviventes.
A rotina não dá trégua. Há quase cinco meses, esses homens vivem sob regime de internato 24 horas por dia, 7 dias por semana. Para eles, o mundo externo parou; a vida resume-se à privação de sono, exaustão física, estresse psicológico contínuo e à busca obsessiva pela perfeição técnica. O objetivo é formar a linha de frente do combate ao crime organizado e às situações mais extremas do estado — de resgate de reféns ao confronto direto em biomas hostis de matas e rios de águas escuras da Amazônia.
“Aqui só ficam os melhores, os mais capacitados a ostentar a caveira da Fortaleza. O objetivo é formar policiais capacitados para as situações mais críticas da segurança pública: combate a organizações criminosas, grupos terroristas, reféns e criminosos homiziados”, ressalta o Major Henrique Oliveira, coordenador do COPES.

Cruzes fincadas no pátio do Iesp simbolizam os alunos que desistiram da formação ao longo dos meses de treinamento. Foto: Rodrigo Índio/SelesNafes.com

“Aqui só ficam os melhores”, afirma o major Henrique Oliveira ao explicar o rigor exigido para integrar a tropa de elite. Foto: Rodrigo Índio/SelesNafes.com

Formação prepara policiais para missões como resgate de reféns, combate ao crime organizado e atuação em áreas de difícil acesso. Foto: divulgação
Para transformar policiais comuns em operadores de elite do Batalhão de Operações Especiais (Bope), o treinamento exigiu mais do que o solo amapaense podia oferecer. A turma percorreu uma fase itinerante de mais de dois meses em unidades de elite pelo Brasil e no exterior, passando por treinamentos pesados nos batalhões do Mato Grosso, Goiás, Distrito Federal e Minas Gerais, além de instruções com forças de operações especiais no Paraguai e no Peru.
Entre os resistentes que hoje contam os dias para a conclusão, há policiais militares amapaenses, profissionais vindos de outros estados e integrantes da Polícia Civil.

“O que mais complica é a saudade da família”, relata o cabo D. Fernandes sobre o impacto da rotina de internato. Foto: Rodrigo Índio/SelesNafes.com
O isolamento e a intensidade cobram um preço altíssimo. Estar no limite por semanas a fio transforma o desgaste emocional no pior dos inimigos.
“O curso de Operações Policiais Especiais é muito intenso. O que mais complica é a saudade da família. A restrição e o nível de estresse exigidos são muito altos — o psicológico e a parte física —, mas tudo faz parte da boa formação de um operador. No fim, tudo vale a pena”, relata o Cabo D. Fernandes, aluno 24 do curso e policial militar há oito anos no Amapá.

Novos operadores serão preparados para atuar em cenários extremos, incluindo matas, rios e ocorrências de alta complexidade. Foto: divulgação

Após 17 anos, o Amapá volta a formar uma turma do curso de Operações Policiais Especiais em seu próprio território. Foto: divulgação
Depois de 17 anos sem que uma turma do COPES fosse forjada em território amapaense, a espera está prestes a terminar. Nas próximas semanas, acontecerá a tão esperada formatura dos novos “Caveiras”, porém, eles não sabem.
Ao fim do processo, os homens que se recusaram a entregar seus manicacas e virar cruz no pátio do Iesp receberão o tão cobiçado símbolo no peito. Não serão apenas policiais qualificados como atiradores de precisão ou especialistas em explosivos; serão operadores moldados na dor, prontos para responder às crises mais complexas e proteger a sociedade amapaense quando tudo mais falhar.
