Por JÚLIO MIRAGAIA, de Macapá (AP)
Uma startup criada no Amapá quer transformar a forma como os passageiros utilizam o transporte público na região metropolitana de Macapá. A I-Mob desenvolveu um sistema que combina características do transporte coletivo convencional com a flexibilidade dos aplicativos de transporte por demanda. A proposta prevê o uso de vans e micro-ônibus acessíveis, embarque exclusivo por aplicativo e a possibilidade de o veículo sair da rota para buscar passageiros.
A startup está com um estande na Expofeira do Amapá 2026 e se prepara para iniciar uma fase de testes pelas ruas e avenidas do estado. A empresa também mantém conversas com as prefeituras da região metropolitana para viabilizar a implantação do sistema, inicialmente pensado como uma alternativa de transporte para Macapá, Santana e Mazagão.
O funcionamento parte de rotas previamente definidas, mas com flexibilidade para pequenos desvios. Pelo aplicativo, o passageiro poderá solicitar o embarque em um ponto localizado em um raio de até 300 metros da rota programada. Com isso, a proposta elimina a necessidade de pontos fixos de embarque e desembarque.

Aplicativo permite solicitar embarque fora da rota e acompanhar a disponibilidade das vans em tempo real. Imagens: divulgação
Outro diferencial é o controle da capacidade dos veículos. Somente passageiros que tenham feito a solicitação pelo aplicativo poderão embarcar e não será permitido o transporte de pessoas em pé. Quando a van ou o micro-ônibus atingir sua capacidade máxima, o veículo deixará de aparecer como opção para novos passageiros.
Assim que houver um desembarque e surgir espaço novamente, o veículo volta a ficar disponível no aplicativo. O sistema também permite que o motorista faça um desvio para atender um passageiro e, depois, siga para o próximo desembarque, tornando o percurso mais flexível.
“É um sistema híbrido. Ele tem características de transporte público coletivo e características do transporte privado por demanda, que são os aplicativos de transporte”, explica o CEO da I-Mob, Alex Hyacienth.

Startup apresenta a tecnologia e o novo modelo de transporte no estande da Expofeira 2026
Acessibilidade e tornar o transporte coletivo novamente atrativo
A acessibilidade é um dos pilares do projeto. A intenção da startup é utilizar vans e micro-ônibus adaptados para pessoas com mobilidade reduzida, ampliando o acesso ao transporte para usuários que enfrentam dificuldades no sistema convencional.
Para Hyacienth, o modelo também pode ajudar a enfrentar a crise vivida pelo transporte público em diferentes cidades brasileiras. Ele cita Santana, que atualmente enfrenta dificuldades na oferta do serviço, e Macapá, onde o transporte coletivo também passa por um momento delicado.
“A ideia é ajudar essas cidades com essas mesmas características a levar inclusão e acessibilidade às pessoas que não são alcançadas pelo transporte público”, afirma.
Segundo o empreendedor, a precariedade do transporte coletivo também contribui para o aumento da circulação de carros e motocicletas. No deslocamento entre Macapá e Santana, por exemplo, ele observa que é comum encontrar veículos particulares transportando apenas uma pessoa.
A expectativa é que um sistema mais flexível possa tornar o transporte coletivo novamente atrativo, além de contribuir para reduzir custos e a necessidade de subsídios públicos relacionados ao serviço.

Sistema combina transporte coletivo e transporte por demanda para ampliar mobilidade e acessibilidade no Amapá
Experiência como motorista
A ideia do I-Mob também nasceu da experiência de Hyacienth como motorista de aplicativo. Ele trabalhou por cerca de sete anos no setor e afirma que a atividade permitiu conhecer de perto tanto as dificuldades enfrentadas pelos motoristas quanto as necessidades dos passageiros.
“Eu sei do que eles precisam”, afirma.
Antes de atuar no setor de mobilidade, Hyacienth deixou um emprego com carteira assinada e decidiu empreender. Chegou a criar uma empresa de alimentação, vendendo açaí e camarão no bafo, via delivery, em uma época em que esse modelo ainda começava a se popularizar.
A experiência com transporte, porém, fez surgir a percepção de que era possível criar um modelo diferente.
“Eu sou um cara não conformado com a questão da estabilidade a ponto de não conseguir me envolver como ser humano e ajudar as pessoas, ajudar o próximo. Então eu saí de CLT e resolvi criar um negócio próprio, mas um negócio que não fosse mais do mesmo”, conta.
O I-Mob começou a ser apresentado na Expofeira do Amapá no ano passado. Desde então, segundo o empreendedor, o projeto passou por estudos e adaptações e avançou nas conversas com autoridades públicas.
“Hoje a gente está com um avanço significativo na conversa com autoridades públicas para tornar isso realidade nas ruas da cidade”, afirma.
A startup defende que o sistema pode funcionar como um novo modal de transporte, com potencial para gerar emprego e renda e ampliar o acesso à mobilidade para pessoas que atualmente não são atendidas pelo transporte público convencional.
