Cachoeira vira rota de turismo sustentável e fortalece 7 comunidades no Vale do Jari

Iniciativa conecta gastronomia, carimbó, trilhas e memória regional, com renda distribuída entre moradores do Vale
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Por RODRIGO ÍNDIO, de Laranjal do Jari (AP)

O ronco cadenciado do motor da voadeira corta a correnteza do Rio Jari em uma viagem de cerca de uma hora e dez minutos. O trajeto, que liga a sede urbana de Laranjal do Jari até a imponência da Cachoeira de Santo Antônio, é feito de forma tranquila e contemplativa, mas guarda ao longo de suas margens muito mais do que a imponência da vegetação amazônica.

A viagem, acompanhada pela reportagem a convite do Sebrae para diagnosticar o potencial turístico regional, revela como o ecoturismo planejado transformou a calha do rio em um corredor de desenvolvimento sustentável para as populações locais.

Agência aposta em experiências amazônicas e geração de renda para moradores locais. Foto: Rodrigo Índio/SelesNafes.com

À frente desse movimento está a mestranda do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento da Amazônia Sustentável da Universidade Federal do Amapá (Unifap), Dierlem Braga dos Santos, de 33 anos. Há um ano e oito meses, ela aliou a pesquisa científica ao espírito empreendedor para fundar a Vale Trip Jari, agência focada em Turismo de Base Comunitária que vem mudando a lógica da atividade na região.

“Não se trata apenas de levar o visitante até uma queda d’água para tirar fotos e ir embora. Nosso propósito é fazer com que o visitante vivencie a floresta, conheça quem mora nela e faça com que o impacto financeiro dessa visita fique diretamente nas mãos das famílias da região”, resume a empreendedora.

Jovens conduzem trilhas e fazem interpretação ambiental na floresta. Foto: Arquivo pessoal

Agência planeja levar o modelo para outros municípios do Amapá. Foto: Arquivo pessoal

Modelo movimenta negócios locais e amplia as oportunidades de renda para moradores da região. Foto: Arquivo pessoal

A proposta da Vale Trip Jari se destaca por integrar sete comunidades tradicionais situadas ao longo do Vale do Jari em uma mesma teia econômica e cultural. Os pacotes, organizados em média três vezes por mês para um público focado em vivência autêntica e conservação ambiental, distribuem a renda gerada entre múltiplos prestadores de serviço da própria floresta.

A experiência combina gastronomia, patrimônio cultural e condução ambiental.

Mulheres quilombolas apresentam carimbó e fortalecem a cultura local. Foto: Arquivo pessoal

Na comunidade da Cachoeira de Santo Antônio, o almoço regional ganha o reforço do famoso pudim feito por Patrícia Farias — sobremesa que ganhou projeção estadual ao ser premiada pela Abrasel em Macapá —, servido em conjunto com o trabalho do restaurante tradicional de Dona Maria.

Na comunidade Quilombola de São José, o grupo de mulheres locais organiza apresentações do carimbó tradicional, mantendo a identidade ancestral viva e gerando renda autônoma para a comunidade.

Na comunidade da Padaria, os visitantes são guiados pelas jovens do grupo Encantos da Natureza, responsáveis pela condução e interpretação ambiental nas caminhadas pela mata.

Roteiro resgata a história da chamada “Cruz Nazista”. Foto: Rodrigo Índio/SelesNafes.com

Resgate histórico no meio do caminho: A memória da “Cruz Nazista”

Antes de alcançar o espetáculo das águas da cachoeira, a rota faz uma parada estratégica em um ponto de alto valor imaterial: o cemitério comunitário que atende os moradores do entorno. No local, uma grande cruz marca a sepultura simbólica de Joseph Greiner, expedicionário alemão que faleceu na região na década de 1930 após ser acometido por uma doença durante uma missão de exploração.

Apesar do apelido popular de “Cruz Nazista” atribuído pelos moradores devido à origem do pesquisador e ao período histórico da expedição, a mediação do turismo de base comunitária atua para contextualizar a verdadeira importância do local.

“Não se trata de um monumento ideológico, mas do cemitério das nossas comunidades e de um marco histórico da preservação e do desenvolvimento da Amazônia. Greiner faleceu e foi sepultado aqui pelos próprios indígenas. Mais tarde, os restos mortais foram removidos pelos alemães, mas a cruz permaneceu de forma simbólica. A gente traz o turista aqui para valorizar a história e garantir que a memória da nossa região não se perca com o tempo”, explica Dierlem.

Culinária regional é um dos atrativos oferecidos aos visitantes. Foto: Arquivo pessoal

Comunidade do Açaizal também integra o circuito de experiências oferecido aos visitantes. Foto: Arquivo pessoal

Pesquisadora da Unifap criou a agência há um ano e oito meses. Foto: Rodrigo Índio/SelesNafes.com

Inovação tecnológica e os novos horizontes do Vale

O impacto social do modelo chamou a atenção do ecossistema de inovação do Amapá. Recentemente, a Vale Trip Jari foi acolhida pelo Tucuju Valley, a rede de inovação e startups do estado, reconhecendo a iniciativa como uma solução sustentável viável para a bioeconomia amazônica.

O fortalecimento da rota coincide com o avanço de obras públicas de infraestrutura turística na região, como a construção do novo Mirante da Cachoeira de Santo Antônio.

“Mesmo antes da inauguração oficial, o mirante já virou um dos pontos mais desejados pelos visitantes. A busca para fazer a trilha até o topo é enorme e já estamos preparando a inclusão do espaço como parada fixa da nossa rota”, destaca a fundadora.

Novo mirante deve ampliar as opções de visitação na região. Foto: Arquivo pessoal

Modelo busca manter a renda do turismo nas comunidades. Foto: Arquivo pessoal

Com a consolidação do roteiro no Vale do Jari, a meta da startup agora é expandir a metodologia do turismo de base comunitária para outros municípios do Amapá, demonstrando que a conservação da Amazônia passa, necessariamente, pelo fortalecimento socioeconômico de quem habita a floresta.

Roteiro reúne gastronomia, carimbó, trilhas e memória regional. Foto: Arquivo pessoal

Expedições valorizam saberes, tradições e paisagens amazônicas. Foto: Arquivo pessoal

SERVIÇO | ROTA VALE TRIP JARI

Atuação: Ecoturismo, expedições guiadas e Turismo de Base Comunitária (TBC).
WhatsApp para reservas: (96) 99115-2676
Instagram: [@valetripjari](https://www.google.com/search?q=https://www.instagram.com/valetripjari)
Site oficial: [valetripjari.com.br](https://www.valetripjari.com.br)

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