Por RODRIGO ÍNDIO, de Macapá (AP)
Uma mulher de 38 anos viveu dias de puro pavor até conseguir romper o cativeiro onde era mantida e espancada pelo próprio marido. O resgate aconteceu no ramal do Mururema, no bairro Goiabal, zona oeste de Macapá, depois que a vítima aproveitou um momento de distração para fugir e clamar por ajuda aos moradores da área.
Ensanguentada e em estado grave, ela deu entrada no Hospital de Emergências (HE) de Macapá na última quarta-feira (16) apresentando o rosto inchado por socos, marcas de faca nos dois braços e múltiplos hematomas provocados por golpes de pedaços de pau nas mãos, pulsos e pernas.

Homem foi preso usando tornozeleira eletrônica e já cumpria pena por homicídio. Foto: reprodução
Na cabeça, uma perfuração profunda exigiu quatro pontos. A equipe médica submeteu a vítima a exames de raio-X e tomografia computadorizada do crânio para avaliar o risco de fraturas e lesões internas.
A fuga desesperada mobilizou a comunidade. Primeiro, ela tentou fugir nua após o agressor ter jogado xixi nela. Com isso, foi tomar banho e num descuido dele ela correu sem roupas na rua, porém, foi alcançada por ele. Sofreu novas agressões, mas depois conseguiu fugir.
Uma moradora do bairro não hesitou em acolher a vítima, colocá-la em seu próprio veículo e levá-la às pressas para o socorro médico. Emocionada, ela relembrou o momento em que se deparou com a cena.

Agressor ameaçava matar a mulher e os filhos…

…para impedir que as agressões fossem denunciadas. Fotos: reprodução e Rodrigo Índio
“Foi uma cena de horror ver a mulher no estado que ela estava, com o rosto todo deformado, com um corte na cabeça, o corpo todo machucado e o desespero daquela mulher pedindo socorro pra não deixar esse marido dela matar. Estava na rua toda ensanguentada. Aquilo ali foi muito marcante pra mim”, detalhou.
Mãe de dois filhos menores de idade, a mulher contou ter passado cerca de uma semana sendo agredida diariamente com socos, chutes e pauladas. A violência era alimentada por alucinações do agressor — usuário de crack e álcool —, que afirmava “ouvir vozes” acusando a esposa de uma traição inexistente.
Na vizinhança, a vítima é reconhecida como uma mulher cristã e muito atuante na igreja local. Durante o período em cárcere, o agressor impôs uma rotina de terror para evitar que o crime fosse denunciado.
“Ele falava que ia matar e ameaçava ela e os filhos, dizendo que se eles contassem ele ia matar a mãe. Ele simulava que iria se matar também na frente dos filhos, uma forma de manipulação e de tentar manter o silêncio”, contou a vizinha.

Vítima chegou ao hospital com ferimentos na cabeça, braços, mãos, pernas e rosto. Foto: Rodrigo Índio/SelesNafes.com
A decisão de agir rapidamente veio acompanhada por uma profunda identificação com a dor alheia. A moradora revelou que o sofrimento da vítima a fez reviver traumas do próprio passado.
“Eu fiquei chocada. Me coloquei no lugar dela, porque eu já passei por um relacionamento assim, então eu não pensei duas vezes em colocar ela dentro do meu carro e prestar socorro. Eu estou até agora cuidando dela e só vou descansar depois pra deixar ela num local seguro, longe desse monstro”, disse.
A Polícia Militar foi acionada e prendeu o agressor no local do crime. O homem já cumpria pena em regime aberto, monitorado por tornozeleira eletrônica, e possui histórico criminal por homicídio.

Vítima passou sete dias sob agressões, ameaças e violência antes de conseguir escapar. Foto: Rodrigo Índio/SelesNafes.com
A moradora garantiu que continuará ao lado da vítima dando suporte médico, psicológico e jurídico, acompanhando-a até a Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (DEAM) assim que receber alta do hospital.
“Eu vou continuar dando todo o suporte pra ela, como mulher, como amiga. Vou estar acompanhando essa vítima até a delegacia pra que ela possa registrar tudo direitinho e que ele pague por tudo que fez. Um cara que faz isso com uma mulher pode fazer com qualquer outra”, concluiu.
O caso segue sob investigação da Polícia Civil do Amapá.
