Por RODRIGO ÍNDIO, de Macapá (AP)
Internado há cerca de 40 dias no Hospital São Camilo, em Macapá, o técnico de enfermagem e instrumentador cirúrgico John Santos, de 33 anos, vive uma dramática corrida contra o tempo. Ex-funcionário da própria unidade de saúde por 9 anos, John aguarda exames neurológicos de alta complexidade e procedimentos cirúrgicos para reconstrução craniana e tratamento da epilepsia. A família denuncia a demora na definição do tratamento por parte do hospital e do plano de saúde, enquanto o quadro clínico do paciente se agrava.
A história de John começou a mudar em 2016, quando ele sofreu um grave acidente na área rural do Lontra da Pedreira, onde sua família reside. Um açaizeiro caiu sobre sua cabeça, provocando múltiplos traumatismos cranianos e a formação de oito coágulos. Na ocasião, ele passou por cirurgia no HCAL e precisou ficar internado em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI).
Em 2024, após um novo procedimento cirúrgico, o técnico passou a apresentar crises graves de epilepsia refratária, condição caracterizada pela persistência de convulsões apesar do tratamento com medicamentos adequados.

John, de 33 anos, foi atingido pela queda de um açaizeiro na cabeça

Ele precisa passar por uma reconstrução craniana e exames que podem ser feitos em Macapá

…Mas o único médico que realiza esse exame foi descredenciado pelo plano PAS
Impasse entre hospital e plano de saúde
Antes da internação de urgência, provocada por crises epilépticas severas, John já havia solicitado ao plano de saúde do São Camilo autorização para realizar a reconstrução craniana e o tratamento cirúrgico da epilepsia. Segundo a família, desde então, começou um impasse burocrático, com sucessivas transferências de responsabilidade entre a operadora e a administração hospitalar. Em um desabafo, Daiane Santos, irmã de John, relatou o sofrimento de acompanhar a perda progressiva da autonomia do irmão, que é pai de uma menina de 5 anos.
“O meu irmão lentamente está morrendo. Meu irmão já não anda mais, não consegue fazer xixi ou suas necessidades fisiológicas sozinho, usa sonda e precisa de lavagens frequentes. Ele se encontra igual a uma criança hoje em dia nesse hospital”, desabafou Daiane.

Família assiste o sofrimento de Jonh lutando por uma resposta
A irmã também questiona a demora no atendimento, especialmente porque John dedicou quase uma década de trabalho à instituição e continua pagando mensalidades superiores a R$ 1 mil pelo plano de saúde.
“Ele não está aqui de graça, está pagando um plano de saúde que está em dia. Cadê a ética? Cadê o profissionalismo? Cadê a reciprocidade para com o seu paciente? Será que vai ser preciso meu irmão morrer aqui para depois pagarem uma mixaria de indenização?”, questionou.
Exame em Belém exige transporte especializado
Segundo a família, após avaliação médica e realização de uma tomografia em Macapá, foi indicada a necessidade de um exame especializado em Belém (PA): o vídeo-eletroencefalograma digital de 72 horas, utilizado para monitorar a atividade elétrica cerebral e investigar as crises epilépticas. Daiane afirma que John já era acompanhado pelo neurocirurgião Wanderson Dias, profissional que conhece seu histórico clínico e poderia realizar parte do tratamento. No entanto, segundo ela, o médico foi descredenciado do hospital.

Jonh move uma ação trabalhista contra o São Camilo
“Esse médico tem a solução e necessariamente não precisava ele se deslocar para Belém porque o médico é especialista em cirurgia craniana. Mas ele está descredenciado do hospital. Aí o hospital joga a responsabilidade pro plano e o plano pro hospital”, afirmou Daiane.
A transferência para a capital paraense também representa um desafio. De acordo com os familiares, John não tem condições clínicas de viajar em transporte convencional e precisa de uma estrutura médica adequada durante o deslocamento.
“A gente não pode tirar o John do hospital para ele ir a Belém sozinho. Ele precisa sair daqui em uma UTI móvel, ir direto para o hospital e fazer os exames na clínica. A clínica e o hospital dizem que está tudo OK, mas até agora não dão uma data necessária. Nosso medo é que ele não resista”, explicou a outra irmã, Edineia Santos.
A família afirma ainda que o paciente não está recebendo acompanhamento direto de um neurocirurgião na unidade, embora conte com suporte do médico Renan Rosas. Segundo os familiares, a médica que o acompanhava está fora do país. Reuniões com a diretoria do hospital já foram realizadas e relatórios médicos encaminhados ao plano de saúde. Mesmo assim, os parentes ainda não receberam uma previsão concreta para a realização do exame e a transferência do paciente.

Hospital e o plano ainda não se pronunciaram
Demissão e ação judicial
Além da batalha pela saúde, John enfrenta uma disputa trabalhista com o hospital onde atuou durante 9 anos como técnico de enfermagem e instrumentador cirúrgico. Demitido no início deste ano, ele ingressou com uma ação judicial contra a instituição.
Com o quadro clínico debilitado e dependente de cuidados integrais, John tem mobilizado familiares, que fazem um apelo às autoridades de saúde, ao Poder Judiciário e aos órgãos de defesa do consumidor para que os exames, o transporte médico e o tratamento cirúrgico sejam viabilizados com urgência.
Este é o segundo caso parecido relatado pelo Portal SelesNafes.Com em uma semana envolvendo pacientes em internação de longa duração e sem resposta do plano. Na semana passada, a justiça determinou a transferência de um menino de 6 anos para Curitiba após quase 1 mês de internação. O motivo: a demora do plano PAS e do Hospital São Camilo.
No caso de Jonh Santos, o Portal SN procurou o Hospital São Camilo de Macapá e a operadora do plano para esclarecer os prazos de autorização dos exames em Belém, a disponibilização de transporte médico especializado e a cobertura do tratamento. Até o fechamento desta reportagem, as instituições não haviam se manifestado.

