Por RODRIGO ÍNDIO, de Macapá (AP)
Os dois policiais militares envolvidos no esquema, que movimentou cerca de R$ 26 milhões, teriam subtraído cerca de 150 armas de fogo que estavam sob custódia do Tribunal de Justiça do Amapá (TJAP) e repassado o armamento para integrantes de uma facção criminosa. A informação foi repassada durante entrevista pelo delegado Estêfano Santos, responsável pela investigação. Segundo ele, o desvio ocorreu ao longo de aproximadamente um ano e meio, com uma média estimada de 100 armas por ano, podendo o número total ser ainda maior.
A descoberta faz parte da Operação Senhor das Armas, deflagrada nesta terça-feira (25) pela Polícia Civil do Amapá. A investigação começou após a prisão de uma pessoa que estava com uma quantidade significativa de armas. A partir da extração de dados do celular apreendido, os investigadores conseguiram identificar a origem dos armamentos e chegar à estrutura responsável pelo desvio. “A gente conseguiu identificar de onde vinham essas armas”, explicou o delegado.
Segundo a Polícia Civil, o esquema começava na Sala do Armário Forte do Fórum de Macapá, onde ficavam armas, munições e acessórios apreendidos. Um tenente da PM, que atuava como encarregado do local, é apontado como responsável pelos desvios. Outro servidor fazia as baixas nos sistemas, retirava fisicamente os armamentos e os levava até um armeiro. Para dificultar o rastreamento, os pagamentos eram feitos em dinheiro vivo.

Armamentos eram adulterados antes de chegar às mãos da facção. Fotos: divulgação
Na oficina clandestina, as armas eram consertadas e tinham os sinais identificadores adulterados, inclusive com a raspagem das numerações. Depois, eram fotografadas e organizadas em catálogos divulgados por aplicativos de mensagens. Parte significativa do arsenal tinha como destino integrantes e lideranças de uma facção, com negociações em quantidade e até ordens de compra que teriam partido de dentro do sistema penitenciário.
Cada armamento era vendido por valores entre R$ 8 mil e R$ 10 mil, conforme o calibre e o estado de conservação. “Depende muito do estado de conservação da arma, do calibre da arma”, explicou Estêfano. A investigação aponta ainda que intermediários compravam os equipamentos para revendê-los posteriormente, enquanto parte das armas seguia diretamente para integrantes da facção.

Armas eram desviadas de dentro do Fórum de Macapá
O dinheiro circulava por uma estrutura criada para dificultar o rastreamento dos valores. Uma policial militar, esposa do tenente apontado como líder, é investigada pela movimentação financeira do núcleo familiar. Segundo a Polícia Civil, eram usados depósitos fracionados, contas de terceiros, empresas de fachada e PIX. Parte dos valores recebidos digitalmente era convertida em dinheiro em espécie para remunerar os envolvidos.
O delegado ressaltou que os R$ 26 milhões não correspondem apenas à venda das armas. “São valores que não vêm só do tráfico de armas, mas também movimentações relacionadas ao tráfico de drogas”, explicou. A investigação financeira levou a medidas de bloqueio e sequestro de patrimônio. Ao todo, foram cumpridos 33 mandados, com apreensão de veículos, duas espingardas e localização da oficina usada para adulterar os armamentos.
Dois policiais militares e um servidor de segurança que atuava cedido ao TJAP foram afastados. A Polícia Civil informou que a investigação continua com a análise do material apreendido para identificar outros envolvidos. “Sabemos que existem outras pessoas envolvidas e vamos buscar agora identificar todas”, afirmou Estêfano Santos.

