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ANDRÉ SILVA

Há não muito tempo, todo fim de tarde do sábado que antecede a Páscoa e penúltimo dia da Quaresma, em Icoaraci (PA), um coro de choros de crianças rompia o silêncio que imperava nas casas do distrito.

Meninos e meninas de várias idades, que haviam aprontado todas durante a Semana Santa, sentiam toda a fúria dos pais neste dia. Tal prática e costume ficou culturalmente conhecido como o “Romper da Aleluia”.

Quem conta essa história é minha mãe, Eliana Maria. Ela é neta de uma índia e de um português descendente de colonizadores europeus que se engraçou pro lado de uma linda indígena com quem se casou. Eles tiveram muitos filhos entre eles, minha avó, Araci Oliveira.

Eu era adolescente quando ouvia minha mãe contar os causos daqueles Sábados de Aleluia. Todas as crianças faziam o máximo de silêncio possível e brincadeiras eram quase que impossíveis, tamanho o grau de dificuldade em pelo menos esboçar um som que fosse.

É claro que muitos daqueles moleques respeitavam a tradição passada de geração à geração, mas sempre tinha um que era o mais traquina.

Minha mãe ainda chegou a ver como a tradição funcionava. No início da semana, os pais sempre avisavam: “olha a Semana Santa menino, vê se se comporta bem pra não entrar no couro!”. Quanto mais reincidências em peripécias durante a semana, maior o número de palmadas.

No sábado, ao cair da tarde, a voz de uma mulher lá longe rompia o silêncio. Era precedida de um estalo e logo em seguida um choro. A coisa toda acontecia como uma “ôla!” da torcida de um time em um estádio de futebol. Logo, rapidamente toda a rua emitia um único som.

No domingo de manhã, todos se encontravam na igreja matriz pra ouvir o sermão do padre que falava do amor de Cristo, que morreu pelos pecados dos homens.

Distrito de Icoaraci em dia de Arraial do Círio nos fim dos anos 1960

Distrito de Icoaraci em dia de Arraial do Círio nos fim dos anos 1960

Acredito que parecia um pouco controversa aquela história; se Deus em Cristo perdoou o pecado dos homens dando a si mesmo por eles, como os homens não podiam fazer o mesmo?

Contudo, na fila da hóstia, os cochichos eram proibidos também, mas os olhares de tristeza dos amigos diziam muito.

Na segunda-feira, tudo ia voltando ao normal vagarosamente. Ao romper do sol todos estavam brincando novamente e já imaginando como seria no próximo ano.

Muito raro testemunhar esse tipo de evento em nossos dias. Muitas crianças da época têm aversão à tradição e dizem que nem pensam em repeti-las com seus filhos. Sorte a deles que algumas tradições têm fim.

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