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MANOEL DO VALE

Na última quarta, 24, na sede do Iphan em Macapá, ocupada desde o dia 18 pelo movimento ‘Ocupa Minc’, a noite foi de churrasco colaborativo acompanhado de poesia e música. Entre as atrações, destaque para a batida suave, precisa e direta do rapper Louca Vida, que subiu ao palco improvisado para falar de amor, respeito e arte.

Natanael de batismo, auxiliar em educação por formação e morador do conjunto Mestre Oscar, o rapper Nata LV (Louca Vida) tem no corpo as marcas de uma existência cercada pela violência.

Natural de Santarém, Pará, ele viu o irmão ser morto a tiros e resolveu se vingar. A ‘forra’ lhe custou um ano, quatro meses e quinze dias de reclusão.

Rapper .Fotos: Manoel do Vale

Através do hip-hop, Nata LV conta sua história de vida. Fotos: Manoel do Vale

E foi na prisão que Louca Vida conheceu o rap, que ele achou “uma música diferente das que ouvia no rádio, onde o cara falava nervoso, dizia aquilo que eu tava vivendo ali dentro da prisão e do que eu, até então, havia vivido do lado de fora”, contou.

Pouco depois de ter saído da cadeia, Natanael veio morar em Macapá, na casa de familiares, em 2004. Na mochila, vários CDs de rap, o ritmo da cultura de periferia que havia mudado sua vida.

“Vim com esse lance de ir à busca do rap, que antes eu não tinha contato. E eu vi que não era só a música, tinha por traz os outros elementos da cultura hip-hop, foi quando comecei a somar com os caras”, comentou.

Casado e pai de um menino, Louca Vida saía em uma manhã de casa, no conjunto Mestre Oscar, para ir ao trabalho no Bairro Ipê, quando percebeu que estava sendo seguido.

Nata LV durante apresentação

Nata LV durante apresentação

Eram quatro ‘molecões’, ele lembra. Os menores queriam a bicicleta e partiram para cima de Natanael armados de faca. Este revidou ao ataque, e acertou um dos infratores com um pedaço de pau. Diante da reação de Natanael, os delinquentes fugiram. E o auxiliar em educação voltou para casa.

Acostumado com a violência da periferia, o rapper nem chegou a comentar com alguém o que havia acontecido, parou e sentou ali mesmo.

“Eu não vi direito quando me atacaram, só lembro quando acordei, do giroflex da ambulância e uma multidão ao meu redor, e eu lá colado no chão, nem podia me mexer. Aí me toquei: alguém tentou me matar”, lembra.

O que Natanael não lembra é que recebeu onze golpes de terçados pela cabeça, braços e mãos.

Sobrevivente, Nata LV ficou onze dias internado no hospital para se recuperar da agressão sofrida. O trauma fez com que Natanael ficasse um mês longe do bairro onde morava.

Mas ele precisava reagir. A reação foi o ‘Revide’, um ano depois. E veio em forma de arte, com os parceiros do hip-hop e do reggae, o do amigo contador de histórias, Joca, e de vários outros MCs. Todos combatendo a violência clamando a consciência.

A caminho de seu primeiro CD, Louca Vida anda na moral pelas ruas do conjunto Mestre Oscar e do Ipê, e espera fazer ainda mais para dar a letra de que a violência só leva a dois caminhos: ao Iapen ou à vala. E de que neguinho ficar oprimindo ainda mais quem já é oprimido, é falsa malandragem. 

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