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Líder religioso com mais de 200 templos e 30 mil fiéis sob seu comando, Oton Miranda de Alencar, 72 anos, é presidente da Assembleia de Deus, A Pioneira, no Amapá. Nasceu no Maranhão, e saiu de lá com um ano de idade para a cidade de Bonito, no Pará. Seu pai, Antoniel Alves de Alencar, que era um pregador itinerante, foi enviado ao Amapá para uma missão e nunca mais saiu daqui.

Oton Miranda, que além de líder religioso, é professor, bioquímico, advogado e jornalista, recebeu a equipe de SelesNafes.Com para uma conversa. Ele falou sobre dolorosa perda do pai, uma figura ilustre no cenário religioso do Brasil, e que teve o privilégio de conhecer os fundadores da Assembleia de Deus no Brasil, os suecos Daniel Berg e Gunnar Vingren.

Oton Alencar também esclareceu sobre o racha que aconteceu há 7 anos no seio da igreja e os fatos que a cercaram. Acontecimentos que, para muitos fiéis, permanecem um segredo até hoje.

Acompanhe os principais trechos da entrevista.

Como a família Alencar veio parar aqui no Amapá?

O missionário que comandava as missões no Brasil mandou meu pai para uma cidade chamada Cruzeiro do Sul (AC). É um lugar que Deus criou e esqueceu. Minha mãe pegou 14 malárias naquele lugar. A vila tinha 14 leprosos, a igreja tinha 10 membros e um dizimista. A oferta naquela época rendia 400 réis, sendo que o litro do querosene usado para iluminar o lugar custava 200 réis. De lá nós fomos para o Piauí. Depois pra o Amazonas, Santarém, Roraima, e só em novembro de 1962 chegamos aqui em Macapá. Nessa época eu fui para Belém terminar o ensino médio e me preparar para a vida acadêmica.

Algum evento marcante na sua infância?

Eu passei minha infância andando pelo Brasil. Quando eu tinha 10 anos, nós estávamos morando em Campo Maior (PI). Resolvi andar de jumento sem cela e caí. Resultado: quebrei o braço. Médico naquela época era muito difícil, e meu pai me levou até um farmacêutico. O cara fez uma besteira no meu braço e não resolveu nada. Já em Manaus, o braço começou a gangrenar e foi amputado no terço superior do ante braço esquerdo.

Aí vem o problema: a gente acorda um dia e percebe que não tem mais um braço. Imagina isso na cabeça de uma criança de 10 anos. Desenvolvi complexo de inferioridade e sentimento de pena por parte das outras pessoas. Mas eu venci essas limitações e os complexos, e hoje tenho conquistas que muitos com dois braços não têm.

Como surgiu A Pioneira?

Bem, é um nome sugestivo. Como ela foi a primeira Assembleia de Deus no Amapá, nós colocamos esse nome. Serve também para fazer a diferença entre as outras que querem mais liberdade. Eu sugeri esse nome, na época meu pai ainda era vivo. Em 1994, quando criamos o estatuto da igreja, adotamos o nome. Ninguém pode usar essa nomenclatura sem autorização.

"Vivi momentos da revolução". Fotos: André Silva

“Vivi o tempo revolucionário”. Fotos: André Silva

Como foi sua vida acadêmica? Tem algum evento polêmico que podemos falar como, sexo droga e rock and roll?

Não. Sempre fui uma pessoa controlada. Nunca usei drogas. Cheguei a experimentar bebida alcoólica por causa das más companhias, e saiba que elas existem. Nunca fui mundano nem sensual, e não gosto de rock. Agora, eu extravaguei na revolução. Na época eu morava na Casa do Estudante no Pará e dividia o quarto com o vice-presidente da União Acadêmica Paraense, procurado pela Polícia Federal. Uma vez nós ocupamos o prédio do curso de Bioquímica e passamos mais de um mês lá dentro. O Jarbas Passarinho era o ministro da Educação, ele era militar, mas foi muito comedido e nunca mandou a polícia nos tirar. Participei de passeatas, fizemos estripulias. Eu vivi o tempo revolucionário. O Exército torturou, matou e fez tudo que não podia. A Dilma, o Lula e toda essa turma do PT são comunistas. A Dilma esteve num assalto ao embaixador norte americano na época.

O Dirceu foi pra cuba aprender táticas de guerrilha, e nem todo mundo sabe disso. O Genuíno comandou guerrilha no Araguaia. Então, o que eles queriam era implantar uma política comunista no Brasil. China apoiava, Cuba apoiava, Rússia apoiava. Nós estávamos na guerra fria e os Estados Unidos apoiavam a guerra contra os comunistas.

E nós estudantes não apoiávamos isso, porque achávamos que os Estados Unidos não podiam intervir e fazíamos passeata e muito barulho. Um dia, em um congresso que acontecia às escondidas em um colégio de padres, em Icoaraci, eu fui representando o movimento acadêmico, e um dos caras que era de uma corrente de pensamento divergente, que sempre tem, se levantou lá no meio e disse: vocês querem impor a ideologia de vocês e nós não concordamos, por isso vamos denunciar vocês para a Polícia Federal. Foi um para pra acertar. Todo mundo correndo de um lado pro outro, eram quase mil estudantes (risos). Muito Bom.

Como o senhor encara as críticas de que a igreja virou um grande negócio priorizando a arrecadação de dinheiro?

É pura ignorância. As pessoas que fazem esse tipo de crítica não estão inseridas dentro da realidade da igreja. Vamos partir do seguinte princípio: o time do Flamengo para existir tem que buscar recursos. Como? Com os sócios. O Barcelona a mesma coisa, os sindicatos, os conselhos regionais, enfim. Todos dependem de arrecadação. Como uma instituição como a Assembleia de Deus que tem mais de 30 mil fiéis, 400 pastores e mais de 200 templos pode se sustentar? Cobrando? Não. Vendendo? Não. Temos que sustentar pastores, temos que arcar com as despesas dos templos. À luz da Bíblia, é recomendado que o fiel dê dízimos. Nós não temos nem 10% dos membros da igreja dizimando hoje. A Bíblia, que é nosso manual de vivência, nos ensina a contribuir. Aqui nós gastamos hoje mais de R$ 8 mil com energia elétrica, R$ 4 mil com água, esse prédio novo custou R$ 6 milhões, e quem você acha que pagou? Foram os fiéis. Enfim, esses críticos não sabem de nada que acontece aqui.

Como a igreja encara as mudanças na sociedade, como por exemplo, a oficialização de união de pessoas do mesmo sexo?

O Estado não pode impor à religião, que tem a sua confissão de fé, aquilo que vai contra essa confissão de fé. A bíblia diz que o homossexualismo é pecado. Portanto, Deus e a igreja não comungam com o pecado. Deus ama o pecador, mas se aborrece com o pecado. Nós amamos o homossexual, mas não a homossexualidade. Nós temos trabalhado em restauração de vidas de pessoas que são homossexuais através de uma Companhia de Dança que funciona dentro das instalações do templo. Existem várias pessoas que são assim. É claro, eles não podem participar da comunhão da ceia e outras coisas, mas podem congregar sim, nós não impedimos a entrada deles aqui. Jesus veio para os doentes e não para os sãos.

Nós temos prova de que Deus restaura, mas o povo do mundo não vê isso. Nós somos contra a homossexualidade e aqui ninguém vai casar homossexual não. Ninguém pode obrigar. Nos Estados Unidos quase todos os estados estão fazendo o casamento homoafetivo, mas os conselhos das igrejas entraram com ação contra a imposição do governo. Ser cristão é ter uma mudança radical na vida.

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“Queremos abraçar igrejas que andam por aí sozinhas”

Qual o papel da Assembleia de Deus em meio a tantas igrejas, algumas inclusive dissidentes?

Umas são radicais demais. Outras criticam. Outras desapareceram. Por isso, há seis anos nós fundamos a União Fraternal das Assembleias de Deus no Amapá. Eu fui o presidente e agora é o Besaliel Rodrigues, líder da Assembleia de Deus Internacional. O objetivo é abraçar as outras igrejas que caminham por aí sozinhas.

E por que existem tantas igrejas dissidentes da Pioneira?

Vaidade e orgulho. Eles querem ser presidentes. Saem daqui e criam estatutos para serem presidentes. Eles dizem: “é melhor ser matupiri do que rabo de tubarão”.

As igrejas devem apoiar candidatos evangélicos?

A igreja não. Mas o crente, o líder, sim. A instituição Assembleia de Deus não pode. O que não quer dizer que a igreja não possa apresentar um candidato. Lá em Brasília você tem várias bancadas, deputados ruralistas, deputados que defendem os homossexuais, a liga parlamentar católica. Então, quando a igreja evangélica lança seu candidato todo mundo quer falar. Isso é para nos calar meu filho. Eles querem nos calar.

Algumas restrições estavam armadas para parar a igreja, e foi aí que nós despertamos. Querem impedir o som que tem na igreja, por exemplo, dizendo que é muito alto. Aonde se fazem as leis, não é no Parlamento? Então é lá que temos que estar também.

A igreja não tem apenas que orar pastor?

O que tu podes fazer com tua ação tu faz. Deus te deu inteligência pra você agir. Se você pode fazer, Deus não vai fazer. Se você ficar parado dizendo assim: “Deus manda comida”, Ele não vai mandar, você vai morrer de fome. Isso é porque você pode trabalhar e comprar comida. A gente não pode confundir. Quer dizer, só porque eu sou igreja vou deixar os caras me ferrarem. Ainda dizem que “a religião é o ópio do povo”. Para com isso. A gente tem que estar lá, pra discutir as leis. O novo Código Civil de 2002 ia ferrar a gente, ia nos rebaixar a uma agremiação. Aí a bancada parlamentar dos evangélicos foi lá e virou o jogo.

Costumam brincar que toda cidade pequena tem uma prefeitura, um banco e uma Assembleia de Deus. Isso se deve a que ?

É a visão dos assembleianos. Se existe uma vila e não tem Assembleia de Deus, então a gente vai fazer. É o costume. Se tem um loteamento, a gente compra um terreno pra fazer uma igreja. Nós temos até igreja nas aldeias indígenas. Temos até pastor índio. E essa ideia foi minha. Precisávamos de alguém que pudesse falar com o índio de igual pra igual, por isso fizemos assim.

O senhor esta afastado da política?

Nunca fui filiado a partido nenhum. Agora, eu sou mola pensante, influencio pensamentos. Eles me procuram por isso, eu sou líder. Mas eu também critico as ações de muitos. A próxima eleição é para vereador. Então resolvemos fazer uma prévia nas igrejas. A gente chama os candidatos que se encaixem com os padrões estabelecidos por nós, e vamos fazer uma consulta popular. Cada candidato escolhido irá visitar nossas 150 igrejas em Macapá e se apresentar. Depois nós iremos colocar urnas em cada uma dessas igrejas, já pedimos pro TRE, e iremos à consulta. O que tiver maior votação vai ser o representante da igreja. O momento é de conscientização. Antes, era pecado votar, crente não podia participar de política. Isso tem que acabar. Queremos seguir o exemplo de outras igrejas que adotaram essa postura e deu muito certo.

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“Eu que criei esse moleque. Eu que trouxe ele pra cá”

Pelo período que foi criada a União Fraternal, que foi há seis anos, mesmo período que houve o racha na convenção que o senhor juntamente com seu pai fundaram, como foi que isso aconteceu?

Eu e meu pai fundamos a Convenção Estadual dos Ministros Evangélicos das Assembleias de Deus no Amapá (CEMEADAP). Meu pai a presidiu por trinta anos. Já idoso, ele cansou do trabalho e me delegou a responsabilidade de escolher a diretoria. Nunca fui presidente, só ajudava a escolher a diretoria. Aí começou a chegar gente de Belém dizendo que aqui no Amapá a igreja tava crescendo, tinha convenção e tudo. Vieram Orlando Gaia e o Lucifrancis Tavares, que era jeitoso e falava bem. Os dois começaram a participar da CEMEADAP, e eu os colocava na mesa diretora. Um dia chamaram meu pai para participar da Escola Teológica das Assembleias de Deus (Etad), que é um curso teológico que tem em Belém, isso há uns trinta anos, e meu pai me mandou pra ver como era. Ficou difícil de trazer o curso para Macapá porque não havia ninguém que pudesse dar aula.

O que vocês fizeram, então?

Aí eu e meu pai conversamos e chamamos o Lucifrancis. Nós tínhamos que dar uma igreja para ele e decidimos nomeá-lo pastor da igreja do Igarapé da Fortaleza. Foi uma luta pra fazer isso, mas fizemos. Quando meu pai estava pra morrer, eu fiz a diretoria de novo e ficou assim: Lucifrancis, primeiro vice e Orlando Gaia, segundo vice. Algumas pessoas me diziam pra tomar cuidado com a nomeação da mesa, já que meu pai estava pra morrer e quem ficasse com a primeira vice-presidência assumiria a convenção. Não deu outra, meu pai morreu e o Lucifrancis assumiu, e começou a me por cabresto e me perseguir.

Como foi passar por isso?

Eu aguentei o quanto pude, mas não deu mais. Então resolvi sair. Ora, foi eu quem criou a CEMEADAP. Eu era a mãe. Ele ainda me chamou de rebelde. Rapaz, eu que criei esse moleque. Eu que trouxe ele pra cá. Depois veio me perguntar porquê eu queria sair, e eu disse que era por isso. Eu fiquei com as igrejas de Macapá, e não podia  fazer igreja na Fazendinha, que ele dizia pertencer a Santana, mas ele podia fazer na Rodovia do Curiaú. O pastor Dimas não aceitou isso e saiu também, fundou o ministério Zona Norte. O Lucifrancis queria tomar à força. O Dimas foi o primeiro a sair da Convenção. Hoje nós somos convencionados a Convenção Evangélica das Assembleias de Deus no Distrito Federal.

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