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ANDRÉ SILVA

Um jovem amapaense de 22 anos que convive com o HIV agora ajuda a conscientizar outros jovens quanto à prevenção. Filho de família evangélica, o rapaz contraiu o vírus aos 17 anos após uma relação sem proteção. Para ele, a falta de uma conversa franca dentro casa sobre o assunto pode levar os jovens a cometer o erro de se descuidar. 

No Amapá, quase 80 jovens convivem com HIV. Essa é a população mais atingida pelo vírus e a predominância ainda é de homens. Desses, 32 estão com a forma grave do vírus, a Aids, segundo dados do Sistema de Informação de Agravos e Notificações (Sinan).

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Rapaz convive com a doença há cinco anos. Hoje, ele busca conscientizar outros jovens sobre a prevenção. Fotos: André Silva

O jovem que nesta entrevista será chamado pelo nome fictício de Israel, concordou em falar para o portal SELESNAFES.COM sobre sua experiencia até aqui.

Israel faz parte de uma rede de jovens espalhados por todo o Brasil. Com uma equipe, ele dá palestras em escolas e ministra oficinas com um único objetivo: conscientizar a juventude quanto ao risco de uma relação sem proteção.

Onde você  nasceu?

Nasci em Belém do Pará e moro em Macapá há dois anos.

O que você faz?

Sou estudante do curso de letras e já estou quase me formando.

Como você contraiu o vírus?

Através de uma relação sexual. Descobri que estava infectado aos 17 anos. A pessoa com quem eu tive relação disse que poderia estar infectada e disse que eu também corria esse risco, foi quando fiz o teste e o resultado deu positivo.

Você tinha uma relação séria com essa pessoa?

Sim, mas foi algo bem rápido. Eu o conheci e tivemos uma relação desprotegida porque eu achava que a pessoa fosse saudável. Não imaginava que ela estaria infectada.

Essa pessoa ainda está viva?

Não. Ela faleceu esse ano, há três meses. Quando ela descobriu, estava super bem. Não tinha nenhuma infecção oportunista. Acho que o processo depressivo que ela teve acarretou para a sua morte.

Quando você decidiu fazer o teste?

Foi quando a pessoa com quem me relacionei disse que eu poderia estar com o HIV. Ela sabia da condição dela e não me falou que estaria infectada. Não sei se ela me  infectou de propósito ou …

Então você acha que essa pessoa sabia que estava infectada quando se relacionou com você?

Sim. Acho que sim. Porque ela tinha um histórico de comportamento de risco, então eu fiz essa análise. Quando essa pessoa teve a confirmação de que estava infectada não entrou em desespero, diferente de mim. Descobrir que está com HIV é sentença de morte. 

Nota do editor: sobre essa última frase, com o avanço da medicina especialistas dizem ser o contrário, se o tratamento for levado a sério

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Contaminado após relação com parceiro, garoto não desconfiou que corria risco

Qual foi a sua reação quando soube da doença?

Foi algo muito impactante na minha vida. Porque, apesar de ter tido pouco conhecimento sobre o HIV, não me imaginava naquela situação de estar vivendo com o vírus. Naquele momento foi algo que tudo mudou na minha vida.

A sua família sabe que você  é portador do vírus, qual foi a reação deles?

Sim, sabe. No início foi muito chocante para a minha mãe porque eu sou de uma família evangélica e isso nunca foi discutido dentro da minha casa, coisas sobre sexo, usar preservativo. Isso eram coisas que não eram discutidas. Então eu fui procurar fora, mas procurei de forma errada entendeu? Acabei me infectando. Mas eu falei para a minha família.

Você contraiu o vírus de um homem ou de uma mulher?

De um homem.

Como você vive hoje?

Eu tomo todos os cuidados. Procuro manter uma alimentação saudável. Me alimento de 3 em 3 horas. Procuro ter um sono saudável, não perco noites de sono, não bebo, não fumo.

Dá para ter qualidade de vida vivendo com o vírus?

Não. Cem porcento não. Mas dá para manter uma vida razoavelmente boa. Eu procuro me consultar a cada três meses com  o infectologista, então eu sei como estão meus leucócitos, minha carga viral meu CD4.

Eu estou bem, agora tem pessoas que não conseguem ter esse acompanhamento por dificuldades em aceitar sua sorologia, o que dificulta o tratamento. No começo eu aceitei de boa o tratamento, mas foi super difícil por conta dos efeitos colaterais da medicação. Mas já consigo driblar com o uso de outros medicamentos.

Qual sua rotina?

Academia, estudos, passeio com os amigos… Uma rotina normal.

Os teus amigos sabem que você é portador do vírus?

Sim, sabem. E eu sempre procuro informar que o HIV não passa por um abraço, beijo…

Como é seu tratamento?

Tomo quatro medicamentos todos os dias. Antes de dormir, eu tomo. Hoje em dia temos uma medicação que a dosagem é menor e o tempo de vida dele no organismo é maior, diferente do AZT.

Quais os planos para o futuro?

Pretendo me formar e ter mais conhecimento sobre o HIV, os medicamentos e as patentes, porque além de estudante eu sou um ativista nessa área. Espero ter uma vida profissional no futuro com emprego e ter condições de ter uma vida saudável.

Você é um ativista?

Sim, sou um ativista na luta contra a Aids. Atuo através de oficinas em escolas e em encontros. Realizo debate no meio dos jovens para falar sobre esse assunto tanto no movimento LGBT, quanto em outros movimentos.

O HIV abrange toda a população. Eu debato esse assunto com o jovem. Se olhar o boletim epidemiológico esse ano, ele dá uma ênfase maior na população jovem, entre 14 e 29 anos. Um dia eu fiz uma pergunta a um jovem, sabe? Perguntei por que eles contraem mais a doença. Um jovem me respondeu: é porque nós vivemos de momento, e na hora do sexo a gente não pensa em usar o preservativo e acaba que contraímos a doença. Percebo que a questão é cultural entre eles. Talvez isso seja a consequência da falta de informação dentro de casa, da escola. O HIV no Brasil está aumentando cada vez mais.

Você é ligado a alguma instituição?

Sou ligado a uma rede nacional de jovens Vivendo e Convivendo com HIV e Aids. Essa rede atua em todo o Brasil, e aqui no Amapá nós estamos começando esse trabalho.

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