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ANDRÉ SILVA

Roberval  Alves Correa, de 46 anos, é conhecido pelos evangélicos como Pastor João, e pelos clientes como “Batman”. Esse pai de família é aquele tipo que tem muitos amigos. Conversador e um dos melhores eletricistas de Macapá, hoje ele diz que a vida é falar do amor de Jesus pelas pessoas. Mas nem sempre foi assim. No fundo do poço, ele diz ter encontrado Deus, depois de quatro dias de muito bebida e drogas.

Macapaense, pai de três filhos e eletricista desde os 11 anos, Pastor João começou trabalhar muito cedo. Hoje, trabalha por conta própria e sempre que algum morador do bloco onde mora e é sindico precisa (Macapaba), ele está sempre disposto a ajudar.

Quando mais jovem se tornou alcoólatra e usuário de outras drogas. Por causa dos vícios, acabou tendo que parar por quatro vezes no Instituto de Administração Penitenciária do Amapá (Iapen).

Pastor João com jovens durante culto. Fotos: arquivo pessoal

De onde vem o apelido de Batman?

Era um apelido que ganhei quando garoto. Eu participei de uma olimpíada na Caixa Econômica Federal, ali na Avenida Padre Júlio em frente a praça Nossa Senhora de Fátima. No dia da comemoração, o pessoal disse para a minha mãe que toda criança tinha que ir fantasiada. Ela comprou uma roupa do Batman para mim que veio do Laranjal do Jari. Eu tinha uns oito anos. Quando chegamos lá, só eu estava fantasiado. Eu chorei, disse que não queria e alguns garotos que acompanharam essa história me reconheceram quando eu fui estudar no Tiradentes. Foi só um pé para eles me apelidaram e o apelido pegou. Mas hoje sou Pastor João.

Você começou a trabalhar com 11 anos, como isso aconteceu?  

Saí do Senai depois do curso de eletricista. Naquele tempo a gente fazia os cursos mais novos. Depois do curso, uma equipe chegou ao Senai precisando de eletricista, o meu professor me indicou e dali eu fiz a minha primeira obra que foi um balcão. De lá para cá, não larguei a eletricidade, e além dela também evangelizo e falo de Jesus para as pessoas.

Quando você foi preso pela primeira vez?

Eu tinha 30 anos. Todos dizem que a penitenciária não ressocializa ninguém, ao contrário. A penitenciária é um instrumento na mão de Deus para que o homem o busque. É como ele fez com o povo dele no Egito: os exilou. Assim ele fez comigo, me exilou na penitenciária.

Como foi sua conversão?

Um dia, um pastor me visitou na cela onde estava preso no Iapen. Ele disse que Deus tinha um plano na minha vida. Eu relutei muito, até que um dia eu fui lá para a cela onde eles buscavam a Deus e de lá pra cá minha vida mudou.

Você disse que viu Jesus. Como foi isso?

Um dia de manhã eu resolvi sair andando de casa, mas antes disso eu recebi a visita de um pastor. Ele me disse que Deus tinha algo muito grande para mim. Eu não dei muito papo porque pensava que aquilo era papo de pastor. Mas aquilo ficou na minha mente. O dia todo que passei andando foi só livramento. Eu estava há quatro dias bebendo e fumando. Quando foi de madrugada eu ouvi aquela voz dizendo: “anda”. Eu comecei a andar.

Quando cheguei a um canto, vi um homem. Eu bati no ombro dele e a palavra ‘mestre’ saiu da minha boca. Quando ele virou só vi aquela luz na minha frente, caí de joelhos.  Eu via as luzes na minha frente. Aquilo tocou no meu rosto e disse: “escolhe um nome pra ti”! Eu não sei de onde saiu, eu disse : “João”.

A nova vida do ex-detento se reveza entre o trabalho como técnico e como pastor

Então o João teve uma vida regressa?

Fui um homem alcoólatra, drogado, perdi tudo na minha vida, inclusive minha família.

Quem é o João?

Perguntei a Deus porque ele me instigou a escolher esse nome e ele me fez ver na bíblia o João Pregador. Ele andava com roupas feitas com pele de camelo pelo deserto. Era um homem que lutava contra a adversidade e pregava que o mundo não deveria caminhar assim. O que eu procuro fazer é a vontade de Deus.

Você se considera mudado?

A primeira coisa que Deus disse pra mim foi: “tenha humildade. Você está sofrendo porque não é humilde”. Ele falou mansamente comigo. Hoje, por meio da leitura da Bíblia, ele vem trabalhando na minha vida. Não sou rico, mas tenho o suficiente para sobreviver. Ele me disse: “cuida do órfão e dos necessitados” e é isso que eu faço.

Você tem filhos?

Tenho dois. Quando eu estava na penitenciária clamava muito a Deus perguntando que futuro meus filhos teriam. Eu tinha muito medo.

Eu tinha sete processos. Era pra eu passar de vinte a trinta anos na penitenciária. Em uma madrugada, eu lendo a Bíblia aproveitando a luz do corredor, porque às 22h as luzes das celas são apagadas, coloquei a Bíblia pra fora da cela e com a cara quase para fora da grade, Ele falou comigo no livro de Isaías e disse que eu não temesse. Hoje, meu filho de 22 anos, trabalha comigo na mesma profissão. Eu tive um encontro verdadeiro com Deus.

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