Por RODRIGO ÍNDIO, de Macapá (AP)
Onde antes passavam rabetas e pequenas embarcações carregadas de moradores e urnas eletrônicas, hoje restam bancos de lama e trechos completamente secos. No Arquipélago do Bailique, conjunto de ilhas a cerca de 180 quilômetros de Macapá, a estiagem severa e o fenômeno das “terras caídas” alteraram drasticamente a geografia local nas Eleições 2026.
A resposta da Justiça Eleitoral para garantir que a democracia chegue aos cerca de 5 mil eleitores da região veio em um formato tão inusitado quanto necessário: o transporte de urnas a cavalo.

Seca de 2025: a cada ano o fenômeno é mais intenso

Juíza Elayne Cantuária: primeira opção de usar bois e búfalos foi abandonada. Foto: SelesNafes.Com
A estratégia integra o plano de logística da recém-criada 14ª Zona Eleitoral do Amapá. Diante do assoreamento dos rios — que já provocou o desaparecimento de estruturas históricas da região, como a antiga Escola Bosque —, a navegação tradicional ficou inviabilizada em diversos trechos.
Segundo a juíza titular da 14ª Zona, Elayne Cantuária, a equipe precisou desenhar alternativas rápidas para que o acesso não fosse interrompido e a apuração não sofresse atrasos.
“Pensamos inicialmente em usar bois e búfalos, mas esses animais são lentos pelo peso que têm. Surgiu então a ideia de contratar pessoas da comunidade para levarem as urnas a cavalo. O cavalo consegue andar no alagado e no terreno seco com muito mais rapidez. É uma forma da Amazônia evidenciar sua maneira diferenciada de fazer justiça”, comentou.

Embarcações não conseguem chegar nos portos dos vilarejos
A operação no Bailique também marca a estreia do EcoEleições Bailique 2026, projeto-piloto do Tribunal Regional Eleitoral do Amapá (TRE-AP) focado em neutralizar os impactos ambientais do pleito. A iniciativa busca transformar a votação em um modelo sustentável.
Todo o lixo gerado durante a votação será recolhido, separado em resíduos orgânicos e recicláveis e transportado de volta à capital para destinação adequada.
Os cadernos de votação e documentos dos coordenadores serão transportados em sacolas ecológicas confeccionadas a partir de antigas lonas de proteção de urnas descartadas. Alem disso, serão realizadas ações de conscientização para evitar o descarte de plásticos e resíduos nas águas do arquipélago.
Para rebater o histórico de que as urnas do Bailique são sempre as últimas a ter seus dados computados, a Justiça Eleitoral apostou no envio de antenas Starlink para os pontos de apuração. A conectividade via satélite garantirá a transmissão imediata dos boletins de urna assim que as seções forem encerradas às 17h, com a expectativa de figurar entre os primeiros resultados contabilizados no estado.

Juíza Elayne Cantuária comanda a 14ª Zona Eleitoral
Acessibilidade: o voto que alcança a todos
A inclusão social completa a operação com a expansão do programa Seu Voto Importa. Para contornar as barreiras físicas impostas pelos rios e pelas trapicheiras das ilhas, a Justiça Eleitoral adaptou embarcações com rampas de acessibilidade.
Onde for possível navegar, uma lancha adaptada fará o transporte de eleitores com deficiência e mobilidade reduzida diretamente de suas comunidades até as seções eleitorais. A mesma ação de transporte assistido atende idosos residentes no Abrigo São José, garantindo que o direito ao voto seja exercido de forma digna e sem obstáculos.
