Por SELES NAFES, de Macapá (AP)
Ter milhões de visualizações, seguidores e curtidas nas redes sociais não significa necessariamente ter votos. As eleições deste ano no Amapá deixaram exemplos claros dessa diferença entre popularidade digital e força eleitoral. Um desses casos ocorreu no MDB com o influenciador indígena ‘Daldeia’. O grande alcance na internet não se refletiu nas urnas neste domingo (4).
Nascido na aldeia Karapijuty, nas terras Waiãpi (município de Pedra Branca do Amapari), Kauri Waiãpi, de 32 anos, se popularizou nas redes mostrando o cotidiano indígena e fazendo críticas com humor. No Amapá, que possui mais de 1,1 milhão de seguidores somente no Instagram (um das maiores contas locais), e mais de 3,4 milhões no Tik Tok.
Este ano, decidiu disputar uma eleição pela primeira vez após convite do presidente estadual do MDB, deputado federal Acácio Favacho, que se candidatou ao Senado e terminou em 4º na corrida. Apesar da enorme audiência digital, o influenciador terminou a eleição com cerca de 1.889 votos para deputado federal. Do fundo eleitoral, recebeu R$ 300 mil.

Daldeia tem 32 anos…

…e é de uma aldeia da etnia Waiãpi

O desempenho de outro influenciador do MDB foi ainda mais discreto. ‘Oziel Fulera’, menos conhecido nas redes sociais (quase 20 mil seguidores no Instagram e no Tik Tok), recebeu R$ 157 mil do fundo eleitoral do partido para conseguir apenas 178 votos. Os dois casos ajudam a demonstrar um fenômeno cada vez mais observado nas eleições: seguidores não são necessariamente eleitores, e engajamento não significa, automaticamente, intenção de voto.
Uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa…
Uma das explicações está na própria natureza das redes sociais. Uma pessoa pode seguir um influenciador por entretenimento, humor, curiosidade ou identificação com determinado tipo de conteúdo, sem enxergá-lo como alguém preparado para exercer um mandato. Além disso, parte significativa da audiência pode estar fora do Amapá ou até não possuir domicílio eleitoral no estado. O voto exige um nível de convencimento diferente daquele necessário para conseguir uma curtida, comentário ou compartilhamento.

Oziel Fulera tem 12,2 mil seguidores no Instagram e 7,7 mil no Tik Tok: 176 votos. Fotos: Rodrigo Dias/SN

R$ 157 mil do fundo eleitoral do MDB
Outros fatores também podem ter pesado. Uma candidatura a deputado federal depende de estrutura, presença nos municípios, militância, alianças, recursos financeiros e uma estratégia capaz de transformar conhecimento público em confiança eleitoral. Uma campanha mal direcionada, contudo, também pode desperdiçar uma grande audiência ao não apresentar ao eleitor motivos claros para levar uma personalidade das redes sociais ao Congresso.
A popularidade ajuda a tornar o candidato conhecido, mas não resolve sozinha uma eleição.
